Mostrar mensagens com a etiqueta Dos que partem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dos que partem. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

JUVENTUDE PERDIDA

A morte de A RAINHA provoca-me, para além de um sentimento de perda — apesar de republicano sempre admirei as enormes qualidades e a decência que demonstrou durante 70 anos de influente reinado — a estranha sensação de ter terminado a minha juventude.
Enquanto A RAINHA viveu e pelo facto de ter tido a sua figura presente em toda a minha vida — tornou-se Rainha quando eu tinha 5 anos — tive sempre a sensação, pelos 21 anos que nos separavam que, pelas actividades e responsabilidades que mantinha na sua provecta idade, me marcava uma fronteira de capacidade jovem. Infelizmente o vazio que nos deixa atira com o bom exemplo para as lembranças que conseguirmos guardar, na presença que já não temos. Provavelmente, porque se foi a presença, é isso que sinto como perda de juventude…
A minha avó, embora galesa e com pouco afecto pelos ingleses que lhe usurpavam o país, tinha por ela grande consideração e, por isso, levou-me, ainda eu não tinha feito dez anos, ao aeroporto de Pedras Rubras para ver A RAINHA quando em 1957, visitou o Porto. Pela impressão com que então fiquei, é uma recordação que mantenho viva.
Com A RAINHA aprendi, pela sua referência ao “duty first, self second” que lhe terá, ao que parece, sido transmitida pelo seu pai, o verdadeiro significado e dimensão do lema SERVIR com que fui educado no Colégio Militar. Percebi que SERVIR não era o sim-senhor, obediente e acrítico como alguns pretendiam, mas a disponibilidade responsável de serviço. Embora este entendimento me trouxesse toda a sorte de problemas com os autoritários medíocres do costume, ganhei no saber estar profissional e social.
Tinha A RAINHA um notável sentido de humor que exercia de acordo com o seu “Let us not take ourselves too seriously. None of us has a monopoly on wisdom”. Quem faria, nas comemorações do seu Jubileu de Platina, uma rábula de hora do chá com o urso Paddington a mostrar-lhe(nos) a sanduíche que transportava na mala para uma possível emergência?… ou o recurso a outra rábula com Mr. Bond para a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres…
Não sendo de menos, pela atitude que demonstra, o facto de ter sido mecânica voluntária de veículos militares durante a Grande Guerra, A RAINHA tinha ainda, como todos reconhecemos, uma paixão por cavalos — como membro da Escolta a Cavalo do Colégio Militar tínhamos na sua Guarda, entre o vermelho deles e o nosso castanho, um bom modelo de garbo e aprumo. Não gostava apenas das diversas formas do hipismo, gostava de Desporto em geral como demonstrou com a passagem de um documentário apresentado publicamente no seu Jubileu de Platina onde homenageava atletas e equipas masculinas e femininas de acordo com a sua ideia de que “Sport has a wonderfull way of bringing together people and nations”. Para além da sua presença em diversos momentos desportivos, desde sempre que galardoou diversos desportistas pelos serviços prestados como no caso do Rugby em que Sir Gareth Edwards de Gales, Sir Clive Woodward de Inglaterra, Sir Ian McGeechan da Escócia ou Sir Graham Henry da Nova Zelândia foram, entre outros, nomeados, pelos Cavaleiros Britânicos.
Apesar dos seus  96 anos, a sua morte, se não é uma surpresa inesperada, não deixa, como ela justificou no seu “grief is the priece we pay for love”, de me causar — no simbolismo do seu reinado e legado de influência mundial e que define uma época — uma tristeza que poderia considerar quase familiar.
Que descanse em paz!

 

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

FERNANDO CHALANA, O PEQUENO GENIAL - 1959/2022



Vi jogar Chalana diversas vezes quer pelo SL Benfica, quer pela Selecção Nacional — era um jogador fabuloso! Dito canhoto jogava com qualquer dos pés com a mesma facilidade e sem que a decisão lhe atrasasse o processo de ultrapassar o adversário. Vê-lo jogar era um prazer tremendo.

