segunda-feira, 12 de setembro de 2022

JUVENTUDE PERDIDA

A morte de A RAINHA provoca-me, para além de um sentimento de perda — apesar de republicano sempre admirei as enormes qualidades e a decência que demonstrou durante 70 anos de influente reinado — a estranha sensação de ter terminado a minha juventude.
Enquanto A RAINHA viveu e pelo facto de ter tido a sua figura presente em toda a minha vida — tornou-se Rainha quando eu tinha 5 anos — tive sempre a sensação, pelos 21 anos que nos separavam que, pelas actividades e responsabilidades que mantinha na sua provecta idade, me marcava uma fronteira de capacidade jovem. Infelizmente o vazio que nos deixa atira com o bom exemplo para as lembranças que conseguirmos guardar, na presença que já não temos. Provavelmente, porque se foi a presença, é isso que sinto como perda de juventude…
A minha avó, embora galesa e com pouco afecto pelos ingleses que lhe usurpavam o país, tinha por ela grande consideração e, por isso, levou-me, ainda eu não tinha feito dez anos, ao aeroporto de Pedras Rubras para ver A RAINHA quando em 1957, visitou o Porto. Pela impressão com que então fiquei, é uma recordação que mantenho viva.
Com A RAINHA aprendi, pela sua referência ao “duty first, self second” que lhe terá, ao que parece, sido transmitida pelo seu pai, o verdadeiro significado e dimensão do lema SERVIR com que fui educado no Colégio Militar. Percebi que SERVIR não era o sim-senhor, obediente e acrítico como alguns pretendiam, mas a disponibilidade responsável de serviço. Embora este entendimento me trouxesse toda a sorte de problemas com os autoritários medíocres do costume, ganhei no saber estar profissional e social.
Tinha A RAINHA um notável sentido de humor que exercia de acordo com o seu “Let us not take ourselves too seriously. None of us has a monopoly on wisdom”. Quem faria, nas comemorações do seu Jubileu de Platina, uma rábula de hora do chá com o urso Paddington a mostrar-lhe(nos) a sanduíche que transportava na mala para uma possível emergência?… ou o recurso a outra rábula com Mr. Bond para a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres…
Não sendo de menos, pela atitude que demonstra, o facto de ter sido mecânica voluntária de veículos militares durante a Grande Guerra, A RAINHA tinha ainda, como todos reconhecemos, uma paixão por cavalos — como membro da Escolta a Cavalo do Colégio Militar tínhamos na sua Guarda, entre o vermelho deles e o nosso castanho, um bom modelo de garbo e aprumo. Não gostava apenas das diversas formas do hipismo, gostava de Desporto em geral como demonstrou com a passagem de um documentário apresentado publicamente no seu Jubileu de Platina onde homenageava atletas e equipas masculinas e femininas de acordo com a sua ideia de que “Sport has a wonderfull way of bringing together people and nations”. Para além da sua presença em diversos momentos desportivos, desde sempre que galardoou diversos desportistas pelos serviços prestados como no caso do Rugby em que Sir Gareth Edwards de Gales, Sir Clive Woodward de Inglaterra, Sir Ian McGeechan da Escócia ou Sir Graham Henry da Nova Zelândia foram, entre outros, nomeados, pelos Cavaleiros Britânicos.
Apesar dos seus  96 anos, a sua morte, se não é uma surpresa inesperada, não deixa, como ela justificou no seu “grief is the priece we pay for love”, de me causar — no simbolismo do seu reinado e legado de influência mundial e que define uma época — uma tristeza que poderia considerar quase familiar.
Que descanse em paz!

 

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

HIJOSDEPUTA

Denunciar os gerontocidas

Podia lembrar a estes gerontocidas — assassinos ou proponentes de morte aos velhos — e a quem os apoie que, dada a sua circunstância e para mostrar a sua clara adesão aos princípios que apregoam, poderiam mostrar-nos o exemplo do seu suicídio. Mas não quero ir por aí...
... lembro apenas que quando festejei os 75 anos que cumpri no passado dia 25 de Abril e no almoço que fiz com o meu filho, minha filha, minhas netas e neto e na conversa sobre idades, velhices e etc. que tivemos, falei-lhes do meu propósito de viver até aos 100 anos. Que iríamos comemorar o meu século como estávamos a comemorar o meu três-quartos de século, vivos, contentes e bem-dispostos, a que juntaríamos bisnetos. Concordámos todos que iria ser assim.
Por isso senhores gerontocidas preocupados com a riqueza do mundo dos ricos, não se safam: ainda tenho muito futuro pela frente para vos estragar os planos. Vou viver até aos 100 anos e, mesmo que vocês não gostem, a continuar a gozar dos meus direitos de velhice.

