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"ANA GOMES À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA!
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Este sistema de acesso ao ensino superior não serve o país, descuida paixões e ignora possíveis talentos. Neste incómodo que este sistema me impõe, sossego apenas com a enorme satisfação que as minhas netas me deram: estão na Universidade.
Sempre que tenho de dar atenção, por interesses de avô, ao acesso ao ensino superior, fico incomodado. Incomoda-me aquele jogo de décimas – como se estabelecerão diferenças de décimas nas notas escolares? Ninguém acha estranho? Incomoda-me o facto desta espécie de lotaria que representa a entrada, escolha ou falha por décimas – num ano fico fora por duas décimas, no ano anterior teria entrado sem problemas, no ano que vem posso entrar ou não dependendo muito mais das notas dos outros do que das minhas. Que raio de sistema é este?
Provavelmente porque, dizendo respeito às Universidades, nós, espíritos menores, entendemos que no cume da escada da sabedoria estarão algoritmos que nos são inacessíveis e que determinarão quem tem ou não capacidades para vir a ser um cidadão com saberes suficientes para melhorar a vida do país e dos seus. Pura ingenuidade a nossa. Nada mais desacertado. O actual sistema não permite, para a grande maioria, nada mais do que aceitar a exigência de adaptação ao que a sorte ditou.
E é esta prática apresentada como se fosse a boa solução de preocupações responsáveis. O ministro da pasta, preocupado com as necessidades de futuro, alerta: “apenas 20% dos que têm entre 25 e 64 anos têm o ensino superior” (e só 50% têm o secundário, dizem os números); o presidente da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior, João Guerreiro, avisa que “o aumento de qualificação dos jovens é fundamental na perspectiva do futuro”. E todos nós sabemos também dizer que a formação para o conhecimento é fundamental para elevar o nível do país e de quem cá vive. Mas mantemo-nos neste engano – quase diria, a lembrar Camões, ledo e cego – de julgar que nos melhoraremos com este sistema de acesso ao ensino superior... E os que ficam pelo caminho? E os que entram por escolha burocrática para depois perderem tempo a encontrar o caminho a desoras ou, pura e simplesmente, para desistirem? Quem ganha com isso? Portugal e os portugueses?!
Até admito – embora seja uma demonstração de desconfiança da qualidade do ensino liceal – que se possa estabelecer uma meta, fixa e pré-determinada, mais elevada que o mero 10 para entrar nas Universidades. Mas aqui haveria uma meta conhecida e não variável e de maior dependência do próprio aluno do que de factores exteriores. Mas há outros sistemas mais inteligentes e menos agressivos para estudantes e para o próprio país. E que, com facilidade para todos, captam capacidades. E será fácil, se não se conhecerem já, conhecê-los. Estudem e alterem! Basta sair da preguiça institucional.
“A economia estagnou há duas décadas e não consegue superar a barreira clássica do rendimento médio”, escrevia o director Manuel Carvalho neste jornal. Mas gostamos de apresentar os índices de Gini ou o S80/S20 como factores de desenvolvimento escamoteando que são muito ajudados pelos comparativamente baixos rendimentos da classe média. Quer dizer, fechamos os olhos e garantimos os privilégios... Contentámo-nos com os títulos de Nunca entraram tantos alunos no ensino superior. Foram 51 mil e diz-se marco histórico. O que parece dar razão aos situacionistas. Pura ilusão... Recorde pode ser, mas estará longe de servir as mudanças necessárias. Porque as Universidades não cumprem o seu papel na execução das mudanças, provavelmente pelo excesso tecnocrático e ignorância das humanidades, resultando daí uma provável incompreensão sistémica do global. E Portugal continuará a queixar-se dos mesmos factores negativos de sempre. E se as Universidades podem representar factores positivos de mudança, comecemos por as mudar.
Se nada for feito, se nada for alterado, neste país que nos calhou, acabarei por dar razão à Alexandra Alpha de José Cardoso Pires que “isto não é um país, é um sítio mal frequentado”. Mas a que não falta a vaidade do fato elegante de marca internacional.
