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quinta-feira, 3 de março de 2022

O DESPORTO NÃO É NEUTRO

Texto publicado no Público

O desporto não é neutro


A invasão da Ucrânia levada a cabo pelas forças russas subordinadas ao comando absoluto de Putin, trouxe novamente à luz do dia a memória europeia do que tínhamos já e apenas como trágicas e dolorosas lembranças. O 24 de Fevereiro tornou numa terrível realidade quotidiana o que julgávamos irrepetível. Porque a realidade é esta: estamos em guerra — G-U-E-R-R-A! — e Portugal está directamente envolvido, quer pelo uso da base das Lajes, quer pelos nossos soldados que avançam para uma eventual primeira linha de combate.

O Desporto sempre foi um elemento fundamental de afirmação de povos e países e constituiu assim uma arma muito importante no domínio da diplomacia. Em 2013 e para evitar o afastamento da luta greco-romana dos Jogos Olímpicos, três nações juntaram os seus melhores atletas e participaram numa demonstração em plena Grand Central Station em Nova Iorque. O pormenor da importância deste evento na história do desporto mundial foi o dos seus actores terem sido os Estados Unidos da América, Rússia e Irão. Este evento demonstrou a importância do desporto na sociedade contemporânea e a força que o mesmo tem para superar diferenças de natureza política e diplomática.

Em 1948, noutro hemisfério, a África do Sul iniciava o período mais negro da sua história com a instituição do Apartheid, só terminado em 1994. O râguebi, pelos seus valores, sempre se mostrou capaz de estar do lado certo da história e proibiu a presença dos “springboks” nas duas primeiras edições do Campeonato do Mundo — 1987 na Nova Zelândia e 1991 na Inglaterra. O mundo deixava claro ao governo sul-africano que não tolerava políticas, fosse qual fosse o disfarce, objectivamente racistas. Em 1995, já sem apartheid, o mundo assistia a um momento único de magia e união dada pelos sul-africanos, inspirados pela presença nas bancadas de “Madiba” com a camisola n.º 6 do seu capitão.

Chegados a 24 de Fevereiro o mundo assiste, atónito e num misto de surpresa e medo, a uma invasão injustificável sob qualquer ponto de vista. Aquilo a que estamos a assistir na Ucrânia é uma invasão às fronteiras — essas linhas vermelhas da decência — da humanidade e da democracia. Esta invasão, apesar da admirável coragem do povo ucraniano, nunca se resolverá pelas armas. E, infelizmente, o desporto percebeu isso tarde. Ter sido possível realizar o jogo de futebol Betis-Zenit não causou estranheza, nem indignação. Dois dias mais tarde, e novamente em Espanha, realizou-se em Madrid um Espanha-Rússia em râguebi. Os responsáveis espanhóis invocaram para a realização do jogo, que lhes daria o título europeu, a desculpa esfarrapada de que as russas já estavam em Madrid há quatro dias e por isso — pasme-se — seria injusto não jogarem. Outros episódios se irão suceder e este não é tempo de ficar em cima do muro, até porque o tempo é de trincheiras. Não é tempo de recomendações, não é tempo de agradar a patrocinadores com camuflagens de não se tocarem hinos. É tempo de decisões!

O desporto não é neutro e isso deve obrigar a uma imediata suspensão de todos os atletas que representem a Rússia, joguem onde jogarem, das suas equipas e das suas selecções. E mesmo o actual n.º 1 do ranking ATP, Daniil Medvedev, ao dizer-se favorável à paz, não deveria, como demonstrativo e real protesto contra o assalto que o seu país está a levar a cabo, comparecer em qualquer torneio. É inadmissível continuarem a competir enquanto a paz não for decretada. E é por isso que nos congratulámos — embora pecando por tardias — com as decisões de suspensão da Rússia e Bielorrússia assumidas por diversas federações desportivas internacionais.

Dirão muitos que isto pode tornar-se numa caça às bruxas. Responderemos que a época de caça foi aberta a 24 de Fevereiro na Ucrânia com balas verdadeiras, com perdas de vidas humanas, com famílias destruídas e deixadas ao abandono da sua sorte. As balas disparadas pelo Desporto serão apenas sinais de fumo que podem contribuir para a sensibilização do povo russo para a rejeição interna desta enorme atrocidade.

Não há desculpas, o desporto tem de ser exemplar na aplicação das medidas sancionatórias, dando um sinal claro ao povo russo que se encontram do lado errado da trincheira e, ao mesmo tempo, mostrar a solidariedade que permita a esperança ao povo ucraniano.

A Humanidade agradece.

sábado, 6 de junho de 2020

A COVID-19 E O DESPORTO: UMA GUERRA PELA SOBREVIVÊNCIA

A pandemia do COVID-19 para além do rasto de morte que tem deixado — muito por culpa de políticos eugenistas, diga-se — está também a deixar de pantanas o Desporto, essa actividade que obriga a preparação cuidada e intensa numa base científica e que exige competição na procura da superação pelo rendimento do melhor resultado enquadrado na rota de excelência e do reconhecimento do mérito. A questão é de vista desarmada: logo que seja possível um depois, como vai ser? Que retorno vai haver depois das forçadas paragens em que o tempo foge definitivamente a uns e intervala demasiado para outros? Como recuperar? O que acontecerá às modalidades colectivas limitadas ao jogo executado por memórias distantes e impedidas de ampliar a determinante coesão técnica, táctica, estratégica dos seus elementos?

Se para as modalidades individuais, mesmo com a brutal falta de calendarização conhecida que permita uma periodização de treinos objectiva e adequada, ainda é possível uma manutenção da preparação em nível razoavelmente elevado, para os desportos colectivos o necessário distanciamento físico — e não social que desse houve e há num fartote quotidiano de diversas formas comunicativas — impede tudo aquilo que cada modalidade obriga. E não se pense que é apenas o Rugby, desporto colectivo de combate onde a conquista de terreno se faz num palmo de respiração comum, que é incompatível com a actual pandemia — olhe-se para o Vólei que se diz seguro porque tem uma rede a impedir contactos e que, afinal, não separa a respiração conjunta de um rematador contra um bloco de dois ou três adversários. Já o treino do atletismo em pista é possível com separações de 10 metros se em perseguição ou de dois corredores se lado a lado — e à velocidade mais próxima possível do exigido no alto nível competitivo.

Durante uns meses as modalidades colectivas ficarão limitadas a uma competição onde apenas participará um reduzido grupo de atletas do alto nível e sujeitos a regras de controlo constante, de enorme exigência e verificáveis antes de cada jogo. Jogo que se disputará, por falta do melhor entendimento das coisas, na frente do betão ou de truques a mascarar a verdade das bancadas vazias. É o que vemos no actual retorno do futebol português.