Nota: as mães destes energúmenos nada têm a ver com o assunto e são ou foram, com certeza, senhoras sérias. O problema é mesmo deles próprios!
 


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

FERNANDO CHALANA, O PEQUENO GENIAL - 1959/2022



Vi jogar Chalana diversas vezes quer pelo SL Benfica, quer pela Selecção Nacional — era um jogador fabuloso! Dito canhoto jogava com qualquer dos pés com a mesma facilidade e sem que a decisão lhe atrasasse o processo de ultrapassar o adversário. Vê-lo jogar era um prazer tremendo.

Mais tarde, conheci-o pessoalmente. Apareceu, pela mão de alguém da equipa, no Estádio Universitário onde eu treinava a equipa principal do Grupo Desportivo de Direito e pediu para “treinar” connosco. Não que quisesse iniciar-se como jogador de rugby, mas porque queria manter a actividade física. Claro que foi imediatamente aceite e lá alinhou nas partes do treino em que a maior preocupação era a melhoria da condição física. Não sem uma condição prévia: ensinar os pontapeadores de serviço a chutar. E a facilidade com que ele o fazia… bola redonda ou oval era, nos seus pés, a mesma coisa. Alguns dos pontapeadores melhoraram com ele, com os conselhos que lhes deu… 
Muito simpático, gostávamos dele. Um formidável! Inesquecível!

domingo, 15 de maio de 2022

PAULO GIL: VIVEU COM JAZZ, MORREU COM JAZZ

fotos JPBessa
Amigos e companheiros de diversas andanças — direcção do Hot, programas de rádio, textos, concertos ou jam sessions de muitos e bons músicos ouvidos em mútua companhia (até lhe desenhei um símbolo para a sua bateria), longos momentos a gozar a vista da varanda de sua casa ou em férias familiares em conjunto no Algarve 
 
para chegarmos com a família à praia algarvia— uma pequena enseada de descida difícil — éramos obrigados a atravessar propriedades de outros (Valentim de Carvalho?) mas tínhamos a vantagem de, só pela vista da composição do grupo, da dimensão do areal e do trabalho descida/subida, ficar com a praia só para nós. O que permitia, naqueles tempos, que as senhoras se colocassem no à-vontade de mamas ao léu. Um dia, lá do alto da falésia, ouvimos voz grossa da GNR: “Ó senhoras! Não podem estar assim! Têm que pôr os sutiãs!”. Estranhámos a preocupação vinda de tão elevada moral pública, e, o Paulo e eu, pusemos os sutiãs das senhoras e perguntámos lá para cima: “E agora? Está bem assim?”… e nunca mais vimos os GNR durante o resto das férias.

— temos boas memórias e muitos e bons momentos conjuntos. E por maior que fosse o intervalo dos encontros a que a vida nos obrigava, era sempre com a proximidade do ontem que nos reencontrávamos.

Charlie Haden, Carlos Paredes e Fernando Assis no Hot com o Paulo
no canto em que, quando não tocava, gostava de ouver
(foto de JPBessa)
Isto de se ir avançando na idade tem o seu lado terrível: à medida que avançamos, vamos perdendo os amigos de sempre com enorme sofrimento. É a vida, sabias? dizem-nos. Pois é, mas a Natureza podia arranjar as coisas de outra maneira… é idiota ficarmos mais velhos e vermo-nos com menos amigos…
O Paulo ficará sempre e de cada vez que o jazz soar a primeira nota, nas minhas melhores memórias, recordando até, quando o ritmo assim o exigir, o raspar das baquetas no tecto do Hot porque a bateria, nos seus pratos e peles, se mostrava curta para garantir a criatividade. Bons gozos jazzísticos…
Com a Nossa Memória, até sempre, Paulo!



quinta-feira, 21 de abril de 2022

SELO UCRANIANO

Vai-te f****, navio russo! (autoria:Borys Grokh)

 

domingo, 17 de abril de 2022

PÁSCOA 2022

 


terça-feira, 5 de abril de 2022

LEMBRAR O PERCY

 O Percy Vale D´Asseca morreu faz hoje um ano. Ainda não me adaptei e tenho enormes saudades dele.