Mais tarde, conheci-o pessoalmente. Apareceu, pela mão de alguém da equipa, no Estádio Universitário onde eu treinava a equipa principal do Grupo Desportivo de Direito e pediu para “treinar” connosco. Não que quisesse iniciar-se como jogador de rugby, mas porque queria manter a actividade física. Claro que foi imediatamente aceite e lá alinhou nas partes do treino em que a maior preocupação era a melhoria da condição física. Não sem uma condição prévia: ensinar os pontapeadores de serviço a chutar. E a facilidade com que ele o fazia… bola redonda ou oval era, nos seus pés, a mesma coisa. Alguns dos pontapeadores melhoraram com ele, com os conselhos que lhes deu… 
Muito simpático, gostávamos dele. Um formidável! Inesquecível!

domingo, 15 de maio de 2022

PAULO GIL: VIVEU COM JAZZ, MORREU COM JAZZ

fotos JPBessa
Amigos e companheiros de diversas andanças — direcção do Hot, programas de rádio, textos, concertos ou jam sessions de muitos e bons músicos ouvidos em mútua companhia (até lhe desenhei um símbolo para a sua bateria), longos momentos a gozar a vista da varanda de sua casa ou em férias familiares em conjunto no Algarve 
 
para chegarmos com a família à praia algarvia— uma pequena enseada de descida difícil — éramos obrigados a atravessar propriedades de outros (Valentim de Carvalho?) mas tínhamos a vantagem de, só pela vista da composição do grupo, da dimensão do areal e do trabalho descida/subida, ficar com a praia só para nós. O que permitia, naqueles tempos, que as senhoras se colocassem no à-vontade de mamas ao léu. Um dia, lá do alto da falésia, ouvimos voz grossa da GNR: “Ó senhoras! Não podem estar assim! Têm que pôr os sutiãs!”. Estranhámos a preocupação vinda de tão elevada moral pública, e, o Paulo e eu, pusemos os sutiãs das senhoras e perguntámos lá para cima: “E agora? Está bem assim?”… e nunca mais vimos os GNR durante o resto das férias.

— temos boas memórias e muitos e bons momentos conjuntos. E por maior que fosse o intervalo dos encontros a que a vida nos obrigava, era sempre com a proximidade do ontem que nos reencontrávamos.

Charlie Haden, Carlos Paredes e Fernando Assis no Hot com o Paulo
no canto em que, quando não tocava, gostava de ouver
(foto de JPBessa)
Isto de se ir avançando na idade tem o seu lado terrível: à medida que avançamos, vamos perdendo os amigos de sempre com enorme sofrimento. É a vida, sabias? dizem-nos. Pois é, mas a Natureza podia arranjar as coisas de outra maneira… é idiota ficarmos mais velhos e vermo-nos com menos amigos…
O Paulo ficará sempre e de cada vez que o jazz soar a primeira nota, nas minhas melhores memórias, recordando até, quando o ritmo assim o exigir, o raspar das baquetas no tecto do Hot porque a bateria, nos seus pratos e peles, se mostrava curta para garantir a criatividade. Bons gozos jazzísticos…
Com a Nossa Memória, até sempre, Paulo!



domingo, 6 de fevereiro de 2022

MUITO TRISTE POR TI, RAYAN

 


Morreu o Rayan.

Passei horas nestes últimos dias a olhar para o ecrã da televisão a fazer força por ti, sempre na esperança de te ver a ser retirado do poço. Cheguei a ter enormes esperanças quando percebi que estavas a ser retirado. Cheguei a rir. Satisfeito e aliviado. Afinal…

Infelizmente a situação nada tinha de esperançosa. O Rayan já estava morto…

Estou triste! E tenho muita pena. Dele que não precisava de passar estes 5 dias em sofrimento e dos pais dele que devem estar completamente destroçados.

