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sábado, 18 de setembro de 2021

AO JORGE SAMPAIO


Hoje seria o 82º aniversário do Jorge Sampaio — dia muito triste pelo recente falecimento mas também um dia inevitável de memória. Ouvi o seu nome, aos meus quinze anos e pela primeira vez, em 62: estava no Colégio Militar e o Batalhão Colegial tinha feito um “levantamento de rancho” que durou uns dias com os consequentes castigos de que resultaram expulsões e suspensões e um natural péssimo ambiente que foi durando até ao final do ano lectivo. O que teve como resultado — nos primeiros dias, para nos trazerem comida para compensar a deixada nos refeitórios e depois pela solidariedade do apoio pelo endurecimento do dia-a-dia colegial — que ex-alunos viessem, já noite, ao fundo da “quinta” para saber como iam as coisas e para contarem o que se passava lá “por fora”. Alguns andavam na luta estudantil e contavam que o “comandante da crise” era um tipo de Direito chamado Jorge Sampaio e que tinha a alcunha — no Colégio as alcunhas eram um nome próprio — de “Cenoura”.

Anos depois, embora o visse - pela proximidade do Expresso onde era colaborador - no Flórida, encontramo-nos na candidatura de Mário Soares e já no Partido Socialista participei activamente, pela mão de Lopes Cardoso, na sua candidatura a Secretário-Geral. Com a sua decisão de se candidatar à CM Lisboa, estive naturalmente com ele e com a sua candidatura. Com a sua vitória fui convidado a acompanhá-lo enquanto seu assessor para a Área Urbanística e assim pude — numa enorme vantagem profissional — participar na construção, alinhada na capacidade e sabedoria do António Fonseca Ferreira, dessa nova visão da cidade “Lisboa Capital Atlântica da Europa” traduzida no excelente Plano Estratégico de Lisboa em que pude participar enquanto membro do seu Conselho e que teria permitido — como se depreende da leitura dos seus fundamentos — que Lisboa fosse hoje, a par de Paris, Barcelona, Copenhaga ou Berlim, uma cidade de vanguarda do actual movimento de cidades para as pessoas. Infelizmente ao longo dos anos subsequentes, esse objectivo e estratégia para o concretizar, foi sendo ignorado ou incompreendido. 


Foi, pessoal e profissionalmente, um enorme privilégio ter podido estar presente — e adquirir novos conhecimentos, actualizando perspectivas fixadas no tempo de uma Escola semi-parada — nesta transformação de conceitos, de papeis, de exigências, de objectivos que devem marcar o desenvolvimento das cidades. Disso são exemplo o realojamento de lisboetas de aglomerados degradados ou os pequenos mas importantes passos na realização de um todo, como a aproximação ao rio, a recuperação do Coliseu dos Recreios — lembro-me de, a pedido do especialista israelita de acústica, termos andado a bater palmas em diversos sítios da plateia e dos balcões para controlo da colocação das placas aéreas — do convite a Jacques Delors — um aficionado de futebol — para vir a Lisboa e que tive a possibilidade de acompanhar na sua estada e poder ver um Benfica-Sporting com conhecimento directo do também seu ídolo Eusébio (vestiu de imediato e por cima do casaco, a camisola de jogador que lhe foi oferecida), a realização de uma Semana de Lisboa em Viena, aproveitando a disputa da final da Taça dos Campeões Europeus de 1990 entre o Benfica e o Milão (para além do Fado com Luz Sá da Bandeira, de Olga Pratts, dos Madres de Deus de Teresa Salgueiro ou de afamados cozinheiros da gastronomia lisboeta, levou também o José Mário Branco cuja família havia acolhido, em sua casa, a esposa do Primeiro-Ministro austríaco durante a Guerra… imagine-se a surpresa). 


Mas a visão era também ampliada por uma preocupação cosmopolita de fazer da sua cidade, da sua Lisboa, uma capital reconhecida internacionalmente ao aceitar a realização da Expo 98 a que não faltou uma ida de autocarro à Sevilha 92 de todos os colaboradores próximos para não repetir erros na Lisboa 98 ou da Lisboa Capital Europeia da Cultura de 94 e que teve, na sua 7ª Colina e com a responsabilidade do Elísio Summavielle, uma demonstração das possibilidades de, se juntos e focados num mesmo objectivo, reabilitar a cidade que marca a nossa identidade. Ou ainda com a proposta do Miguel Portas de iniciar a criação dos grandes concertos abertos a grandes plateias e assim vieram os Rolling Stones a Alvalade ou o cuidado colocado na realização do programa do Pavilhão da Expo toma cuidado com o programa, deve ser um pavilhão polivalente mas que possa receber eventos desportivos do melhor nível. A responsabilidade é tua!”, disse-me. Propus-lhe que juntasse á equipa Luis Millet, responsável do programa do Pavilhão Saint Jordi de Barcelona realizado para os Jogos Olímpicos de 92 mas com a preocupação de servir a cidade. Nem hesitou.   