A sua simpatia, amizade e companhia fazem-me muita falta… Tenho sempre muito presente este gato meu amigo..


segunda-feira, 14 de março de 2022

GLÓRIA À UCRÂNIA



O nosso maior poeta de todos tempos, Luís de Camões, estaria - como nós portugueses estamos - solidário convosco, ucranianos.
E com o poeta lembrámos.  Quem quis, sempre pôde.
E vocês ucranianos, podem!

quinta-feira, 3 de março de 2022

O DESPORTO NÃO É NEUTRO

Texto publicado no Público

O desporto não é neutro


A invasão da Ucrânia levada a cabo pelas forças russas subordinadas ao comando absoluto de Putin, trouxe novamente à luz do dia a memória europeia do que tínhamos já e apenas como trágicas e dolorosas lembranças. O 24 de Fevereiro tornou numa terrível realidade quotidiana o que julgávamos irrepetível. Porque a realidade é esta: estamos em guerra — G-U-E-R-R-A! — e Portugal está directamente envolvido, quer pelo uso da base das Lajes, quer pelos nossos soldados que avançam para uma eventual primeira linha de combate.

O Desporto sempre foi um elemento fundamental de afirmação de povos e países e constituiu assim uma arma muito importante no domínio da diplomacia. Em 2013 e para evitar o afastamento da luta greco-romana dos Jogos Olímpicos, três nações juntaram os seus melhores atletas e participaram numa demonstração em plena Grand Central Station em Nova Iorque. O pormenor da importância deste evento na história do desporto mundial foi o dos seus actores terem sido os Estados Unidos da América, Rússia e Irão. Este evento demonstrou a importância do desporto na sociedade contemporânea e a força que o mesmo tem para superar diferenças de natureza política e diplomática.

Em 1948, noutro hemisfério, a África do Sul iniciava o período mais negro da sua história com a instituição do Apartheid, só terminado em 1994. O râguebi, pelos seus valores, sempre se mostrou capaz de estar do lado certo da história e proibiu a presença dos “springboks” nas duas primeiras edições do Campeonato do Mundo — 1987 na Nova Zelândia e 1991 na Inglaterra. O mundo deixava claro ao governo sul-africano que não tolerava políticas, fosse qual fosse o disfarce, objectivamente racistas. Em 1995, já sem apartheid, o mundo assistia a um momento único de magia e união dada pelos sul-africanos, inspirados pela presença nas bancadas de “Madiba” com a camisola n.º 6 do seu capitão.

Chegados a 24 de Fevereiro o mundo assiste, atónito e num misto de surpresa e medo, a uma invasão injustificável sob qualquer ponto de vista. Aquilo a que estamos a assistir na Ucrânia é uma invasão às fronteiras — essas linhas vermelhas da decência — da humanidade e da democracia. Esta invasão, apesar da admirável coragem do povo ucraniano, nunca se resolverá pelas armas. E, infelizmente, o desporto percebeu isso tarde. Ter sido possível realizar o jogo de futebol Betis-Zenit não causou estranheza, nem indignação. Dois dias mais tarde, e novamente em Espanha, realizou-se em Madrid um Espanha-Rússia em râguebi. Os responsáveis espanhóis invocaram para a realização do jogo, que lhes daria o título europeu, a desculpa esfarrapada de que as russas já estavam em Madrid há quatro dias e por isso — pasme-se — seria injusto não jogarem. Outros episódios se irão suceder e este não é tempo de ficar em cima do muro, até porque o tempo é de trincheiras. Não é tempo de recomendações, não é tempo de agradar a patrocinadores com camuflagens de não se tocarem hinos. É tempo de decisões!

O desporto não é neutro e isso deve obrigar a uma imediata suspensão de todos os atletas que representem a Rússia, joguem onde jogarem, das suas equipas e das suas selecções. E mesmo o actual n.º 1 do ranking ATP, Daniil Medvedev, ao dizer-se favorável à paz, não deveria, como demonstrativo e real protesto contra o assalto que o seu país está a levar a cabo, comparecer em qualquer torneio. É inadmissível continuarem a competir enquanto a paz não for decretada. E é por isso que nos congratulámos — embora pecando por tardias — com as decisões de suspensão da Rússia e Bielorrússia assumidas por diversas federações desportivas internacionais.