Aos adeptos da modalidade ou das equipas restará — teoricamente porque na prática a ver vamos — o sofá de casa ou um espaço comum de grupos de 20 na frente de um ecrã gigante de televisão ou virados uns para os outros, num faz de conta emocional, a lançar gritos de ânimo ou desânimo que os jogadores jamais darão conta. Mas, num golo transmitido por terceiros, saltos e abraços pela emoção colectiva que afirma o sentimento de pertença, não. Serão jogos que, para actores e espectadores, vão ter o sabor insonso das coisas por obrigação, mesmo que se comentem as vitórias e as derrotas sob o eterno prisma do mesmo culpado de sempre.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 já foram atirados para 2021 na quase certeza de que não serão realizados em terras japonesas porque um novo adiamento será quase inevitável uma vez que, ao que se sabe, não haverá vacinas em tempo útil para permitir a necessária preparação dos atletas e para o controlo dos milhares de visitantes que chegariam de toda a parte do mundo. A isto junte-se o aumento da desigualdade conhecida das possibilidades preparatórias de ricos e pobres com um desequilíbrio a aumentar muito entre uns e outros, entre aqueles que tiveram acesso às prevenções em tempo útil e aqueles que conseguiram, num resvés de aflitos, apresentar-se limpos de suspeitas infecciosas. E tudo numa mais que provável desvalorização de resultados. Porque a inexistência de factores de risco para os grupos etários jovens, nomeadamente para o grupo de 20/29 anos, dito saudável e ao qual pertencem a maior parte dos atletas não passa de um mito — veja-se o caso português para dados de 31/5/2020: o grupo etário 20/29 representa 13,3% da totalidade de infectados para 7,9% de infectados no grupo etário 70/79. Ou seja: o jovem grupo etário de 20/29 anos, não tendo praticamente qualquer risco de letalidade, constitui um risco enquanto grupo transmissor da infecção. O que exigirá cuidados especiais e testáveis para que seja possível iniciarem as suas práticas desportivas competitivas.

No fundo, os modelos de referência que atraem e seduzem e que estão na base da sequência circular da substituição rejuvenescida estarão longe do seu melhor, atraindo menos e abrindo espaços para outras naturezas que, insidiosas, se apoderarão do vazio com promessas de fácil atractividade e com apostas seguras, sem riscos aparentes ou dificuldades de acesso.

Vai ser assim: por culpa daqueles que insistem em dar o nome de Desporto a tudo que mexe, ignorando as diferenças para a actividade física ou para o mero lazer de movimento e que insistem quer na sua insofismável e absoluta visão salutar, quer na dificuldade de entender que a importância do “Desporto para Todos” se centra, acima de tudo, na preocupação pelo direito de acesso à prática desportiva competitiva por culturas de diferentes raças, religiões ou costumes, o  e-sports, mexendo os olhos e os dois polegares, aí estará, com toda a naturalidade que possa aparentar nomeadamente mostrando a moralidade de preocupações anti-dopagem que usará como suas, para ocupar, com a sua enorme capacidade financeira, o vazio que ficará no buraco desta pandemia.

E se não houver percepção de que existem novas e diferentes exigências para salvaguarda do Desporto, preparando novos processos estratégicos de implementação e de acesso a apoios governamentais específicos, perder-se-ão, para além da importância da complexidade do seu modelo, as características do Desporto que definem o seu enorme valor social: integração, excelência, mérito
.
Como em tudo o resto na vida, o Desporto que conhecemos pode, por ignorância, equívoco ou distração, não ser para sempre. E o outro dito desporto que nos espera, o e-sports, viverá pelas vistas curtas de manutenção de uma ignorante mistificação primária: que o elemento central do Desporto é a Juventude.

(publicado na Tribuna Expresso, Opinião, Comité Olímpico de Portugal, 05/06/2020)


sábado, 22 de junho de 2019

PORTUGAL NOS JOGOS EUROPEUS DE MINSK 2019

A Missão de Portugal aos Jogos Europeus de Minsk 2019 na Cerimónia de Abertura com o mesatenista e medalha de ouro “por equipas” nos anteriores Jogos de Baku, Marcos Freitas, como porta-bandeira

segunda-feira, 20 de maio de 2019

NO 37º E GRATO AO TRANSFORMADOR

A preparar os festejos na bancada da Luz (foto M.Aguiar)

 Quando o SLB estava em quarto e com 7 pontos de atraso dificilmente poderia imaginar que iríamos chegar a 18 de Maio e assistir, na Luz, na casa do Benfica  — porque é em casa que as comemorações sabem melhor — ao início da tremenda festa que levámos até ao Marquês. Que seríamos campeões!

A coisa com Rui Vitória, depois de um tempo agradável e ganhador, começou a correr mal — questão de processos e métodos, de entendimento e concepção do jogo ou mesmo de cansaço. A equipa, fosse qual fosse a razão, afundava-se num jogo sem alma.

Por sortes ou razões que ainda se desconhecem, a responsabilidade foi entregue a um treinador da casa: Bruno Lage. E tudo se transformou.

Transformou-se a forma de jogar, transformou-se o sistema de jogo, transformou-se a atitude. Transformou-se a metodologia do treino, diminuindo a importância do volume para aumentar, de acordo com a actualidade do conhecimento, a intensidade. E de certeza com acções de treino directamente relacionadas com o jogo numa metodologia que Mourinho justificava assim: nunca vi um pianista a preparar um concerto dando voltas a correr à volta do piano. Multiplicaram-se assim os golos — o objectivo do jogo — multiplicaram-se os jogadores disponíveis. De um momento para o outro a cultura táctica ganhou o espaço de responsabilidade de cada jogador como resultado de uma evidente coesão colectiva. Enfim, uma equipa, um princípio, um propósito desmultiplicado por cada acção de jogo.

E esta transformação tem um responsável: Bruno Lage. Capaz de estender a transformação e colocar o Desporto, como o fez com a sua intervenção no Marquês, no seu devido espaço, hierarquizando e enquadrando a sua importância.

Bruno Lage, o Transformador.




quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

SOBRE A PROPOSTA DE LEI PARA TREINADORES DE DESPORTO

1. INTRODUÇÃO
Tenho enorme dificuldade em compreender o porquê do envio à Assembleia da República por parte do Governo de um pedido de alteração a uma legislação (Lei nº 40/2012 de 28 de Agosto) onde, nada de substancial, é alterado.
De facto o “regime de acesso e exercício da actividade de treinador de desporto”1 actualmente em vigor nada tem provado no sentido da melhoria efectiva da qualidade do treino ou dos conhecimentos actualizados dos treinadores pelas melhores práticas internacionais. Urge modificá-lo: nos conceitos e nos objectivos.
Para além de uma hierarquização dos níveis de treinadores e do estabelecimento dos conhecimentos mínimos de acesso, o actual sistema nada garante que realmente fomente e favoreça a aquisição de conhecimentos gerais e específicos que garantam competência técnica e profissional na área da intervenção profissional”2. Pelo contrário, querendo ser tudo, mistura conceitos3, impõe absurdos4 e fomenta abusos — já sem falar no facto de esquecimento de uma exigência preventiva elementar para quem trabalha com crianças: o registo criminal. Ou da frequência obrigatória de um curso de primeiros socorros.
Claro que deve haver demonstração de competências para o acesso aos diferentes níveis mas o sistema criado, ao transformar treinadores — tanto os recém-chegados como os experientes e com mais do que resultados demonstrados — em estudantes compulsivos não favorece o seu “aperfeiçoamento qualitativo” e levará a uma cada vez menor apetência pelo acesso à carreira. 
Porque, lembre-se, raras são as possibilidades de uma carreira de treinador autónoma — a maior parte dos treinadores têm (porque materialmente obrigados) dupla profissão, a designada “carreira dual”5. E este sistema pretende uma tripla carreira dividida entre o tempo de treino e da sua preparação, o tempo de estudos e pesquisa de acordo com as necessidades de desenvolvimento específicos da modalidade, da equipa e dos seus jogadores a que obrigam a acrescentar ainda o tempo da procura de créditos para garantir a manutenção da certificação. Ora isto é absurdo e representa um abuso do qual nada garante de criação ou acrescento de valor. 
Sabe-se de fonte segura: a mais importante componente da aprendizagem realiza-se informalmente. E a que mais aprofunda conhecimentos é, através da informalidade, impressiva e idiossincrática que formam o conjunto do que vai permitir a investigação e a inovação. Ou seja: cada um procura o que melhor lhe serve e quando não encontra pesquisa ou pergunta a outro que saiba6. Até que encontra os elementos que, produzindo conhecimento, lhe permitem transformar e saber. 
Hoje em dia a internet possibilita o acesso a estudos realizados nos mais diversos domínios da prática e desenvolvimento desportivos, possibilitando ainda o acesso directo a conferências ou debates entre conhecedores profundos das diversas matérias. É só ter o cuidado de escolher! E esta escolha, assinalando a qualidade, deveria ser ajudada, no método e na forma, pelas entidades desportivas que pretendem a melhoria do treino desportivo, nomeadamente pelas federações.
A aprendizagem formal esgota-se nos conhecimentos considerados absolutamente necessários para possibilitar o início da prática profissional. A partir daí, a necessidade do conhecimento e matérias de estudo e actualização pertencem a cada um na certeza porém de que os exames públicos semanais a que os treinadores estão sujeitos depressa expõem as vulnerabilidades de quem se deixou atrasar.
Mas a necessidade de um treinador se manter actualizado com as metodologias de treino, as organizações competitivas, os regulamentos, as leis do jogo, as formas mais adequadas de alimentação, as implicações de usos e costumes nos níveis das formas desportivas, etc., etc. não justificam a imposição programática de uma formação. O direito à liberdade de escolha dos treinadores é geral. E se os responsáveis dos clubes podem, esses sim porque têm a responsabilidade dos membros das suas equipas, exigir uma determinada formação particular dentro do quadro desportivo em causa — ao Estado cabe apenas a exigência dos mínimos que não ponham socialmente em causa a prestação de um serviço. Aliás o conjunto de especialidades necessárias para a formação de uma equipa técnica responsável por um atleta ou equipa desportiva de rendimento se exige um mínimo de conhecimento sobre a importância de cada especialidade para que o recurso seja efectivo, não impõe nenhum estudo qualificado sobre o assunto: basta saber que, para a matéria, existe um especialista para ser consultado.      
Portanto este sistema não é transformador, não promove a descoberta e apenas impõe a vontade do controlador, representando uma visão estacionária e conservadora. Mas determinada na sua imposição de poder.

2. O ABUSO DO ENQUADRAMENTO
O diploma em causa é abusivo, viola o direito e o respeito profissional e demonstra ignorância sobre a actividade de treinador.
A exigência da “formação contínua obrigatória”, não fazendo, por abusivamente impositiva, qualquer sentido — qual é a Ordem profissional que tem obrigatoriedade de formação contínua? — também não contribui para qualquer acréscimo de valor e apenas serve para fazer diminuir o número de treinadores com experiência, estabelecendo ainda — num tratamento idêntico para o que poderá ser diferente — a “correspondência de unidades de crédito com as horas de formação” e “o número mínimo de unidades de crédito” obrigatórias no somatório redentor.
Por outro lado a existência de “formação contínua obrigatória” ao contrário da pia intenção de impôr conhecimentos — que de facto ficarão ao critério dos grandes beneficiários do sistema que são as organizações de formadores — não é garante de qualidade. A qualidade vem da existência e possibilidade de acesso a “formações” que, por não serem obrigatórias, têm que ser interessantes e capazes de transmitir conhecimentos actualizados que traduzam um verdadeiro acréscimo de valor para os frequentadores — é, aliás, assim que as formações profissionais enchem salas de interessados. O valor da formação não pode estar nos créditos — como este regime preconiza — mas nos conteúdos transmitidos e o treinador, como qualquer outro profissional, tem direito à liberdade da sua escolha para a construção da sua carreira.
Deveria, ao contrário do que demonstra, a preocupação governamental centrar-se na exigência de que os organismos desportivos proporcionassem aos treinadores estágios, cursos, conferências, etc. que lhes permitissem as actualizações necessárias à eficácia dos seus propósitos e métodos. Porque na forma obrigatória actual as vantagens do sistema concentram-se no interesse dos formadores e não nas necessidades do verdadeiro desenvolvimento desportivo.  
A vida profissional de um treinador relaciona-se com os resultados, sejam eles desportivos ou formativos e o aumento de conhecimentos que lhes permitam o domínio do saber no seu campo de intervenção deve ser a preocupação maior de quem tem como obrigação preocupar-se com a melhoria qualitativa do Desporto português.  

3.  ABUSO INADMISSÍVEL
Não satisfeito com esta imposição de conhecimentos que alguém sentado atrás de uma secretária entende como importantes para o exercício profissional, este regime impõe a sanção maior e manifestamente desajustada — espécie de pena de morte — ao decidir fazer caducar a certificação profissional obtida e utilizada durante anos7 se o treinador não frequentar as ditas acções de “formação contínua” sejam eles treinadores que nunca exerceram a profissão ou que a exerceram durante anos, plenos de experiência e de resultados efectivos. Chama-se a isto desperdício de conhecimento e experiência sem outro resultado que não seja a diminuição do número de treinadores disponíveis.
Porque as competências estão adquiridas e experimentadas e não podem ser deitadas a um qualquer caixote do lixo por imposição de um qualquer burocrata de secretária zelador do seu poder.
Impedir o exercício profissional seja a quem fôr é competência dos tribunais; aos organismos profissionais compete apenas a autoridade disciplinar limitada.
Retirar a certificação profissional de treinador representa uma violação do Estado de Direito e contraria os princípios Republicanos da nossa Democracia e, como tal, deve ser retirada sem qualquer margem para dúvidas. 

4. O EXAGERO E A CONFUSÃO.
O diploma ao estabelecer o que considera “Praticantes de elevado nível”8 estabelece, numa óbvia confusão prática, metas temporais desajustadas e não equiparáveis. A terminologia utilizada  deveria ser substituída por “Atletas de Alto Nível” ou por um mais adequado, pela sua relação com o estatuto existente, “Atletas de Alto Rendimento”. O termo praticante é demasiado genérico sendo aplicável a qualquer pessoa que pratique uma qualquer modalidade sem que isso signifique que se encontra inserida na área Desporto e não deve ser utilizado neste enquadramento.
Estar “inserido numa liga profissional”9 não tem a mesma equivalência do que ter estado inserido no “regime de alto rendimento”10 ou que “tenham representado a selecção nacional do escalão absoluto”11. Estas forçadas equivalência apostam ainda num mesmo tempo de “oito anos” — 3 anos a representar uma selecção nacional, com o numero de jogos internacionais anuais que existem hoje em dia, proporciona uma experiência superior e permite retirar conhecimentos inigualáveis por outro processo. Oito anos?! dos 23/24 anos aos 31/32?! Esta exigência não faz qualquer sentido e não constitui qualquer incentivo para o aproveitamento da experiência acumulada. Por outro lado o que significam competições “que conferem o título nacional, em cada país, da respectiva modalidade”12?. Em Portugal o costume determina que existem títulos nacionais atribuídos em todas as divisões — campeão nacional da I divisão ou campeão nacional da II divisão, etc. O que se pretende com esta redação? Confusão como resultado, pela certa.
No caso dos jogadores internacionais a métrica mais adequada deverá ser, muito provavelmente, o número de internacionalizações.