Nesta aventura, Jorge Sampaio distinguiu-me sempre com demonstrações de amizade e de confiança política e profissional. Na sua permanente simpatia aproximava-se dos membros do seu Gabinete de forma as que as relações pessoais produzissem, pela proximidade e participação sem barreiras, relações de trabalho profícuas, inovadoras e competentes (trabalhávamos que nos fartávamos e estudávamos muito…). “Se vocês fossem meus amigos”, disse ao abrir a porta do nosso gabinete sem aviso-prévio e com toda a naturalidade, “levavam-me a almoçar a um sítio agradável e com boa vista” — saímos, tomámos um cacilheiro, andámos a pé junto ao rio da outra margem já a adivinhar, num bonito dia de sol, o prazer da vista deslumbrante de Lisboa. O contentamento do convidado foi evidente.


Sempre que tinha um jogo importante — treinava o rugby do Cascais na altura — manifestava-me a sua amizade aparecendo para ver o jogo. Lembrava-me o André que, há bem pouco tempo, se fartaram de rir, ele e o pai, ao relembrarem a minha bengala pelo ar — não foi dirigida a ninguém! — numa altura em que um erro infantil de um jogador da minha equipa nos ia fazendo perder o campeonato. E profissionalmente ou politicamente sempre me mostrou a sua confiança mandando-me negociar, de acordo com os preceitos estratégicos estabelecidos, com empreendedores ou autores de projectos. Isto para além de me pedir que escrevesse textos que iria utilizar na sua função de Presidente, não sem que e quando entendia me pedir “autorização” para alterar uma frase porque “não consigo dizer isto assim”. Fazia a alteração à mão, sempre de maneira que eu visse, e guardava os papeis.


És capaz de fazer um discurso em francês?” perguntou-me uma manhã. Que sim, disse-lhe. “Então vais amanhã para Paris, se fazes o favor, para discursares por mim no Centro Pompidou.” Falamos uns minutos sobre o tema e que não precisava de ver o texto. Em Paris tive como guia o Eduardo Prado Coelho que me enquadrou na organização francesa onde estavam portugueses e as suas associações. Na volta disse-me com a maior naturalidade do mundo: “Sei que estiveste bem!”. Noutra altura fui, com o Vasco Franco que era vereador, a diversas capitais da América do Sul apresentar a sua candidatura — que acabou vitoriosa — à presidência da Federação Mundial das Cidades Unidas. 


Fui com ele, quando ia receber um prémio às Nações Unidas, a Nova Iorque — tivemos a inteligência de ir, do aeroporto para a cidade, de helicóptero para admirar uma inesquecível vista aérea. Foi com ele que, aí, conheci Ramos Horta com quem estivemos a conversar sobre Timor — “ficas como o contacto dele em Lisboa”, disse-me depois de ter dito a Ramos Horta que sempre que precisasse de alguma coisa que me contactasse que eu daria o andamento necessário. Á noite fomos a clubes de jazz ouvir fabulosos músicos de quem nunca tínhamos ouvido o nome e fomos também ouvir um notável concerto, convidados por um dos seus patronos, numa oportunidade rara de ouvir uma orquestra com mais de 100 figuras. No dia seguinte, o mesmo patrono levou-nos de barco Hudson fora, a ver de perto a Estátua da Liberdade e a skyline nova-iorquina onde aproveitei para fotografar o Jorge com as, agora destruídas, Twin Towers em fundo. De dia fomos aprendendo como se movimenta uma cidade com horários diferenciados — do nosso hotel podíamos ver o acender das luzes por tempos diferentes — e percorríamos, nos poucos intervalos possíveis, os espaços da cidade para perceber que não são os edifícios altos que fazem o mal das cidades… 


Tive uma sorte espantosa ao poder ser seu colaborador. Aumentei os meus conhecimentos, aprendi com ele uma ética de liderança, a obrigação de ouvir as partes, a lidar com perspectivas e interesses desiguais ou mesmo divergentes, a não ceder nos princípios ou nas questões essenciais — aprendizagem que me foi valiosíssima para, posteriormente, desempenhar capazmente os cargos de Coordenador Nacional da Medida Desporto do III Quadro Comunitário de Apoio ou de Vice-Presidente do Instituto do Desporto de Portugal. A nossa convivência foi, para mim, uma escola de elevado nível.