Dirão muitos que isto pode tornar-se numa caça às bruxas. Responderemos que a época de caça foi aberta a 24 de Fevereiro na Ucrânia com balas verdadeiras, com perdas de vidas humanas, com famílias destruídas e deixadas ao abandono da sua sorte. As balas disparadas pelo Desporto serão apenas sinais de fumo que podem contribuir para a sensibilização do povo russo para a rejeição interna desta enorme atrocidade.

Não há desculpas, o desporto tem de ser exemplar na aplicação das medidas sancionatórias, dando um sinal claro ao povo russo que se encontram do lado errado da trincheira e, ao mesmo tempo, mostrar a solidariedade que permita a esperança ao povo ucraniano.

A Humanidade agradece.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

MUITO TRISTE POR TI, RAYAN

 


Morreu o Rayan.

Passei horas nestes últimos dias a olhar para o ecrã da televisão a fazer força por ti, sempre na esperança de te ver a ser retirado do poço. Cheguei a ter enormes esperanças quando percebi que estavas a ser retirado. Cheguei a rir. Satisfeito e aliviado. Afinal…

Infelizmente a situação nada tinha de esperançosa. O Rayan já estava morto…

Estou triste! E tenho muita pena. Dele que não precisava de passar estes 5 dias em sofrimento e dos pais dele que devem estar completamente destroçados.

sábado, 1 de janeiro de 2022

2022 PARA TRATAR O COVID POR TU

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

BOAS FESTAS




 

sábado, 18 de setembro de 2021

AO JORGE SAMPAIO


Hoje seria o 82º aniversário do Jorge Sampaio — dia muito triste pelo recente falecimento mas também um dia inevitável de memória. Ouvi o seu nome, aos meus quinze anos e pela primeira vez, em 62: estava no Colégio Militar e o Batalhão Colegial tinha feito um “levantamento de rancho” que durou uns dias com os consequentes castigos de que resultaram expulsões e suspensões e um natural péssimo ambiente que foi durando até ao final do ano lectivo. O que teve como resultado — nos primeiros dias, para nos trazerem comida para compensar a deixada nos refeitórios e depois pela solidariedade do apoio pelo endurecimento do dia-a-dia colegial — que ex-alunos viessem, já noite, ao fundo da “quinta” para saber como iam as coisas e para contarem o que se passava lá “por fora”. Alguns andavam na luta estudantil e contavam que o “comandante da crise” era um tipo de Direito chamado Jorge Sampaio e que tinha a alcunha — no Colégio as alcunhas eram um nome próprio — de “Cenoura”.

Anos depois, embora o visse - pela proximidade do Expresso onde era colaborador - no Flórida, encontramo-nos na candidatura de Mário Soares e já no Partido Socialista participei activamente, pela mão de Lopes Cardoso, na sua candidatura a Secretário-Geral. Com a sua decisão de se candidatar à CM Lisboa, estive naturalmente com ele e com a sua candidatura. Com a sua vitória fui convidado a acompanhá-lo enquanto seu assessor para a Área Urbanística e assim pude — numa enorme vantagem profissional — participar na construção, alinhada na capacidade e sabedoria do António Fonseca Ferreira, dessa nova visão da cidade “Lisboa Capital Atlântica da Europa” traduzida no excelente Plano Estratégico de Lisboa em que pude participar enquanto membro do seu Conselho e que teria permitido — como se depreende da leitura dos seus fundamentos — que Lisboa fosse hoje, a par de Paris, Barcelona, Copenhaga ou Berlim, uma cidade de vanguarda do actual movimento de cidades para as pessoas. Infelizmente ao longo dos anos subsequentes, esse objectivo e estratégia para o concretizar, foi sendo ignorado ou incompreendido. 