CONCLUSÃO
Este regime que agora o Governo propõe pouco difere do regime anterior e mantém os pontos gravosos e prejudiciais ao desenvolvimento qualitativo e digno do exercício da profissão para além de manter a confusão habitual de conceitos.
Acima de tudo o novo regime nada aprendeu sobre as consequências negativas resultantes do regime anterior, tão pouco se terá apercebido da diminuição do número de treinadores por não terem atingido os créditos exigíveis. O facto é este: após cinco anos de exercício do regime que agora o Governo pretende alterar não existe nenhuma evidência que a qualidade dos treinadores se alterou positivamente pelo sua aplicação. Mas nada se aprendeu ou procurou aprender dos resultados do regime utilizado.
E não se aprendeu ao ponto de se manter o conceito de “formação contínua obrigatória” a que se junta o duvidoso somatório de créditos sem perceber, por um lado, o carácter abusivo da imposição de domínios de conhecimento num dirigismo de má memória. Mas pior do que tudo é o facto, completamente inadmissível, repete-se, num Estado de Direito, de manter a abusiva e ditatorial possibilidade de fazer caducar um título profissional, eventualmente carregado de experiência, conhecimento e resultados, por o seu titular não ter frequentado as “acções de formação contínua nos termos definidos por portaria do membro do Governo responsável pela área do desporto.”13
Os treinadores, com a dependência que têm de resultados formativos ou desportivos, têm que estudar, manter-se actualizados e preparados para a tarefa profissional que desempenham não tendo — se pretendem singrar na carreira e com os exames públicos semanais a que estão sujeitos — mesmo outra hipótese, mas mantêm o direito, ultrapassada que seja a fase de acesso inicial à carreira, de decidir o que pretendem estudar e qual o perfil que desejam construir para a sua carreira.
Face ao exposto considera-se que a Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto da Assembleia da República deverá devolver ao Governo a Proposta de Lei nº146/XIII com a recomendação, para além de utilizar uma linguagem conceptual mais clara e menos confusa, de alterações profundas nos seguintes pontos:
— terminar com a obrigatoriedade da formação contínua que deve passar a ser de escolha livre e não sujeita ao utilitarismo dos créditos mas sim ao interesse dos conteúdos formativos para a carreira de cada treinador;
—  adequar, no tempo e no modo, a definição de “Praticantes de alto nível” à realidade das diferenças existentes nas diversas práticas consideradas, nomeadamente, no tempo necessário, que deve ser reduzido, dos jogadores internacionais;

— eliminar definitivamente e sem margem para dúvidas a possibilidade administrativa de fazer caducar o título profissional.

1 Proposta de Lei nº 146/XIII
2 Alínea b), Ponto 2 do Artigo 2º, Objectivos
3 Exemplo: Alínea b), Ponto 1 do Artigo 2º —“A defesa da saúde e da segurança dos praticantes, bem como a sua valorização a nível desportivo e pessoal, quer quando orientados para a competição desportiva quer quando orientados para a participação nas demais atividades desportivas.” A 2ª parte da alínea só cria confusão…
4 Alínea b), Ponto 2, doArtigo 2º — “Impulsionar a utilização de instrumentos técnicos e científicos, ao longo da vida, necessários à melhoria qualitativa da intervenção no sistema desportivo;” e porque é que este impulsionar impõe a imposição de determinado tipo de formação?
5 Artigo 10º — C
6Para onde vais? Vou estagiar 15 dias com fulano” é um sistema habitual de formação informal de que resulta um acumular de conhecimentos que podem ser utilizados com bom proveito.
7 Ponto 2 do Artigo 8º — “O título profissional caduca sempre que o seu titular não frequente, no período de três anos, ações de formação contínua nos termos definidos por portaria do membro do Governo responsável pela área do desporto.”
8 Artigo 10º—B
9 Ibidem
10  Ibidem
11 Ibidem
12 ibidem
13 Ponto 2, Artigo 8º já citado