Meu caro Jorge: por tudo isto que me possibilitaste, estou-te muito grato. Como escrevi no  teu Livro de Condolências: “o teu Exemplo ficará vivo para sempre na minha memória. Foi uma honra servir sob as tuas ordens. Com profunda amizade” o meu até sempre!

segunda-feira, 5 de abril de 2021

O QUERIDO PERCY VAL D’ASSECA PARTIU

A visitar a árvore do Vale de Asseca de onde decidiu adoptar-nos, a mostrar a elegância habitual e a lembrar as óptimas sonecas que fizemos, os grandes jogos de rugby que vimos e os textos que escrevemos. Um amigo e companheiro que partiu com a serenidade dos grandes e que deixa uma memória de enormes e inultrapassáveis saudades.

O Percy Val D’Asseca, o nosso muito querido gato, amigo e companheiro, partiu, às 2 da manhã do domingo dia 4, com a serenidade da grandeza com que sempre viveu, com o mínimo de queixumes que não lhe foi possível segurar, com os olhos a despedir-se. Tinha quase 16 anos — que faria em Maio. E mesmo quando a sua saúde começou a deteriorar-se, nunca deixou de nos manifestar, com enorme ternura, a amizade que tínhamos criado. Gostava especialmente de uma ou outra coisa e sabia expressá-lo de forma compreensível — como quando preferia comer os secos da nossa mão em vez de pela tijela habitual.

Desde logo membro da nossa casa, retribuía-nos a amizade — mesmo amor — que lhe tínhamos com uma absoluta confiança, nunca mostrando receio de qualquer gesto nosso. Tinha, de facto, uma total confiança em nós e mostrava-o abertamente. Nos seus últimos dois, três dias, apesar do seu mal-estar e da perda de recursos físicos e da necessidade de se auto-proteger, procurando espaços menos abertos ou mesmo escondidos, nunca deixou de vir ter connosco para uma troca de mimos. Ou a mostrar um olhar de agradecimento por um cobertor que lhe puséssemos. Parecia, em cada gesto que fazia, que nos queria mostrar o apreço em que tinha o tratamento que gostosamente lhe dispensávamos. E por isso a nossa relação tinha um laço muito forte de união.

O bilhete de identidade que lhe fizemos

Profundamente doloroso — que nos marca o coração apertado — foi o momento quando, sentindo-o já com dificuldades respiratórias transmitidas num ou noutro som cavo e vendo a sua linguinha rosa já fora da boca, percebi a minha incapacidade para fazer mais por ele do que o gesto de carícia traduzido numa festa como último adeus — nada mais podia fazer pelo querido Percy... e, tão rápido quanto possível, saímos para o hospital. E fechou-se a porta — só o voltando a ver na tranquilidade da imagem que guardo. O  choque, a perda, essas serão para sempre.

Perder a sua presença no dia-a-dia é um sofrimento muito grande — não ter mais a simpatia da sua companhia, dos seus gestos — o sentir das suas mãos a puxar uma das nossas para que lhe fizéssemos festas ou para que lhe déssemos espaço para se acolher — dos seus sítios ou das suas coisas a construir memórias que vão levar muito tempo até que possam ser recordadas com um sorriso. Dói-me muito a tua falta, Percy querido..

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

CARLOS DO CARMO DE LISBOA PARA O MUNDO

 Começar um novo ano com a notícia da morte de um amigo não é fácil.


A primeira vez que falei com Carlos do Carmo foi há muitos anos em O Faia - por qualquer razão chegámos à fala e ficámos a saber quem era um e quem era o outro. Anos depois encontravamo-nos com maior regularidade, quase sempre no Procópio, onde, ao sabor de uns copos, trocavamos ideias entre culturas diversas, músicas, artes e políticas. Na política também estivemos numas mesmas campanhas... Conhecíamo-nos bem e fomos criando uma amizade das que perduram pelo tempo e que se mantêm independentemente das vezes em que a vida nos deixa encontrar.

Carlos do Carmo não era apenas a Voz - e que voz ele tinha - mas era muito mais do que isso Culturalmente retirou o Fado do espartilho em que o Estado Novo o tinha colocado e, apoiando novos fadistas e cantando novos poetas, entregou-o a quem ele pertence, a nós portugueses e bateu-se para fazer dele Património Imaterial da Humanidade; como cidadão mostrou-se sempre do lado da Democracia e do direito da pessoa humana e sempre que sentiu o desrespeito ou perigo pela Democracia, apresentou-se na 1ª linha. E foi sempre Voz!