Foi, pessoal e profissionalmente, um enorme privilégio ter podido estar presente — e adquirir novos conhecimentos, actualizando perspectivas fixadas no tempo de uma Escola semi-parada — nesta transformação de conceitos, de papeis, de exigências, de objectivos que devem marcar o desenvolvimento das cidades. Disso são exemplo o realojamento de lisboetas de aglomerados degradados ou os pequenos mas importantes passos na realização de um todo, como a aproximação ao rio, a recuperação do Coliseu dos Recreios — lembro-me de, a pedido do especialista israelita de acústica, termos andado a bater palmas em diversos sítios da plateia e dos balcões para controlo da colocação das placas aéreas — do convite a Jacques Delors — um aficionado de futebol — para vir a Lisboa e que tive a possibilidade de acompanhar na sua estada e poder ver um Benfica-Sporting com conhecimento directo do também seu ídolo Eusébio (vestiu de imediato e por cima do casaco, a camisola de jogador que lhe foi oferecida), a realização de uma Semana de Lisboa em Viena, aproveitando a disputa da final da Taça dos Campeões Europeus de 1990 entre o Benfica e o Milão (para além do Fado com Luz Sá da Bandeira, de Olga Pratts, dos Madres de Deus de Teresa Salgueiro ou de afamados cozinheiros da gastronomia lisboeta, levou também o José Mário Branco cuja família havia acolhido, em sua casa, a esposa do Primeiro-Ministro austríaco durante a Guerra… imagine-se a surpresa). 


Mas a visão era também ampliada por uma preocupação cosmopolita de fazer da sua cidade, da sua Lisboa, uma capital reconhecida internacionalmente ao aceitar a realização da Expo 98 a que não faltou uma ida de autocarro à Sevilha 92 de todos os colaboradores próximos para não repetir erros na Lisboa 98 ou da Lisboa Capital Europeia da Cultura de 94 e que teve, na sua 7ª Colina e com a responsabilidade do Elísio Summavielle, uma demonstração das possibilidades de, se juntos e focados num mesmo objectivo, reabilitar a cidade que marca a nossa identidade. Ou ainda com a proposta do Miguel Portas de iniciar a criação dos grandes concertos abertos a grandes plateias e assim vieram os Rolling Stones a Alvalade ou o cuidado colocado na realização do programa do Pavilhão da Expo toma cuidado com o programa, deve ser um pavilhão polivalente mas que possa receber eventos desportivos do melhor nível. A responsabilidade é tua!”, disse-me. Propus-lhe que juntasse á equipa Luis Millet, responsável do programa do Pavilhão Saint Jordi de Barcelona realizado para os Jogos Olímpicos de 92 mas com a preocupação de servir a cidade. Nem hesitou.   


Nesta aventura, Jorge Sampaio distinguiu-me sempre com demonstrações de amizade e de confiança política e profissional. Na sua permanente simpatia aproximava-se dos membros do seu Gabinete de forma as que as relações pessoais produzissem, pela proximidade e participação sem barreiras, relações de trabalho profícuas, inovadoras e competentes (trabalhávamos que nos fartávamos e estudávamos muito…). “Se vocês fossem meus amigos”, disse ao abrir a porta do nosso gabinete sem aviso-prévio e com toda a naturalidade, “levavam-me a almoçar a um sítio agradável e com boa vista” — saímos, tomámos um cacilheiro, andámos a pé junto ao rio da outra margem já a adivinhar, num bonito dia de sol, o prazer da vista deslumbrante de Lisboa. O contentamento do convidado foi evidente.


Sempre que tinha um jogo importante — treinava o rugby do Cascais na altura — manifestava-me a sua amizade aparecendo para ver o jogo. Lembrava-me o André que, há bem pouco tempo, se fartaram de rir, ele e o pai, ao relembrarem a minha bengala pelo ar — não foi dirigida a ninguém! — numa altura em que um erro infantil de um jogador da minha equipa nos ia fazendo perder o campeonato. E profissionalmente ou politicamente sempre me mostrou a sua confiança mandando-me negociar, de acordo com os preceitos estratégicos estabelecidos, com empreendedores ou autores de projectos. Isto para além de me pedir que escrevesse textos que iria utilizar na sua função de Presidente, não sem que e quando entendia me pedir “autorização” para alterar uma frase porque “não consigo dizer isto assim”. Fazia a alteração à mão, sempre de maneira que eu visse, e guardava os papeis.


És capaz de fazer um discurso em francês?” perguntou-me uma manhã. Que sim, disse-lhe. “Então vais amanhã para Paris, se fazes o favor, para discursares por mim no Centro Pompidou.” Falamos uns minutos sobre o tema e que não precisava de ver o texto. Em Paris tive como guia o Eduardo Prado Coelho que me enquadrou na organização francesa onde estavam portugueses e as suas associações. Na volta disse-me com a maior naturalidade do mundo: “Sei que estiveste bem!”. Noutra altura fui, com o Vasco Franco que era vereador, a diversas capitais da América do Sul apresentar a sua candidatura — que acabou vitoriosa — à presidência da Federação Mundial das Cidades Unidas. 