sábado, 18 de setembro de 2021

AO JORGE SAMPAIO


Hoje seria o 82º aniversário do Jorge Sampaio — dia muito triste pelo recente falecimento mas também um dia inevitável de memória. Ouvi o seu nome, aos meus quinze anos e pela primeira vez, em 62: estava no Colégio Militar e o Batalhão Colegial tinha feito um “levantamento de rancho” que durou uns dias com os consequentes castigos de que resultaram expulsões e suspensões e um natural péssimo ambiente que foi durando até ao final do ano lectivo. O que teve como resultado — nos primeiros dias, para nos trazerem comida para compensar a deixada nos refeitórios e depois pela solidariedade do apoio pelo endurecimento do dia-a-dia colegial — que ex-alunos viessem, já noite, ao fundo da “quinta” para saber como iam as coisas e para contarem o que se passava lá “por fora”. Alguns andavam na luta estudantil e contavam que o “comandante da crise” era um tipo de Direito chamado Jorge Sampaio e que tinha a alcunha — no Colégio as alcunhas eram um nome próprio — de “Cenoura”.

Anos depois, embora o visse - pela proximidade do Expresso onde era colaborador - no Flórida, encontramo-nos na candidatura de Mário Soares e já no Partido Socialista participei activamente, pela mão de Lopes Cardoso, na sua candidatura a Secretário-Geral. Com a sua decisão de se candidatar à CM Lisboa, estive naturalmente com ele e com a sua candidatura. Com a sua vitória fui convidado a acompanhá-lo enquanto seu assessor para a Área Urbanística e assim pude — numa enorme vantagem profissional — participar na construção, alinhada na capacidade e sabedoria do António Fonseca Ferreira, dessa nova visão da cidade “Lisboa Capital Atlântica da Europa” traduzida no excelente Plano Estratégico de Lisboa em que pude participar enquanto membro do seu Conselho e que teria permitido — como se depreende da leitura dos seus fundamentos — que Lisboa fosse hoje, a par de Paris, Barcelona, Copenhaga ou Berlim, uma cidade de vanguarda do actual movimento de cidades para as pessoas. Infelizmente ao longo dos anos subsequentes, esse objectivo e estratégia para o concretizar, foi sendo ignorado ou incompreendido. 


Foi, pessoal e profissionalmente, um enorme privilégio ter podido estar presente — e adquirir novos conhecimentos, actualizando perspectivas fixadas no tempo de uma Escola semi-parada — nesta transformação de conceitos, de papeis, de exigências, de objectivos que devem marcar o desenvolvimento das cidades. Disso são exemplo o realojamento de lisboetas de aglomerados degradados ou os pequenos mas importantes passos na realização de um todo, como a aproximação ao rio, a recuperação do Coliseu dos Recreios — lembro-me de, a pedido do especialista israelita de acústica, termos andado a bater palmas em diversos sítios da plateia e dos balcões para controlo da colocação das placas aéreas — do convite a Jacques Delors — um aficionado de futebol — para vir a Lisboa e que tive a possibilidade de acompanhar na sua estada e poder ver um Benfica-Sporting com conhecimento directo do também seu ídolo Eusébio (vestiu de imediato e por cima do casaco, a camisola de jogador que lhe foi oferecida), a realização de uma Semana de Lisboa em Viena, aproveitando a disputa da final da Taça dos Campeões Europeus de 1990 entre o Benfica e o Milão (para além do Fado com Luz Sá da Bandeira, de Olga Pratts, dos Madres de Deus de Teresa Salgueiro ou de afamados cozinheiros da gastronomia lisboeta, levou também o José Mário Branco cuja família havia acolhido, em sua casa, a esposa do Primeiro-Ministro austríaco durante a Guerra… imagine-se a surpresa). 