quinta-feira, 5 de abril de 2018

VIOLÊNCIA NO DESPORTO NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

A Assembleia da República, através da sua Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto a que se juntou a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, realizou, na Sala do Senado, uma Conferência Parlamentar subordinada ao tema “Violência no Desporto” com duração de um dia e organizada em torno de três painéis: Painel 1 - A violência no Desporto vista pelas organizações do fenómeno desportivo; Painel 2 - A Justiça e a violência no Desporto; Painel 3 - Violência no Desporto: que papel para a Comunicação Social. A sessão terminou com intervenções dos representantes dos Grupos Parlamentares que constituem a Assembleia da República.
Pese a densidade do número de horas, o domínio do tema era suficientemente interessante para me fazer estar presente. E ouvi do primeiro ao último minuto.
A minha primeira anotação foi de estranheza. 
A estranheza - anotada também pelo conferencista Presidente da Confederação Portuguesa do Desporto de Portugal - surge no enunciado que deu nome à conferência. A violência que se pretendia escalpelizar, não está no Desporto, isto é, no domínio do confronto que lhe é próprio e  que, nesta matéria, tem a sua auto-regulação eficazmente estabelecida, mas sim na sua envolvente, isto é, nas componentes que transformam o Desporto em Espectáculo Desportivo. E para a compreensão deste equívoco que trata faces diferentes da totalidade de um fenómeno que tem raízes distintas, vale a pena lembrar a intervenção do Presidente do Comité Olímpico de Portugal que, já depois de uma excelente e esclarecedora intervenção sobre o tema geral, muito bem definiu, aclarando a confusão, os domínios de responsabilidade da regulação desportiva e da regulação estatal. Aliás, na Conferência, esta confusão, resultante até da ordem definida dos oradores que, não seguindo o caminho do geral para o particular, colocou o foco do tema no futebol. E tão de futebol se falou que a conferência se deixou marcar pelos pontos de vista do Presidente do Sporting Clube de Portugal…
Aliás a demonstração de que a violência não está no exercício do Desporto verifica-se na evidência de nunca se ter falado do Atleta - apenas, num ou noutro momento, de jogadores de futebol e apenas por razões laborais.
Assente a focalização no futebol, embora aqui e ali se ouvissem vozes a tentar alertar para a existência da violência noutras envolvências desportivas, pouco se opinou sobre o como intervir naquilo que o Presidente do Sindicato dos Jogadores (de futebol, claro!) definiu como “terra de ninguém”, esse espaço vazio onde nem a capacidade legislativa da Assembleia da República, nem a capacidade interventiva do Governo ou dos promotores do espectáculo desportivo ultrapassam a intervenção tímida e pouco exigente, misturando conceitos para, no fundo, entregar a água do seu capote ao parceiro do lado.
E ouviram-se coisas, mesmo se algumas encobertadas pela preservação dos valores do Desporto chamados então à liça, de espantar.
Como, por exemplo, a proposta do Presidente da Liga de Futebol Profissional - julgo ter percebido que seria para as claques visitantes - do retorno do velho “peão” - áreas não enladeiradas - mesmo se assente no sofisticado conceito de área de cadeiras removíveis (não vá a UEFA torcer o nariz), ignorando - mas muito de acordo com o momento de retrocessos que nos parece assaltar - as mais elementares regras de segurança que a transformação do espectáculo desportivo em espectáculo de massas exige. Se o limite estabelecido para não cair na zona de ocupação espacial de elevado risco é de 5 pessoas por metro quadrado, como garantir - não falando já no conforto dos lugares sentados - que o “peão”, para mais em superfícies inclinadas ou em plataformas, terá a segurança necessária. É que o facto de se pretender ver o jogo de pé não invalida, por razões de objectiva segurança, a necessidade do controlo do posicionamento das pessoas não deixando, nomeadamente, que a nova densidade ultrapasse a densidade resultante dos lugares sentados, garantindo assim o cumprimento do princípio essencial de “uma pessoa, um bilhete, um lugar”.
Não lhe ficando atrás, ouvi a pretensão de um dirigente clubista de aumento do “perímetro de segurança” dos estádios para melhor controlo de adeptos. Claro e o papel das cidades e dos seus habitantes não é outro mais do que ficarem reféns dos jogos de futebol, deitando às urtigas os direitos da cidadania numa subordinação preocupante às exigências simplórias do desporto-rei... fomentando o aumento da “terra de ninguém”: não se ataca o problema da ineficácia do controlo dos maus comportamentos dos adeptos e joga-se apenas no campo da irresponsabilidade do afastamento.  
Também vieram à baila as questões - já recorrentes num país de pouca dimensão e baixa cultura desportivas - do qual do se "com" ou se "contra" definirá o confronto desportivo, bem como os pretendidos malefícios do "resultado" que envolvem o Desporto e a sua prática. A resolução parece-me simples e sem qualquer duplicidade. Naturalmente que o Desporto é "com" porque o "eu" ou o "nós" precisam de outros para competir - a competição consigo próprio não é Desporto! - mas também é “contra” porque são necessários adversários que, com a sua oposição e qualidade, possibilitem a superação individual ou colectiva que define o Desporto. Como sistema complexo que é o Desporto precisa de colaboração (acertar as regras, calendários, locais, etc.) e de oposição (o jogo competitivo). E daqui, desta competição com opositores (porque têm o mesmo objectivo), não vem qualquer mal ao mundo porque estabelecida em regras e normas previamente definidas e acordadas e directamente julgadas por mediadores que garantem a igualdade de oportunidades de cada prova ou momento. E se o Desporto é superação, a sua avaliação faz-se através do resultado. Que não é a fonte directa de qualquer mal mas, como tudo na vida, pode ser bem ou mal perseguido. O Desporto, como a vida, também apresenta a necessidade da escolha. E, para a balizar, criou-se um conjunto de regras - baseadas em Princípios e Valores - que definem o corpo da designada Ética Desportiva.
A questão não estará no resultado - que garante, entre outras coisas, as componentes da pesquisa científica, da inovação de materiais, de métodos ou de processos, do desenvolvimento motor, do controlo da saúde, do equilíbrio competitivo  ou da atractividade que também caracterizam o Desporto - mas sim na criação de formas e meios que evitem a batota na sua construção. Porque Desporto, sem resultado, não existe!
Também se percebeu, apesar dos prejuízos que causam ou causarão à solidez financeira do futebol, que dificilmente nos iremos ver livres do bullying provocado pelos comentadores que enxameiam os programas televisivos de futebol e que, avisaram os jornalistas presentes, poderão, nos tempos mais próximos, tornar-se ainda piores. Mas também aqui, ninguém parece procurar soluções que ultrapassem o deixar andar até que caiam. Porque encarar de frente os problemas e resolvê-los inteligente e eficazmente, não é adequado à permissividade que invadiu a Democracia. Também aqui se ficou pelo esperar para ver.
O futebol, reconheceu-se, está sob suspeição. Por razões diversas, algumas mais conhecidas outras menos. No entanto parece-me que uma das razões que tem tornado o futebol mais atreito a jogo sujo dentro de campo deve-se ao facto de, ao contrário de diversas outras modalidades e muito por uma sua pretensiosa posição de superior importância, nunca ter adaptado as suas regras disciplinares às alterações que a passagem ao profissionalismo e à globalização forçosamente exigem - um bom exemplo dessa má postura é a entrada tardia, mal estruturada e sem qualquer recurso à muita experiência de outros, do vídeo-árbitro. Infelizmente neste campo da exigência da garantia evidente do jogo limpo, tratando-se de uma resultante importante do domínio da auto-regulação desportiva, parece ficar-se à espera que outras entidades instituam a composição do cenário, colocando a mão por baixo do que já não é inocente.
O que não ouvi e teria gostado de ouvir, foram respostas a uma simples pergunta e que, na minha opinião, deveria ter marcado todos os painéis deste Debate Parlamentar: porque é que estamos organizados assim? Ou e de outra forma: como é que chegámos a esta situação?
Encontrada e analisada a evidência das causas, poderemos então encontrar as soluções que real e eficazmente ataquem e resolvam os verdadeiros problemas, ultrapassando as contingências, sejam de que tipo forem, que impedem o cumprimento dos princípios cívicos que a Democracia defende e os princípios e valores que o Desporto exige. Porque a violência na envolvente desportiva existe e não pode ser admitida.