Fui com ele, quando ia receber um prémio às Nações Unidas, a Nova Iorque — tivemos a inteligência de ir, do aeroporto para a cidade, de helicóptero para admirar uma inesquecível vista aérea. Foi com ele que, aí, conheci Ramos Horta com quem estivemos a conversar sobre Timor — “ficas como o contacto dele em Lisboa”, disse-me depois de ter dito a Ramos Horta que sempre que precisasse de alguma coisa que me contactasse que eu daria o andamento necessário. Á noite fomos a clubes de jazz ouvir fabulosos músicos de quem nunca tínhamos ouvido o nome e fomos também ouvir um notável concerto, convidados por um dos seus patronos, numa oportunidade rara de ouvir uma orquestra com mais de 100 figuras. No dia seguinte, o mesmo patrono levou-nos de barco Hudson fora, a ver de perto a Estátua da Liberdade e a skyline nova-iorquina onde aproveitei para fotografar o Jorge com as, agora destruídas, Twin Towers em fundo. De dia fomos aprendendo como se movimenta uma cidade com horários diferenciados — do nosso hotel podíamos ver o acender das luzes por tempos diferentes — e percorríamos, nos poucos intervalos possíveis, os espaços da cidade para perceber que não são os edifícios altos que fazem o mal das cidades… 


Tive uma sorte espantosa ao poder ser seu colaborador. Aumentei os meus conhecimentos, aprendi com ele uma ética de liderança, a obrigação de ouvir as partes, a lidar com perspectivas e interesses desiguais ou mesmo divergentes, a não ceder nos princípios ou nas questões essenciais — aprendizagem que me foi valiosíssima para, posteriormente, desempenhar capazmente os cargos de Coordenador Nacional da Medida Desporto do III Quadro Comunitário de Apoio ou de Vice-Presidente do Instituto do Desporto de Portugal. A nossa convivência foi, para mim, uma escola de elevado nível.


Meu caro Jorge: por tudo isto que me possibilitaste, estou-te muito grato. Como escrevi no  teu Livro de Condolências: “o teu Exemplo ficará vivo para sempre na minha memória. Foi uma honra servir sob as tuas ordens. Com profunda amizade” o meu até sempre!

domingo, 25 de julho de 2021

UM DIA TRISTE


Otelo Saraiva de Carvalho foi o estratega do 25 de Abril. 
25 de Abril que não teria visto a luz sem a sua determinação, a sua ousadia, a sua audácia. Sem ele, sem o seu comando, o primeiro passo para a Liberdade e Democracia não teria existido e a minha vida — e a de tantíssimos outros —teria sido diferente. Diferente e muito pior! 

Nascido em 25 de Abril (1947) recebi de Otelo a melhor prenda de anos que alguma vez tive. Estou-lhe, por isso, eternamente grato!

Hoje é dia para lhe agradecer e um Dia de Luto Nacional seria a demonstração corajosa do devido apreço e não a cobarde moralice de um mistificador agrado tido por generalizado. Principalmente daqueles que são o que são porque houve a coragem de fazer o 25 de Abril — e Otelo foi o seu principal motor! Agradeçam, caramba!

Porque do resto, trataremos com a História, quando formos capazes de tratar de muitas outras controvérsias…

 

sábado, 22 de maio de 2021

SAÚDE E DESPORTO: UMA NECESSIDADE, NÃO O OBJECTIVO

Em resposta parlamentar pela não existência de comparticipação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) ao Desporto, o ministro do Planeamento, Nelson de Souza, respondeu: “O Desporto enquanto elemento promotor e método de prevenção de uma melhor saúde dos portugueses tem uma abertura de financiar a actividade física e desportiva no âmbito da componente C1 da Saúde […]. As actividades desportivas enquanto tal formalmente e pelo tipo de apoios que elas necessitam são sobretudo de emergência para relançar as suas actividades não cabem no âmbito do PRR“ demonstrando, pelo uso do lugar-comum da relação directa Desporto-Saúde, a habitual confusão com actividade ou exercício físicos que podem, naturalmente, envolver jogos e que representam o domínio que, devendo ser generalizado a toda a população, permite constituir a harmonia físico-mental que aumenta as resistências e até a resiliência à doença. Mas Desporto e actividades físicas, não são a mesma coisa nem têm os mesmos objectivos.