Mas a visão era também ampliada por uma preocupação cosmopolita de fazer da sua cidade, da sua Lisboa, uma capital reconhecida internacionalmente ao aceitar a realização da Expo 98 a que não faltou uma ida de autocarro à Sevilha 92 de todos os colaboradores próximos para não repetir erros na Lisboa 98 ou da Lisboa Capital Europeia da Cultura de 94 e que teve, na sua 7ª Colina e com a responsabilidade do Elísio Summavielle, uma demonstração das possibilidades de, se juntos e focados num mesmo objectivo, reabilitar a cidade que marca a nossa identidade. Ou ainda com a proposta do Miguel Portas de iniciar a criação dos grandes concertos abertos a grandes plateias — e assim vieram os Rolling Stones a Alvalade — ou o cuidado colocado na realização do programa do Pavilhão da Expo  “toma cuidado com o programa, deve ser um pavilhão polivalente mas que possa receber eventos desportivos do melhor nível. A responsabilidade é tua!”, disse-me. Propus-lhe que juntasse á equipa Luis Millet, responsável do programa do Pavilhão Saint Jordi de Barcelona realizado para os Jogos Olímpicos de 92 mas com a preocupação de servir a cidade. Nem hesitou.   


Nesta aventura, Jorge Sampaio distinguiu-me sempre com demonstrações de amizade e de confiança política e profissional. Na sua permanente simpatia aproximava-se dos membros do seu Gabinete de forma as que as relações pessoais produzissem, pela proximidade e participação sem barreiras, relações de trabalho profícuas, inovadoras e competentes (trabalhávamos que nos fartávamos e estudávamos muito…). “Se vocês fossem meus amigos”, disse ao abrir a porta do nosso gabinete sem aviso-prévio e com toda a naturalidade, “levavam-me a almoçar a um sítio agradável e com boa vista” — saímos, tomámos um cacilheiro, andámos a pé junto ao rio da outra margem já a adivinhar, num bonito dia de sol, o prazer da vista deslumbrante de Lisboa. O contentamento do convidado foi evidente.


Sempre que tinha um jogo importante — treinava o rugby do Cascais na altura — manifestava-me a sua amizade aparecendo para ver o jogo. Lembrava-me o André que, há bem pouco tempo, se fartaram de rir, ele e o pai, ao relembrarem a minha bengala pelo ar — não foi dirigida a ninguém! — numa altura em que um erro infantil de um jogador da minha equipa nos ia fazendo perder o campeonato. E profissionalmente ou politicamente sempre me mostrou a sua confiança mandando-me negociar, de acordo com os preceitos estratégicos estabelecidos, com empreendedores ou autores de projectos. Isto para além de me pedir que escrevesse textos que iria utilizar na sua função de Presidente, não sem que e quando entendia me pedir “autorização” para alterar uma frase porque “não consigo dizer isto assim”. Fazia a alteração à mão, sempre de maneira que eu visse, e guardava os papeis.


“És capaz de fazer um discurso em francês?” perguntou-me uma manhã. Que sim, disse-lhe. “Então vais amanhã para Paris, se fazes o favor, para discursares por mim no Centro Pompidou.” Falamos uns minutos sobre o tema e que não precisava de ver o texto. Em Paris tive como guia o Eduardo Prado Coelho que me enquadrou na organização francesa onde estavam portugueses e as suas associações. Na volta disse-me com a maior naturalidade do mundo: “Sei que estiveste bem!”. Noutra altura fui, com o Vasco Franco que era vereador, a diversas capitais da América do Sul apresentar a sua candidatura — que acabou vitoriosa — à presidência da Federação Mundial das Cidades Unidas. 


Fui com ele, quando ia receber um prémio às Nações Unidas, a Nova Iorque — tivemos a inteligência de ir, do aeroporto para a cidade, de helicóptero para admirar uma inesquecível vista aérea. Foi com ele que, aí, conheci Ramos Horta com quem estivemos a conversar sobre Timor — “ficas como o contacto dele em Lisboa”, disse-me depois de ter dito a Ramos Horta que sempre que precisasse de alguma coisa que me contactasse que eu daria o andamento necessário. Á noite fomos a clubes de jazz ouvir fabulosos músicos de quem nunca tínhamos ouvido o nome e fomos também ouvir um notável concerto, convidados por um dos seus patronos, numa oportunidade rara de ouvir uma orquestra com mais de 100 figuras. No dia seguinte, o mesmo patrono levou-nos de barco Hudson fora, a ver de perto a Estátua da Liberdade e a skyline nova-iorquina onde aproveitei para fotografar o Jorge com as, agora destruídas, Twin Towers em fundo. De dia fomos aprendendo como se movimenta uma cidade com horários diferenciados — do nosso hotel podíamos ver o acender das luzes por tempos diferentes — e percorríamos, nos poucos intervalos possíveis, os espaços da cidade para perceber que não são os edifícios altos que fazem o mal das cidades… 