domingo, 1 de abril de 2018

ÉTICA, DESPORTO E CIDADANIA

No título da conferência, a exposição do conceito de que não há Desporto nem Cidadania sem Ética, esse conjunto de valores e princípios que devem nortear a nossa conduta. 
Domínio de estudo da Filosofia conhecido desde, pelo menos, a Antiguidade Clássica, a Ética exige, para sua expressão prática, referências suficientemente reconhecíveis para permitir o seu exercício quotidiano.
Para que serve a Ética? Para colocarmos um adequado limite às nossas acções, não ultrapassando na sua expressão a linha separadora que limita o correcto do incorrecto.
O filósofo e pensador brasileiro Mário Sérgio Cortella, formulando que a Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: Quero? Posso? Devo? Conjugando-as em "coisas que Quero mas não Devo; coisas que Posso mas não Devo; coisas que Quero mas não Posso”, o filósofo define que a paz de espírito existe quando aquilo que queremos é, simultaneamente, o que podemos e o que devemos fazer.
Ou seja, no dia-a-dia das nossas acções e decisões, a Ética baliza-se pela Decência. Podendo então dizer-se que é éticamente correcto ou positivo aquilo que é Decente! E todos nós, seja qual for o nível de estudos e conhecimentos adquiridos, temos - devemos ter com o que aprendemos na escola e uns com os outros - uma noção clara do que é Decência e do que nos deve limitar nas escolhas.
O que é então Decente no domínio do Desporto?
A primeira ideia que normalmente surge ao falar de Desporto é a de fair-play, esse conceito de espírito desportivo que pretende transmitir a ideia que, visando o seu mais alto rendimento e dando o seu melhor para ganhar, o jogador, o atleta, não deve ou pode tirar qualquer vantagem de algo exterior ou violador quer das regras previamente definidas para cada jogo quer das regras de relacionamento da cidadania. O que coloca uma questão central: como conseguir materializá-lo num mundo cada vez mais hiperindividualista, cheio de pós-verdades e combinações materialistas de interesses onde qualquer meio parece valer para atingir um fim?
E não pode ser assim. Como diz Irene Flunser Pimentel, historiadora contemporânea e Prémio Pessoa 2007, "um fim só é interessante se o meio para o atingir for ético”. E no Desporto não vale, não pode valer, a vitória a qualquer preço por mais que todos nós a procuremos atingir e consideremos a sua importância. 
Nem a vitória é a única forma de sucesso nem a derrota é ponto final de coisa alguma. Aprender a viver com estes conceitos é meio caminho para uma conduta decente. 
Pessoalmente sou um privilegiado nesta matéria. Tive sempre presente o exemplo ético de meu Pai - jogador federado de futebol, andebol e ténis - e as preocupações de minha Mãe para uma representação prática e efectiva de espírito desportivo que ficaram enfatizados numa frase que me tem marcado a vida: “uma derrota, por pior que seja, é sempre mais honrosa do que uma vitória com batota". O resto veio no acréscimo da frequência da então melhor escola de ensino e prática desportiva do país e uma das melhores da Europa - o Colégio Militar - onde o Desporto, na sua variedade expressiva, era encarado nas exigências de excelência das suas componentes globais de superação e de conduta. E, foi com esta base de aprendizagem que se traduzia no respeito, lealdade, humildade, disciplina e solidariedade por companheiros, adversários, árbitros, dirigentes, espectadores, por nós próprios e pelas regras do jogo que encarei sempre a minha carreira desportiva no quadro da Ética.
No Rugby, modalidade de expressão do meu Alto Rendimento e que defino como "modalidade colectiva de combate organizada para a conquista de terreno com o propósito de marcar ensaios”, encontrei a continuidade dessa expressão.
Um dos clubes mais conhecidos e tradicionais do mundo do Rugby - os Barbarians RFC, clube de convites que existe desde 1890 - tem como lema [8] o conceito, idealizado pelo reverendo anglicano W. J. Carey, que “o Rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas não para maus desportistas seja qual for a sua origem”. Este lema assegura que os Barbarians não descriminam pela classe de origem, raça, credo ou cor e que a única qualificação necessária para ser membro é que se seja um bom jogador de rugby e um bom desportista [9]. De certa maneira a comunidade do rugby actual mantém vivo este conceito aberto e tolerante mas exigente mesmo depois do profissionalismo ser uma realidade.
Ao contrário do que é, muitas vezes, dado a entender, os jogadores de Rugby e a comunidade rugbística não são diferentes dos jogadores e adeptos de outras modalidades. Mas comportam-se de forma distinta. Principalmente porque desde o seu início como modalidade organizada foi estabelecido [10] um conjunto de princípios de acordo com as características particulares e próprias do jogo por forma a garantir que ele não passaria disso mesmo: de um jogo! O nosso jogo! E isto faz toda a diferença.
Apesar de - e ao que se conta - ter nascido de “um acto de audaciosa criatividade como se gosta de referir e atribuir a William Webb Ellis, o Rugby, pelas suas características próprias, estabeleceu um conjunto de regras - designadas por Leis do Jogo - que têm no seu Código do Rugby uma espécie de Constituição que, definindo os seus valores de referência, determina o Espírito do Jogo. Controlando assim a forma da sua expressão.
Porque o Rugby, nos duros combates pela bola ou por cada centímetro de terreno, pode, pela exaustão provocada, colocar os jogadores para além dos limites da sua lucidez. E é aí que as restrições impostas pelas Leis do Jogo - já completamente assimiladas pelo conhecimento e treino - funcionam como uma segunda natureza do jogador, diminuindo as hipóteses de violação do Espírito Desportivo e garantindo que cada combate não se transforma numa batalha campal.
De facto, deixando de lado a formação ordenada que recomeça o jogo após falhas técnicas de importância reduzida e para um jogo que estrategicamente estabelece a conquista de terreno como factor decisivo de superioridade sobre o adversário, considerar que, a faltas graves, correspondem pontapés de penalidade que, quando não permitem a procura directa de pontos, garantem, para além do ganho de terreno sem esforço, a continuidade da posse da bola, traduz uma forma inteligente - pelos prejuízos provocados na equipa do elemento faltoso - de censurar colectivamente o recurso à falta. A que acresce a amostragem do "cartão amarelo" que impõe uma suspensão de 10 minutos limitada ao "banco do pecador", por faltas abusivamente deliberadas (não há "faltas inteligentes" no Rugby) ou agressões físicas ou verbais. O que, num jogo em que tacticamente o cumprimento da "lei do espelho" representa uma necessidade, pode produzir uma considerável situação de desvantagem. Para faltas ainda mais graves existe o “cartão vermelho”, equivalente a expulsão do jogo. Como dissuasor há ainda a "lei dos 10 metros” que serve para obrigar a recuar, cedendo terreno, a equipa em que algum dos seus membros não cumpra ou barafuste com as decisões do árbitro e que podem ir desde a não retirada em tempo útil até à expressão dirigida de não concordância. Porque no Rugby apenas o “capitão de equipa” pode falar com o árbitro, evitando-se assim as "reuniões" na tentativa de influenciar decisões. Existe ainda a figura de "ensaio de penalidade" que visa considerar a sua validade quando o impedimento da sua marcação resultou de falta adversária. Como se percebe as faltas, no Rugby, não compensam e as suas Leis estão, de acordo com o Código do Jogo, em constante análise e revisão como meio de garantir a manutenção dos equilibrios necessários à disciplina, auto-domínio e respeito mútuo bem como a segurança da integridade física dos jogadores. 
Um jogador deve confiar que a realização das acções de jogo lhe garantem que a sua integridade física não será posta em causa a não ser de forma acidental. Por razões de segurança não é permitido placar/agarrar acima da linha de ombros de um adversário ou placá-lo - mesmo tocá-lo - quando ele se encontra com os pés no ar ou, ainda, placar de forma a atirar ou largar o adversário de modo a que caia de cabeça no chão. Isto é, existem leis dirigidas especificamente à salvaguarda da integridade física dos jogadores, impedindo assim que a aparência de batalha campal se possa tornar uma realidade.
Para além da visão do árbitro há ainda a possibilidade, usada em todos os jogos de melhor nível competitivo, de recurso ao vídeo-árbitro que tem um protocolo claro e que, tendo começado por ser accionado apenas por iniciativa do árbitro, já alargou o seu âmbito para situações de perigosidade. Esta relação com o vídeo-árbitro- a que os espectadores do estádio podem assisir - tem funcionado muito bem não se tendo assistido, nem no campo nem na comunicação social, a nada parecido com aquilo que vemos ou ouvimos no futebol. Talvez pela simples razão que, fazendo o vídeo-árbitro parte da equipa de arbitragem, são as suas respostas às perguntas do árbitro que definem a solução. Ou seja: à falta de visão do árbitro a responsabilidade da decisão passa para o vídeo-árbitro: “Há alguma razão para não marcar ensaio?”, “Não! Não há qualquer razão e pode marcar ensaio!”. O vídeo do jogo serve ainda para testemunhar qualquer acto de violência, contribuindo como meio de prova para a construção da acusação de jogo desleal. 
Por outro lado o conhecimento do jogo por parte dos jornalistas ou especialistas que fazem a cobertura dos jogos é suficientemente elevado para que sejam as incidências do jogo e as capacidades técnico-tácticas demonstradas pelas equipas e seus jogadores o ponto central dos seus comentários, retirando qualquer importância aos aspectos secundários. E se o respeito pelo árbitro é uma realidade no campo, também o é na comunicação social: o jogo deve-se aos jogadores e suas capacidades e o árbitro é uma peça fundamental - num jogo suficientemente complexo para dele não poder prescindir - para garantir a equidade e a igualdade de tratamento no respeito e interpretação das regras.  
Os valores do Rugby são os valores genéricos do Desporto mas as exigências de conduta foram adaptadas às características que o definem e diferenciam de outros jogos. E assim é possível, mesmo no actual quadro profissional que existe desde 1995, que o Rugby possa manter um enquadramento de conduta ética, espírito desportivo e lealdade que se apresenta como exemplo de elevado nível.
Ou seja, é do conjunto de regras e regulamentos que dirigem o jogo que resulta o desempenho ético das modalidades. Os níveis de pressão física e psíquica a que os jogadores e atletas estão sujeitos no domínio do Alto Rendimento exigem formas de enquadramento que permitam o auto-controlo das suas acções e emoções e que garantam a disciplina, auto-domínio, respeito mútuo e lealdade para permitir intervir no jogo de forma psicologicamente confortável - isto é, sem medos - e tendo garantida a tranquilidade, segurança e retidão imparcial para todos os actores.
Nada do que se faz dentro do campo desportivo pode contrariar as normas da decente convivência entre cidadãos. Nada autoriza que se deixem ficar à porta dos campos, pistas ou estádios os princípios e valores que norteiam o percurso da nossa cidadania que tem por base o reconhecimento expresso das conquistas civilizacionais que representam os Direitos Humanos e as preocupações consequentes de Igualdade, Equidade,Tolerância e Transparência.
O Desporto, para que seja a escola de vida que pretendemos, não pode ver-se envolvido - quaisquer que sejam os artifícios utilizados - na corrupção da manipulação de resultados, na expressão directa ou indirecta da violência, no comportamento batoteiro dos seus agentes, no insultuoso bullying verbal televisivo que nos entra casa dentro. O Desporto não pode ser subvertido no desenho da sua expressão. Cumpre-nos não aceitar o inaceitável!
Sendo a Ética do Desporto balizada pela Decência, a aproximação à Cidadania torna-se evidente. Embora formando dois campos distintos de exposição têm a Decência como linha mestra da qualidade das suas acções. Ou seja, Desporto e Cidadania dependem de uma mesma Ética, de um mesmo conjunto de valores que estabelecem, no mesmo domínio do Respeito, uma mesma Decência. O que significa que a forma como se solucionam os problemas da Cidadania não anda longe da que se exige para solucionar os abusos no Desporto.
A Decência em movimento que o Desporto deve constituir, resulta muito mais das acções de Educação, Diagnóstico e Profilaxia do que de piedosas intenções que tendem a sobrevalorizar gestos que se enquadram na normalidade das exigências da ética ou decência desportivas, banalizando a narrativa e, assim, contribuindo para manter o vigor da doença. 
No Desporto, como na Cidadania, o prémio resulta da eficácia qualitativa das acções realizadas e não de artifícios de compensação. Porque existe uma enorme diferença entre a normalidade de fazer o que se deve e a excepção do feito extraordinário.