Ao contrário do que foi afirmado, o Desporto — que tem o seu domínio na esfera das Federações Desportivas enquanto Associações de Utilidade Pública Desportiva — não tem como objectivo promover a saúde, mas sim a obrigação de garantir que os seus integrantes estão sujeitos ao seu controlo — e daí, por exemplo, a existência de exames médicos de avaliação. 


Garantia que deve ser uma constante. Porque o Desporto, pelas suas exigências no campo do rendimento e da superação, é para quem tem saúde. E, dentro destes que têm as condições físicas e mentais para o praticar, o Desporto — incluindo-se aqui o Desporto Adaptado — é ainda e apenas para os que o querem praticar. Não é portanto para todos: é, repito, para aqueles que o podem e querem praticar. Para todos é, isso sim porque pode ser sempre adequado ao estado de cada um, a actividade e/ou o exercício físicos que constituem, como é do conhecimento generalizado, um elemento, repito, de inegável importância no desenvolvimento da saúde física e mental da generalidade das pessoas.


Tratando-se de uma actividade que tem por objectivo o rendimento e a superação — estamos no domínio da excelência — o Desporto promove, para além do entretenimento que o seu espectáculo proporciona, um conjunto de conhecimentos que se traduzem em vantagens sociais e com aplicação ainda no tecido organizativo e empresarial. Como, por exemplo, com o desenvolvimento do espírito de equipa, reconhecendo a diferença mas evitando a divergência, com a prática da inclusão — no Desporto pouco importa a cor ou a religião — ou com o estabelecimento dos princípios meritocráticos da escolha, criando oportunidades, independentemente da sua origem, para todos os que se inserem no poder-e-querer. 


São também evidentes as condições de inovação científica proporcionadas pelo Desporto, quer pelo melhor e ampliado conhecimento do corpo humano, quer pelas resultantes aplicações práticas como sejam, também por exemplo, a evolução da alimentação e suplementos alimentares, das componentes do vestuário ou do calçado, das componentes de automóveis, motas ou bicicletas, das tecnologias de comunicação e tratamento de dados ou da abertura de novas perspectivas às engenharias e arquitecturas. Enfim, um mundo de relações e aplicações que desmistificam a ideia, errada mas muito recorrente na iliteracia vigente, de que o Desporto não passa de um entretém de fim-de-semana.


O Desporto representa à evidência um óbvio valor social e como tal deve ser apoiado financeiramente por dinheiros quer resultantes da sua actividade quer por dinheiros públicos que permitam, para mais nesta emergência pandémica, garantir — considerando que é crescente a importância no desenvolvimento do domínio económico através do cada vez maior número de empregos que fomenta e de necessidades que desenvolve — a sua continuidade na formação daqueles que substituirão os atletas de hoje, não fazendo, portanto, qualquer sentido considerar que não “cabem no âmbito” do Plano de Recuperação e Resiliência como parece ser a portuguesa visão oficial. Situação que, aliás, não corresponde ao entendimento de outros países europeus…


O Desporto não é um pária social e nós, membros activos da sua comunidade, não podemos deixar que seja tratado como tal. Seja por quem fôr. 


Texto publicado na coluna de opinião do Comité Olímpico de Portugal da Tribuna Expresso em 21/05/2021

segunda-feira, 5 de abril de 2021

O QUERIDO PERCY VAL D’ASSECA PARTIU

A visitar a árvore do Vale de Asseca de onde decidiu adoptar-nos, a mostrar a elegância habitual e a lembrar as óptimas sonecas que fizemos, os grandes jogos de rugby que vimos e os textos que escrevemos. Um amigo e companheiro que partiu com a serenidade dos grandes e que deixa uma memória de enormes e inultrapassáveis saudades.

O Percy Val D’Asseca, o nosso muito querido gato, amigo e companheiro, partiu, às 2 da manhã do domingo dia 4, com a serenidade da grandeza com que sempre viveu, com o mínimo de queixumes que não lhe foi possível segurar, com os olhos a despedir-se. Tinha quase 16 anos — que faria em Maio. E mesmo quando a sua saúde começou a deteriorar-se, nunca deixou de nos manifestar, com enorme ternura, a amizade que tínhamos criado. Gostava especialmente de uma ou outra coisa e sabia expressá-lo de forma compreensível — como quando preferia comer os secos da nossa mão em vez de pela tijela habitual.