Tive uma sorte espantosa ao poder ser seu colaborador. Aumentei os meus conhecimentos, aprendi com ele uma ética de liderança, a obrigação de ouvir as partes, a lidar com perspectivas e interesses desiguais ou mesmo divergentes, a não ceder nos princípios ou nas questões essenciais — aprendizagem que me foi valiosíssima para, posteriormente, desempenhar capazmente os cargos de Coordenador Nacional da Medida Desporto do III Quadro Comunitário de Apoio ou de Vice-Presidente do Instituto do Desporto de Portugal. A nossa convivência foi, para mim, uma escola de elevado nível.


Meu caro Jorge: por tudo isto que me possibilitaste, estou-te muito grato. Como escrevi no  teu Livro de Condolências: “o teu Exemplo ficará vivo para sempre na minha memória. Foi uma honra servir sob as tuas ordens. Com profunda amizade” o meu até sempre!

domingo, 25 de julho de 2021

UM DIA TRISTE


Otelo Saraiva de Carvalho foi o estratega do 25 de Abril. 
25 de Abril que não teria visto a luz sem a sua determinação, a sua ousadia, a sua audácia. Sem ele, sem o seu comando, o primeiro passo para a Liberdade e Democracia não teria existido e a minha vida — e a de tantíssimos outros —teria sido diferente. Diferente e muito pior! 

Nascido em 25 de Abril (1947) recebi de Otelo a melhor prenda de anos que alguma vez tive. Estou-lhe, por isso, eternamente grato!

Hoje é dia para lhe agradecer e um Dia de Luto Nacional seria a demonstração corajosa do devido apreço e não a cobarde moralice de um mistificador agrado tido por generalizado. Principalmente daqueles que são o que são porque houve a coragem de fazer o 25 de Abril — e Otelo foi o seu principal motor! Agradeçam, caramba!

Porque do resto, trataremos com a História, quando formos capazes de tratar de muitas outras controvérsias…

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

CARLOS DO CARMO DE LISBOA PARA O MUNDO

 Começar um novo ano com a notícia da morte de um amigo não é fácil.


A primeira vez que falei com Carlos do Carmo foi há muitos anos em O Faia - por qualquer razão chegámos à fala e ficámos a saber quem era um e quem era o outro. Anos depois encontravamo-nos com maior regularidade, quase sempre no Procópio, onde, ao sabor de uns copos, trocavamos ideias entre culturas diversas, músicas, artes e políticas. Na política também estivemos numas mesmas campanhas... Conhecíamo-nos bem e fomos criando uma amizade das que perduram pelo tempo e que se mantêm independentemente das vezes em que a vida nos deixa encontrar.

Carlos do Carmo não era apenas a Voz - e que voz ele tinha - mas era muito mais do que isso Culturalmente retirou o Fado do espartilho em que o Estado Novo o tinha colocado e, apoiando novos fadistas e cantando novos poetas, entregou-o a quem ele pertence, a nós portugueses e bateu-se para fazer dele Património Imaterial da Humanidade; como cidadão mostrou-se sempre do lado da Democracia e do direito da pessoa humana e sempre que sentiu o desrespeito ou perigo pela Democracia, apresentou-se na 1ª linha. E foi sempre Voz!

Com a sua morte e se perdemos uma voz de combate pela Democracia, temos a sorte de guardar nas memórias tecnológicas o cantar dos seus discos ou dos seus concertos. Que se ouvirão sempre com particular agrado, cantando Lisboa como a cidade única que sempre reconheceu.