João Paulo Bessa

(Texto lido como conferencista convidado na conferência Ética, Desporto e Cidadania, realizada na Universidade Lusófona em 26 de Janeiro de 2018 que, por erro involuntário, só foi possível colocá-lo agora. Este texto foi acompanhado com projecção de slides, quatro dos quais aqui se reproduzem.)

terça-feira, 7 de março de 2017

COP - TOMADA DE POSSE


Foto da praxe da Tomada de Posse com investidos e autoridades

Com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, do Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, da Presidente da Comissão da Cultura, Comunicação Juventude e Desporto da Assembleia da República, Edite Estrela e do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, foi dada, no passado dia 3 de Março, pelo Presidente da Comissão Eleitoral, Vasco Lynce, posse aos membros dos Órgãos Sociais do Comité Olímpico de Portugal eleitos pela lista presidida por José Manuel Constantino - "Valorizar Socialmente o Desporto - um futuro que nos une".
Com a sala Almada Negreiros do Centro Cultural de Belém cheia, estiveram presentes personalidades ligadas ao Desporto, nomeadamente uma grande maioria de presidentes das Federações Desportivas Olímpicas, Deputados, presidentes de Câmaras Municipais, membros dirigentes de Universidades e parceiros do COP numa cerimónia demonstrativa do reconhecimento da importância do Comité Olímpico de Portugal na sociedade portuguesa.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

ELEIÇÕES NO COP


Capa do programa. Autoria do logótipo: JPBessa
A lista aos Órgãos Sociais do Comité Olímpico de Portugal presidida por José Manuel Constantino e subordinada ao tema programático "Valorizar socialmente o desporto - O futuro que nos une" venceu com 99% dos votos expressos - 142 em 144. 
Das 33 federações olímpicas - com o beisebol, tiro com arco e karaté a não comparecerem para exercer o seu direito de voto - e numa demonstração de responsabilidade democrática uma vez que se tratava de uma única candidatura, expressaram o seu voto na lista candidata 30 das federações. O que significa ter havido um número superior de votantes em relação às 27 federações olímpicas que tinham subscrito a candidatura
Se for considerada a totalidade dos votos possíveis (175), a candidatura presidida por José Manuel Constantino, com os 144 votos obtidos, atingiu 82% do colégio eleitoral.
Como Mandatário desta candidatura não posso deixar de estar satisfeito com o resultado que, pelo apoio recebido, permite pensar num mandato que permitirá um maior desenvolvimento do movimento olímpico português com prováveis e positivas consequências no desporto português. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

RIO 2016 - EXIGIR SEM BASES

Existe uma enorme tendência de uma boa parte dos portugueses para colocarem infundadas expectativas sempre que há representações desportivas nacionais em confronto internacional. Seja pela iliteracia desportiva que nos caracteriza, pelo mero desconhecimento da relatividade das coisas ou por um qualquer aproveitamento interesseiro, as representações desportivas nacionais são analisadas pelas aparências, sem qualquer objectividade e ignorando o seu meio de inserção. Como se tivessemos um Sistema Desportivo exemplar.

Se as esperanças em notáveis resultados podem resultar da vontade de nos fazermos valer, a sua transformação nas elevadas expectativas de quase certezas só serve para abrir o campo à desilusão. E, portanto, não havendo vitórias de arraso e independentemente da qualidade dos diversos resultados, tudo é mau ou desastroso, seja qual for o ponto de vista da análise, diz-se e escreve-se. Ou seja: bestiais na formatação das expectativas a bestas perante a aparência dos resultados. Tudo num salto palavroso de nota 10...