Este sistema de acesso ao ensino superior não serve o país, descuida paixões, ignora possíveis talentos – quantos notáveis conhecemos que não mostraram notas liceais de bater no tecto? – e esquece muit@s capazes. E alarga desistências mesmo se há o reconhecimento ministerial de que “no próximo ano temos de ter menos abandono”. Como, se fui parar onde não queria?...
Neste incómodo que este sistema me impõe, sossego apenas com a enorme satisfação que as minhas netas me deram: estão na Universidade.
[Publicado em Público, Opinião em 4/10/2020]
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| Não sei quem é o autor@ mas é excelente! Agradeço a possibilidade de a utilizar |
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| Alargamento proposto do passeio do lado nascente da Rua da Escola Politécnica |
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| Gráficos da direcção dos raios solares e seus ângulos de incidência (pode verificar-se o movimento solar durante o dia) |
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| Mapa com as intersecções da malha urbana e com a proposta de novos percursos |
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| Articulação dos recursos pedonais no Largo do Rato |
A pandemia do covid-19 trouxe à evidência o que já devíamos saber sobre a Cidade: a Cidade sem residentes não tem vida!
Ao deixarmos, sem contestação nem preocupações visíveis, que a Cidade se transformasse num espaço especulativo pelas vantagens dadas a compradores estrangeiros do imobiliário e abrindo as portas de par-em-par ao “exército de ocupação” formado por milhares de turistas de 2/3 dias que, fazendo tábua-rasa das culturas e hábitos locais, impõem o momentâneo das suas regras expulsando habitantes de anos, sectoralizando empregos, uniformizando funções, zonificando a Cidade que, como agora nos apercebemos, ficou vazia. Sem pessoas. Porque os ricos proprietários estrangeiros não vivem cá e porque os turistas dos infindáveis e abusadores alojamentos locais — alegremente transformados em reabilitações da Cidade — não apareceram. Deslumbrada com a aceitação internacional, a Cidade deixou-se transformar num espaço de ganância especulativa, elevando os seus preços e, na desproporção das condições criadas, desleixou os cuidados protectores devidos aos seus. A uns porque os expulsou, a outros porque lhes retirou a sobrevivência ao impedir o ganho diário do pão que comem à noite.
E os citadinos, expulsos para periferias desconhecidas, foram carpir as suas mágoas e desalentos da má-sorte de desprotegidos para fora das nossas vidas de confinados privilegiados. E pouco mais tendo do que a solidariedade de uns quantos para lhes amenizar as agruras.
Ao longo dos últimos anos, por desatenção indesculpável, a Cidade transformou-se: perdeu habitantes, perdeu habitação, perdeu relações de vizinhança, perdeu orgulho de pertença. Perdeu-se, perdendo assim o seu valor de cidadania. E perversamente mostra-se como uma “casa de bonecas” para efeito turístico.
A pandemia veio agora, na imagem das ruas desertas cercadas das diversas arquitecturas que marcam a Cidade, pôr a nu as suas debilidades e impedir-nos a cegueira da ignorância do facto: a Cidade não cumpre a sua obrigação! A Cidade não é o lugar que nos garante as condições de vida desejáveis e necessárias. Porque a Cidade não é a edificação que lhe molda as formas mas sim as pessoas que a articulam, a transformam e lhe garantem a habitabilidade urbana. E essas, não estão!
E, se nada fizermos, a Cidade enquanto lugar de encontro, de invenção, de troca, de cultura, de solidariedade, de bem-estar, de inclusão, não o será mais.
Iniciado o desconfinamento, todos os que vivem nos subúrbios e dependem do que resta de empregos urbanos, transbordam — nada que seja novidade — em transportes colectivos insuficientes e onde a impossibilidade do distanciamento físico aumenta o risco de contágio, transformando estes transportes no melhor amigo da continuidade pandémica.
Que podemos fazer perante este desequilíbrio social e funcional que percebemos crescente? Muito!
Primeiramente recusando começar pelo fim da linha, apresentando modismos como soluções para os problemas que nos envolvem. Problemas que são muito mais do que formais e que pertencem ao domínio dos valores e direitos da cidadania.
