sábado, 3 de setembro de 2011

Aventuras da Nina da Ria Formosa

Nina da Ria Formosa

À saída da praia, no limite da Ria Formosa mais próximo de Manta Rota, ouvimos miados que traduziam uma enorme ansiedade senão mesmo desespero. No meio das plantas aquáticas próximas de um caneiro encontrámos um gatito de poucas semanas de vida. Miando sempre, deixou-se apanhar com facilidade. Esperámos, uma boa meia-hora, pela possibilidade de resposta da mãe enquanto os movimentos do gatinho traduziam uma demonstração evidente de fome.

De resposta, nada. Era óbvio: fora, de acordo com os costumes locais, abandonado – o Percy que trouxemos há anos cá para casa também tinha sido abandonado – mas em local de impossível sobrevivência (se é que não escapou a um afogamento colectivo…). Ele há gentes…etc. e tal é o primeiro pensamento de repúdio e revolta – fazendo-nos esquecer que em parte alguma, escola incluída, existe qualquer preocupação para ensinar os princípios básicos para lidar com os animais que, como cães e gatos, nos são mais próximos. Nomeadamente no que diz respeito a cuidados elementares e necessidades de esterilizações… e assim nascem aos magotes com os resultados que se conhecem de abandonos, mortes por afogamento, transmissão de doenças, etc., etc.
Com uma caixa improvisada com coisas que sempre há nas malas de um carro em tempo de férias, resolvemos trazê-lo connosco – com dois gatarrões em casa a sua colocação não iria ser fácil… mas haveríamos de encontrar solução.















Meia-dúzia de telefonemas depois, a Ana conseguiu estabelecer uma rede que nos levou até à presidente de uma associação de defesa dos direitos dos animais em Tavira que nos indicou um abrigo de Olhão pertencente à ADAPO e capaz de o receber. Achamos melhor consultar um veterinário e deram-nos o contacto de uma veterinária irlandesa – dr.ª Sarah – que vive na área do Vale da Asseca. Novo telefonema e apareceu, sem qualquer problema, de imediato: eram dez da noite.

E foi então que percebemos que o gatinho era uma gata!

A drª Sarah em acção














Depois de algumas injecções, de tentar perceber o que poderia impedi-la de mexer bem uma pata, conseguimos instalá-la. Estava morta de fome, comeu tudo o que lhe demos e foi alimentada de quatro em quatro horas.

Conforme o combinado fomos, no dia seguinte, levá-la à associação de Olhão onde ficaria até aparecer alguém que a adoptasse. A viagem correu bem e, percebi, a ligação com a Ana era cada vez maior. Não sem alguma tristeza, deixámo-la na associação, deixando também o seu nome: Nina da Ria Formosa. E a esperança que a sua resiliência lhe permitisse a adaptação necessária à sobrevivência no meio de uma trintena de gatos, todos eles, comparativamente, enormes.

A Ana estava inconformada. Apesar da boa vontade evidente – por tão pequenina a coordenadora do abrigo levou-a para sua casa nessa noite - da preocupação em garantir meios de sobrevivência aos gatos, o local estava sobrelotado para a dimensão das instalações. Passou o resto do dia a fazer telefonemas, procurando entre amigos e conhecidos quem poderia ficar com a Nina. Encontrada guarida, voltámos a Olhão para a buscar.

Na volta, novo encontro e nova consulta com a dr.ª Sarah – só fala inglês (por enquanto diz ela). Detectado um surto de febre, mais injecções e mais pastilhas, melhor conhecimento da lesão na pata e aí está a Nina, de novo instalada em melhores condições, à espera que a levemos para Lisboa enquanto que o Percy e o Knight se mostram desconfiados com algum esquecimento a que ficaram sujeitos nestes três dias.

Nota: Numa ironia sobre impossibilidades, Desmond Morris deu como exemplo a improvável (ou até ridícula) relação gatos/jogadores de rugby. Claramente Morris não sabe nada de rugby e não terá grandes conhecimentos sobre estes felinos da nossa proximidade.
fotos jpb de telemóvel




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