Com a sua morte e se perdemos uma voz de combate pela Democracia, temos a sorte de guardar nas memórias tecnológicas o cantar dos seus discos ou dos seus concertos. Que se ouvirão sempre com particular agrado, cantando Lisboa como a cidade única que sempre reconheceu.

Até sempre, meu caro!

domingo, 28 de janeiro de 2018

EDMUNDO PEDRO (1918~2018)

A dez meses de chegar aos cem anos - a última vez que falámos apostámos que lá chegaria - faleceu o meu Amigo Edmundo Pedro. E desta aposta perdida fica-me o misto de tristeza e de alegria. Tristeza por ter visto partir uma pessoa que, como os heróis ficcionais, nunca nos deveria deixar; alegria por ter podido conhecê-lo e participar das suas ideias e das recordações de diversas situações que viveu - o prazer que me deu a leitura da versão inicial, ainda manuscrita, de que fez questão de me dar a ler, do seu texto sobre o assalto ao quartel de Beja... Ainda hoje não percebo porque não há um filme sobre aquela acção que, pela sua pena, transmitia a realidade do país: o romantismo amadorístico, cheio de uma coragem capaz de não deixar que algum obstáculo atrapalhasse o objectivo a que se tinha proposto demonstrado por um grupo de resistentes antifascistas a quem faltou sempre a coragem de outros para poder cumprir a missão que lhes norteava a vida; um regime que, impondo o medo, não abria portas fora do seu limitado mundo de interesses.
Ir parar ao Tarrafal, o "campo da morte lenta", com 17 anos e aí passar 9 anos e nunca desistir do projecto da insurreição nacional derrubador do regime facista de Salazar demonstra bem a fibra de que era constituído este querido Amigo. Conhecer a sua vida percorrendo as linhas das suas Memórias é descobrir um herói de carne e osso, de simpatia irradiante, de força moral extrema que será o mais próximo que humanamente se pode conseguir dos super-heróis que desenham os sonhos juvenis da mente de cada um de nós. Homem de enorme firmeza de carácter, tinha uma noção muito clara da lealdade e da decência - reconheça-se com admiração (e pedido público de desculpas!) o seu comportamento no famigerado “caso das armas” que lhe custou, em 1978, seis meses de prisão: que nunca tinha falado perante a polícia e que não se implica alguém que desempenha as funções de Presidente da República (Eanes), foram as explicações, décadas mais tarde, para o seu silêncio.
Edmundo Pedro era uma personagem única!
E por ser único não precisa da preguiça dos copistas para aumentarem incorrectamente a sua biografia que tem, na sua realidade própria, o mais que suficiente para merecer o respeito de Portugal. Edmundo Pedro - sendo um histórico do Partido Socialista - não precisa de ser dado como seu fundador - em cuja lista não se encontra o seu nome - para se reconhecer a importância da sua participação na vida do Partido Socialista enquanto militante, dirigente ou deputado: esteve sempre do lado da justiça, do lado dos mais fracos, do lado da Democracia e, acima de tudo, do lado da Liberdade.
Cito, do prefácio do seu Memórias I, Mário Soares: “Após o 25 de Abril de 1974, ao contrário do seu amigo Fernando Piteira Santos, Edmundo Pedro, entraria no Partido Socialista. Num encontro casual que tivemos, em Setembro de 1973, no aeroporto de Barajas, estando eu já no exílio e de regresso do Chile, de Allende, anunciou-me a sua vontade de se inscrever no PS, que acabava de ser formado na clandestinidade, na Alemanha. Mas essa vontade não chegou a concretizar-se formalmente. Só viria a sê-lo depois do 25 de Abril. […]".
A memória de Edmundo Pedro, pelo que representa para todos nós que vivemos em Democracia, não merece distrações ou desplicências. A extraordinária vida deste homem exige o respeito pelo rigor histórico dos factos.

Ver aqui texto escrito no seu 99º aniversário
...
[pelo respeito e amizade que tenho por Edmundo Pedro vou ter uma enorme dificuldade em apagar o seu nome e número de telefone do meu telemóvel...]