Antes do mais e como objectivo fundamental a Cidade precisa de voltar à sua essência: a Cidade precisa de mais residentes, ponto! E este é o conceito que deve nortear todas as acções a desenvolver. O que, embora não se fazendo de um dia para o outro, nada impede de ser bem pensado desde já. Evitando recorrer a soluções gastas e de duvidoso resultado que já demonstraram a sua ineficácia.
Antes do mais a Cidade precisa de minorar a actual situação do tempo bi-diariamente perdido nas deslocações casa/trabalho. Aumentando a acessibilidade ao direito à habitação e procurando garantir o exercício igualitário de viver na cidade onde se trabalha. O que levará o seu tempo, percebe-se…
Mas desde já, algumas acções de carácter imediato são possíveis — aproximar os deslocados da Cidade dos seus empregos, ajudar à contenção infecciosa e preparar o futuro. E se a diminuição do tempo de deslocação não é imediata, é possível a diminuição do tempo de espera e a melhoria do conforto, introduzindo definitivamente o conceito de horários laborais desfasados, permitindo que menos gente se desloque ao mesmo tempo. E poderemos ainda diminuir o número destes torna-viagem contemporâneos se mantivermos o sistema de teletrabalho.
Horários laborais desfasados e continuidade do teletrabalho são portanto medidas necessárias e urgentes.
E, simultaneamente, trabalhar para que o retorno de residentes se faça com a criação de “habitats urbanos” — aquilo a que já se deu o nome de “unidades de vizinhança” — dessectoralizando a Cidade e derrotando a gentrificação com a mistura social e funcional. Misturando tudo e todos, trazendo de novo à liça os conceitos dos anos sessenta de Jane Jacobs e de “A Cidade não é uma árvore” de Christopher Alexander para permitir o desenvolvimento urbano dos 3 Tês de Richard Florida e garantir a atractividade criativa de Tecnologias, do Talento e da Tolerância.
Cidades europeias já iniciaram este percurso. Barcelona com o seu programa de “supermanzanas” procura, diminuindo tempos de deslocação, aproximar as necessidades urbanas quotidianas dos residentes da sua habitação e a que junta ainda a possibilidade de utilização de um superalgoritmo de pesquisa de preferências e interesses próprios dos moradores, começando assim a preparar o futuro.
Em Paris, com base em seis razões de uma urbanidade equitativa como são habitação digna, trabalho em decentes condições, facilidades de abastecimento, bem-estar, educação e divertimento nos tempos livres, foi lançado o programa municipal “Paris do 1/4 de Hora”. Um programa a aplicar em toda a Cidade e com o objectivo de garantir que a 15 minutos de casa, cada parisience irá ter um fácil acesso — a pé ou de bicicleta — às necessidades do seu quotidiano, não só de trabalho, de escola ou de abastecimento mas também de ocupação activa de tempos livres para si, seus filhos ou netos. Isto é: a Cidade deixará para trás os seus sectores monofuncionalizados, do “aqui vivo, ali trabalho e além ocupo os meus tempos livres” para reduzir o tempo de acesso, aumentar a entre-ajuda e o sentimento de pertença, garantindo assim uma real melhoria de condições de habitabilidade e de vida.
A oportunidade de que agora se fala em Portugal de possíveis programas de habitação, deve ser vista, acima de tudo, como uma efectiva oportunidade para os portugueses verdadeiramente necessitados de acesso a uma habitação digna. Priorizar o Direito à Habitação sobre a gentrificação turística resulta desta perspectiva e que é obrigatório executar. A nós Arquitectos, exige-se a demonstração de capacidades e competências que permitam criar a habitabilidade exigível no quadro de uma urbanidade equitativa e integrável no amplo e complexo movimento da Cidade.
[publicado in Público Opinião Habitação e Urbanismo, 20 de Junho de 2020]
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| Primeira página de A Bola de 10 de Julho de 2019 |
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| João Félix junto a “Las Meninas” de Diogo Velásquez no Museu do Prado |
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| foto O Minho |
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| A preparar os festejos na bancada da Luz (foto M.Aguiar) |