Até sempre, meu caro!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

JOHN LE CARRÉ (1931/2020)


De John Le Carré li tudo o que pude. Diverti-me com o mero prazer de o ler e aprendi muito sobre maneiras de olhar o Mundo. Desde que a descobri - e já não sou capaz de a situar - que a frase “ Uma secretária é um sítio muito perigoso para analisar o Mundo.” tem-me acompanhado sempre, tendo estado pendurada nas paredes dos gabinetes que fui tendo para lembrar que, ali sentados, a pensar que o mundo começa e acaba numa folha A4 ou num bloco de notas e que assim o podemos comandar, não iríamos longe. Porque a realidade é outra coisa, mais complexa e com interligações e conexões que, dali, de barriga encostada ao rampo, não se detectam.

Que fique em paz que continuarei a abrir os seus livros para relembrar meia-dúzia de folhas já uma e outra vez rabiscadas. Só tenho a agradecer-lhe.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

EDUARDO LOURENÇO [1923-2020] UM PENSADOR EXEMPLAR

Tive a sorte de conhecer Eduardo Lourenço e só ganhei com isso. Aprendi sempre na sua companhia O facto de sermos ambos antigos alunos do Colégio Militar e com a tradição cultural que nos une, permitia-me um acesso mais fácil de linguagem e, por isso, uma mais fácil conversa a que ele ajudava sempre com o seu sentido de humor. O seu falecimento vai deixar-nos mais pobres na compreensão do nosso mundo, na criatividade de o interpretar, na imaginação de o descrever. E Portugal, perdendo o seu maior pensador, perdeu aquele que dava sentido ao seu passado, perspectivando-o num futuro que queria muito mais risonho do que o actual e a nossa vida fica mais pobre. Resta-nos o preito activo à sua memória, lendo e relendo a sua obra, meditando sobre os seus conceitos, seguindo o seu exemplo, agindo.
Há dias como este que, por mais que o sol brilhe, fica-nos a tristeza dos nevoeirentos dias de cinzento carregado que não nos deixam ir a lado algum. São dias muito incómodos estes, difíceis de ultrapassar numa infinidade de horas que parecem não acabar mais. Sirvo-me da boa memória de só ter tido a ganhar por o ter conhecido e ter tido a oportunidade de o ouvir para eliminar as sombras do seu desaparecimento. Até sempre, Eduardo!



quarta-feira, 20 de novembro de 2019

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

JACQUES CHIRAC (1932/2019]


Em Junho de 2000 preparando-me, no Estádio Rei Balduíno em Bruxelas, para assistir ao França -Portugal, conversava com Jacques Delors — que havia conhecido em Lisboa quando, a convite da Câmara Municipal de Lisboa, o levei a conhecer alguns sítios notáveis de Lisboa para terminar num Benfica-Sporting na Luz onde recebeu de Eusébio a réplica da sua camisola que, aliás, logo vestiu. 

A agitação da segurança sinalizou a chegada do Presidente Jacques Chirac que veio cumprimentar Delors e, por proximidade pensei, também a mim. Trocámos palavras de circunstância mas num repente deu-se o clique entre Paris e Lisboa e os contactos então havidos sobre a gestão das cidades modernas e a conversa agilizou-se.

Com uma simpatia cativante convidou-me para o seu espaço reservado no estádio e propôs-me que fosse assistir ao jogo ao seu lado. Agradeci e acompanhei-o, tendo-lhe apenas e logo que me apercebi da situação, pedido que, apesar da honra que me cabia, me autorizasse a ceder o lugar a seu lado ao Senador francês que, concordando, ficou no meio de nós. Mas fomos mantendo a troca de opiniões sobre o jogo que, lembro, perdemos por 2-1 com o célebre penalti marcado sobre a alegada “mão” de Abel Xavier.

O momento da foto diz respeito à execução do Hino Português em que adoptei, como qualquer adepto que se preza, a posição habitual. Pelo insólito, a fotografia foi publicada em diversos jornais.

Tendo ficado, apesar do resultado do jogo, com uma boa memória daqueles momentos, fiquei profundamente marcado pela simpatia que o Presidente Jacques Chirac me demonstrou e, no dia do seu falecimento não quis, apresentando as minhas condoídas homenagens, deixar de o referir.

Arquivo do blogue

Seguidores