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

AO EDMUNDO PEDRO COM AMIZADE, RESPEITO E ADMIRAÇÃO


O Edmundo Pedro - de quem tenho a sorte de ser Amigo - faz hoje, 8 de Novembro, 99 anos de idade. Nasceu em 1918, seis anos antes do nascimento dos meus pais. Uma vida enorme, na longevidade e no carácter.
Quem conhecer a vida do Edmundo reconhecerá que estamos em presença de alguém muito especial. Um exemplo demonstrativo - como ilustrava a cantiga de Zeca Afonso - de alguém sempre capaz de dizer não! e ser capaz de resistir com a força de carácter da convicção.
O que passou, no Tarrafal - o campo salazarista da morte lenta onde esteve preso quase criança - ou nas prisões por que passou, fazem dele um homem notável cuja história deveria ser conhecida e contada nas escolas. Para que o seu exemplo não se perca e para que o seu exemplo seja suporte de esperança de situações que, embora se espere que não tenhamos com que nos confrontar nunca mais em Portugal, percorrem o Mundo diariamente.
Ler os livros - a colecção das Memórias é um bom exemplo - que escreveu dão alguma ideia do que foi a sua vida e das suas lutas  - penso sempre, num misto d admiração e respeito: como foi possível resistir? - mas nada chega a ouvi-lo falar a contar o que viveu - lembro-me sempre da descrição do assalto ao quartel de Beja e de como daria um filme extraordinário se feito com a visão que ele nos transmite, transformando o risco de vida da luta antifascista num momento de extraordinário humor.
Ter a possibilidade de estar com ele é ouvir a lucidez da análise política sobre o Mundo actual e sobre a história do Mundo que percorreu. Nomeadamente da vida do PCP a que pertenceu e de onde saiu por questões de princípio. Estar com ele garante uma aula viva sobre o que é Portugal e como se chegou ao que ele é hoje desde os quase primórdios da República.
Caro Edmundo, o teu exemplo de resistência alicerçado nos valores e princípios que traduzem a exigência de uma vida colectiva livre e mais solidária, democrática e respeitadora dos valores e direitos humanos incita a que não desistamos de lutar pela melhoria das condições de vida dos mais fracos e socialmente desprotegidos.
Não esquecerei nunca as lições de vida que me foste ensinando e, como combinamos ao telefone,  cá estaremos para a tua festa dos 100 anos!
Um enorme e querido abraço de parabéns, Amigo!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

SONHO


A minha filha juntou os seus três filhos e disse-lhes: o avô João Paulo vai aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. A minha neta, nove anos e ginásta, lançou:
- Acho melhor começarem a poupar dinheiro...
- Poupar dinheiro?! para quê? - perguntou com alguma estranheza a mãe.
- Para poderem ir lá ver-me quando eu estiver lá.
Pronto está aberto o caminho: a minha neta Mafalda quer competir nos Jogos. 2024?

terça-feira, 7 de junho de 2011

António Manuel (1959/2011)

Isto de pertencer ao clube do Sgt. Peppers exige uma cada vez maior capacidade de enfrentar o desagradável – é uma outra forma de dar conteúdo à ideia de que a idade não perdoa.

A notícia chegou seca e sem rodeios: faleceu o António Manuel.

Desde que se mudou para Bruxelas que nos víamos menos mas temos memórias suficientes para nos mantermos presentes. Juntos mais o António Costa, fizemos diversas campanhas políticas – sempre do bom lado, gostámos de lembrar – a percorrer o país de cima abaixo. Temos estórias conjuntas de gargalhada, momentos inesquecíveis, vitórias memoráveis. E horas de alguma preocupação também.

Os três fomos à Alemanha para as primeiras eleições pós-reunificação. Do lado do SPD, claro. E aí percebemos a dimensão útil do “desenrascanço” português – eles, os alemães, nem por isso... Era então líder do SPD, Lafontaine e, nas reuniões em que nos falavam da estratégia eleitoral, percebemos que estavam à rasca: tinham a campanha toda planeada – ao pormenor mais ínfimo – sem contar com a queda do Muro que os havia surpreendido e não sabiam que fazer com a alteração e as suas profundas consequências. Consultados, dissemos: esqueçam a campanha, vamos a outra! Que não – e o António Manuel, a pensar no espírito alemão, ria-se – que não havia tempo de planear outra, diziam. Demos a nossa primeira lição: to much planning is equal at non planning at all; se aceitarem isto, podemos avançar e adaptarmo-nos ao novo quadro. Aceitaram só um bocadinho e não lhes correu muito bem – o Lafontaine também não ajudou muito…. Mas foi uma boa aventura e que deixou boas marcas.

Claro que tenho uma enorme tristeza pelo desaparecimento do António Manuel. Mas manda a experiência da vida que seja contida porque estamos a entrar na fase que sabemos que é o que vai acontecer cada vez mais, perder amigos. Esta é a triste realidade: perdi um amigo.

Que lembrarei sempre à mistura com alguma nostalgia dos tempos heróicos das caravanas. Sorrindo.

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