Desde logo membro da nossa casa, retribuía-nos a amizade — mesmo amor — que lhe tínhamos com uma absoluta confiança, nunca mostrando receio de qualquer gesto nosso. Tinha, de facto, uma total confiança em nós e mostrava-o abertamente. Nos seus últimos dois, três dias, apesar do seu mal-estar e da perda de recursos físicos e da necessidade de se auto-proteger, procurando espaços menos abertos ou mesmo escondidos, nunca deixou de vir ter connosco para uma troca de mimos. Ou a mostrar um olhar de agradecimento por um cobertor que lhe puséssemos. Parecia, em cada gesto que fazia, que nos queria mostrar o apreço em que tinha o tratamento que gostosamente lhe dispensávamos. E por isso a nossa relação tinha um laço muito forte de união.

O bilhete de identidade que lhe fizemos

Profundamente doloroso — que nos marca o coração apertado — foi o momento quando, sentindo-o já com dificuldades respiratórias transmitidas num ou noutro som cavo e vendo a sua linguinha rosa já fora da boca, percebi a minha incapacidade para fazer mais por ele do que o gesto de carícia traduzido numa festa como último adeus — nada mais podia fazer pelo querido Percy... e, tão rápido quanto possível, saímos para o hospital. E fechou-se a porta — só o voltando a ver na tranquilidade da imagem que guardo. O  choque, a perda, essas serão para sempre.

Perder a sua presença no dia-a-dia é um sofrimento muito grande — não ter mais a simpatia da sua companhia, dos seus gestos — o sentir das suas mãos a puxar uma das nossas para que lhe fizéssemos festas ou para que lhe déssemos espaço para se acolher — dos seus sítios ou das suas coisas a construir memórias que vão levar muito tempo até que possam ser recordadas com um sorriso. Dói-me muito a tua falta, Percy querido..

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

ANA GOMES POPULISTA?!



Foi com espanto que na noite eleitoral ouvi bem-pensantes a classificar a candidatura de Ana Gomes como populista. Havendo até quem, do cimo do ar professoral da certeza absoluta, a comparasse à existente armadilha da extrema-direita.

Politicamente o populismo procura despertar, utilizando as liberdades permitidas pelo exercício da Democracia, os instintos mais primários e os medos mais irracionais que permitam ao caudilho a conquista ou a manutenção do poder. Ora, lendo os 21 pontos que constituem o programa de candidatura de Ana Gomes se percebe que a sua oposição não assenta nem em moralices, rejeição de direitos de minorias ou propostas socialmente divisionistas, mas sim numa determinação pela aplicação de Princípios e Valores da Democracia e dos Direitos Humanos.

O facto de ser uma mulher a enunciar com toda a clareza as exigências de intervenção política nas diversas áreas que compõem a nossa vida comum, não permite o menosprezo ou o achincalho. Populista, não; genuína e frontal, sim! 

[publicado in Público, Cartas ao Director em 29/Jan/2021]

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

ANA GOMES A MINHA PRESIDENTE

Votar em Ana Gomes, como farei no próximo domingo, é procurar que o cargo de Presidente da República seja ocupado por uma pessoa capaz, com visão estratégica de futuro, defensora exigente e sem contemplações dos princípios fundamentais da Democracia e do seu pleno desenvolvimento e que nos garanta que entre a reflexão da palavra e a acção exigível, vai apenas um tempo de realização eficaz.


A experiência de uma vida dedicada a Servir, quer directamente a República, quer os Valores e Princípios de garantia dos Direitos Humanos fazem de Ana Gomes uma cidadã de convicções, independente de quaisquer interesses ou conveniências e que, no cargo de Presidente da República, terá um papel decisivo, usando convenientemente os seus poderes constitucionais, para que Portugal possa ser o lugar comum do bem-estar, traduzido numa real melhoria das condições de vida, de todos os portugueses.


Para Ana Gomes — e desde já — o meu agradecimento pela sua presença nestas eleições. Votemos, portanto!  



FINALMENTE !!!!


 Tarde e a más horas mas parece que começaram a perceber que uma ameaça não se trata com proporcionalidade mas avançando e tomando-lhe a dianteira...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

ESTAVAM À ESPERA DE QUÊ?!

Comentários para quê? Vale a evidência!

 

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