E mais uma vez assim foi no regresso da Missão portuguesa dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Elevadas expectativas fundadas em irrealismos - como se não se tratasse de uma competição desportiva de altíssimo nível em confronto com os melhores e adequadamente preparados para tentar a vitória e onde só 8% dos 11 544 atletas presentes podem regressar com medalhas conquistadas - marcam o adjectivo da análise. Uma só medalha? E apenas bronze?! Um desastre!

Terá sido?!

Ao longo de 24 presenças olímpicas, o desporto português conseguiu 24 medalhas - 4 de ouro (Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro e Nelson Évora), 8 de prata e 12 de bronze - numa média de uma medalha por cada participação. O que significa que Portugal está longe de campeões como os Estados Unidos com as suas 2546 medalhas. E tão pouco se aproxima dos países latinos europeus como a França (1169 medalhas), Itália (605), Espanha (148) ou Roménia (306) ou ainda da Holanda (195) ou Bélgica (164) - estes dois últimos com populações próximas da portuguesa.

Com a medalha conseguida pela notável e persistente Telma Monteiro, Portugal ficou dentro da sua média e colocou-se, com as 16 modalidades, entre as 28 possíveis, em que participou, em 78º lugar no Medalheiro - o que significa que conseguiu melhor do que os 119 países participantes que não obtiveram qualquer medalha - apenas 42% dos 205 países presentes obtiveram uma ou mais medalhas.

Lembre-se que todos os atletas portugueses presentes se qualificaram - obtendo as marcas estabelecidas - para poderem competir nos Jogos. Ninguém foi, portanto, sem mérito ou apenas para participar - atribuição de espectadores - mas sim para competir, embora e naturalmente, balizados pelas marcas conseguidas. Balizas que devem, desde logo, limitar as expectativas. Dando-lhes realidade - pensar, por exemplo, que as notáveis prestações de Nelson Évora com a melhor marca pessoal do ano e Patrícia Mamona com novo recorde nacional, poderiam garantir a certeza de medalhas é ignorar a existência de outros atletas com as competências e capacidades adequadas à vitória. Ignorar portanto que estamos integrados numa competição do mais elevado nível e de particulares características.

Os resultados globais da Missão foram maus? Não, não foram. E foram melhores do que o contexto onde se prepararam. Na sua enorme maioria - excepção feita a um ou outro erro, a um ou outro falhanço, a uma ou outra menor atitude - os atletas portugueses bateram-se com grande dignidade e tudo tentaram para honrar a responsabilidade da representação em que estavam investidos.

Os Jogos Olímpicos constituem a melhor e maior montra mundial de demonstração de capacidade desportiva de cada país e permitem uma análise comparativa global. A juntar a esta medalha de bronze, os atletas portugueses conseguiram 10 Diplomas olímpicos, isto é, obtiveram 10 classificações entre os 4º e 8º lugares classificando assim 12% do total dos seus atletas em finais. Entre os 9º e 16º lugares - habitualmente designados por semi-finalistas - a Missão portuguesa contou com 16 posições. E colocou ainda 6 atletas no 17º lugar. Ou seja: Portugal conseguiu 33 classificações - 36% do total dos seus atletas - abaixo do 20º lugar nas 57 provas em que teve a participação de seus representantes. Refira-se ainda que dos 92 atletas portugueses presentes - 32 mulheres e 60 homens - 54 deles não tinham qualquer experiência olímpica. Tratando-se da competição desportiva entre as competições desportivas, os resultados conseguidos apresentam-se com mérito que baste e não são compatíveis com o que se escreveu, disse ou colocou nas redes sociais.

Poderiam os resultados serem melhores? Claro! Podem sempre. Desde que haja a adequada aproximação de condições aos melhores competidores.

A realidade do sistema desportivo português é fraca e encontra-se muitos furos abaixo dos padrões europeus. Nas modalidades olímpicas temos cerca de 400 mil inscritos nas respectivas federações desportivas nacionais (últimos dados oficiais referentes a 2014), o que representa um número ridículo, impeditivo de competições internas de elevado nível, quando comparado com outros países europeus e que está longe das potencialidades de um país com 10 milhões de habitantes.

O Desporto em Portugal assenta num sistema caduco, desorganizado, sem objectivos e sem estratégia, com uma mistela de conceitos confusos e pouco clarificadores onde abundam as frases feitas do Desporto para Todos - e o Desporto não é para todos: é para quem pode e, dentro destes, para quem quer - e de que o Desporto dá Saúde - o Desporto é para quem tem saúde - confundido uma actividade de exigência, superação e responsabilidade de resultados com Actividade Física, essa sim, para todos, adaptável ás necessidades e que se pretende praticável para uma vida inteira. Curiosamente a actual Lei de Bases (Lei 5/2007 ) é designada por Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto, designação que não parece preocupar ou induzir seja quem for.

Com um Desporto Escolar que não produz efeitos visíveis - Andebol, Basquetebol e Voleibol estão inseridos no sistema escolar desde os anos 30 do século passado e nunca se qualificaram para os Jogos - quer na detecção de talentos, quer no aumento de inscrições federadas e que desde há muito deveria ter passado para o estádio de Desporto em Idade Escolar articulado com clubes locais e federações de utilidade pública desportiva. Com um objectivo claro: introdução dos modelos desportivos das várias modalidades e detecção de talentos com o devido encaminhamento.

Não há dinheiro disponível para financiar as necessidades desportivas diz o Governo através do seu Secretário de Estado (RTP Notícias, 18/Ago/2016). Mas muitas das mudanças necessárias que permitirão adaptar o desporto português às necessidades competitivas actuais, não custam dinheiro. Exigem apenas transformações. De conceitos, de mentalidades, de estruturas.

Desde logo estabelecendo como Missão das federações de utilidade pública desportiva a criação de condições para que os nossos atletas possam competir internacionalmente em termos de igualdade, nomeando a sua dimensão rendimento como prioritária para assim lhes exigir programas qualificados - e não numéricos - de formação e desenvolvimento, com índices de competitividade elevados e afastando-as das tentações das imensas exigências que se lhes pretende sempre colocar para iluminar fogachos políticos. Também sem custos será a revisão das actuais leis federativas, retirando a mesma medida de fato a corpos com dimensões diferentes e adequando-as e articulando-as, de acordo com as nossas especificidades, com as necessidades do confronto internacional - a definição oficial e legal das modalidades colectivas e individuais (a Canoagem é, legalmente, uma modalidade individual!) é, no mínimo, inaceitável e umas e outras não podem reger-se pelas mesmas regras. O mesmo se dirá com o sistema escolar dos atletas que, apesar de um quadro legal facilitador, só enfrentam dificuldades e abusos quer da dupla actividade, quer na forma como são escolarmente tratados. A revisão do actual sistema de formação de treinadores exige também uma radical e urgente transformação sob pena de diminuição do seu número e da sua qualidade. O próprio estatuto do Alto Rendimento necessita de transformação e adequação, ampliando-se, às exigências actuais.

Para que as exigências por melhores resultados possam ter razão de ser - os obtidos no Rio 2016 se são bastante bons dentro do sistema que condiciona o Desporto português, não podem ser meta - é absolutamente necessário proceder às transformações que o enquadramento internacional nos exige. Começando por estabelecer os objectivos pretendidos e construindo uma estratégia adequada. No quadro do Desporto de Rendimento.

João Paulo Bessa
(Texto publicado no jornal Público de 8 de Setembro de 2016)

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