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| Desenho da minha Mãe, 1947 |
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| ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA DE PORTUGAL EM 23/24 DE FEVEREIRO DE 2023 |
Era um gato formidável que, numa loja de animais em Campo de Ourique — daí o nome de Knight de Campo de Ourique — onde tínhamos ido buscar rações para o queridíssimo Percy, mostrou claramente que nos tinha escolhido. E veio connosco.
Daí para cá tem sido uma alegria, mesmo quando a Nina entrou na nossa casa e que, no largo tempo de recuperação das lesões criadas por aqueles que a atiraram carro fora, passava mais tempo a ser tratada atrás de portas fechadas. E aí a curiosidade misturada com os ciúmes das atenções criavam situações engraçadas e que nos divertiam.
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| fotos JPBessa |
para chegarmos com a família à praia algarvia— uma pequena enseada de descida difícil — éramos obrigados a atravessar propriedades de outros (Valentim de Carvalho?) mas tínhamos a vantagem de, só pela vista da composição do grupo, da dimensão do areal e do trabalho descida/subida, ficar com a praia só para nós. O que permitia, naqueles tempos, que as senhoras se colocassem no à-vontade de mamas ao léu. Um dia, lá do alto da falésia, ouvimos voz grossa da GNR: “Ó senhoras! Não podem estar assim! Têm que pôr os sutiãs!”. Estranhámos a preocupação vinda de tão elevada moral pública, e, o Paulo e eu, pusemos os sutiãs das senhoras e perguntámos lá para cima: “E agora? Está bem assim?”… e nunca mais vimos os GNR durante o resto das férias.
— temos boas memórias e muitos e bons momentos conjuntos. E por maior que fosse o intervalo dos encontros a que a vida nos obrigava, era sempre com a proximidade do ontem que nos reencontrávamos.
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| Charlie Haden, Carlos Paredes e Fernando Assis no Hot com o Paulo no canto em que, quando não tocava, gostava de ouver (foto de JPBessa) |
O Percy Vale D´Asseca morreu faz hoje um ano. Ainda não me adaptei e tenho enormes saudades dele.
Texto publicado no Público
A invasão da Ucrânia levada a cabo pelas forças russas subordinadas ao comando absoluto de Putin, trouxe novamente à luz do dia a memória europeia do que tínhamos já e apenas como trágicas e dolorosas lembranças. O 24 de Fevereiro tornou numa terrível realidade quotidiana o que julgávamos irrepetível. Porque a realidade é esta: estamos em guerra — G-U-E-R-R-A! — e Portugal está directamente envolvido, quer pelo uso da base das Lajes, quer pelos nossos soldados que avançam para uma eventual primeira linha de combate.
O Desporto sempre foi um elemento fundamental de afirmação de povos e países e constituiu assim uma arma muito importante no domínio da diplomacia. Em 2013 e para evitar o afastamento da luta greco-romana dos Jogos Olímpicos, três nações juntaram os seus melhores atletas e participaram numa demonstração em plena Grand Central Station em Nova Iorque. O pormenor da importância deste evento na história do desporto mundial foi o dos seus actores terem sido os Estados Unidos da América, Rússia e Irão. Este evento demonstrou a importância do desporto na sociedade contemporânea e a força que o mesmo tem para superar diferenças de natureza política e diplomática.
Em 1948, noutro hemisfério, a África do Sul iniciava o período mais negro da sua história com a instituição do Apartheid, só terminado em 1994. O râguebi, pelos seus valores, sempre se mostrou capaz de estar do lado certo da história e proibiu a presença dos “springboks” nas duas primeiras edições do Campeonato do Mundo — 1987 na Nova Zelândia e 1991 na Inglaterra. O mundo deixava claro ao governo sul-africano que não tolerava políticas, fosse qual fosse o disfarce, objectivamente racistas. Em 1995, já sem apartheid, o mundo assistia a um momento único de magia e união dada pelos sul-africanos, inspirados pela presença nas bancadas de “Madiba” com a camisola n.º 6 do seu capitão.
Chegados a 24 de Fevereiro o mundo assiste, atónito e num misto de surpresa e medo, a uma invasão injustificável sob qualquer ponto de vista. Aquilo a que estamos a assistir na Ucrânia é uma invasão às fronteiras — essas linhas vermelhas da decência — da humanidade e da democracia. Esta invasão, apesar da admirável coragem do povo ucraniano, nunca se resolverá pelas armas. E, infelizmente, o desporto percebeu isso tarde. Ter sido possível realizar o jogo de futebol Betis-Zenit não causou estranheza, nem indignação. Dois dias mais tarde, e novamente em Espanha, realizou-se em Madrid um Espanha-Rússia em râguebi. Os responsáveis espanhóis invocaram para a realização do jogo, que lhes daria o título europeu, a desculpa esfarrapada de que as russas já estavam em Madrid há quatro dias e por isso — pasme-se — seria injusto não jogarem. Outros episódios se irão suceder e este não é tempo de ficar em cima do muro, até porque o tempo é de trincheiras. Não é tempo de recomendações, não é tempo de agradar a patrocinadores com camuflagens de não se tocarem hinos. É tempo de decisões!
O desporto não é neutro e isso deve obrigar a uma imediata suspensão de todos os atletas que representem a Rússia, joguem onde jogarem, das suas equipas e das suas selecções. E mesmo o actual n.º 1 do ranking ATP, Daniil Medvedev, ao dizer-se favorável à paz, não deveria, como demonstrativo e real protesto contra o assalto que o seu país está a levar a cabo, comparecer em qualquer torneio. É inadmissível continuarem a competir enquanto a paz não for decretada. E é por isso que nos congratulámos — embora pecando por tardias — com as decisões de suspensão da Rússia e Bielorrússia assumidas por diversas federações desportivas internacionais.
Dirão muitos que isto pode tornar-se numa caça às bruxas. Responderemos que a época de caça foi aberta a 24 de Fevereiro na Ucrânia com balas verdadeiras, com perdas de vidas humanas, com famílias destruídas e deixadas ao abandono da sua sorte. As balas disparadas pelo Desporto serão apenas sinais de fumo que podem contribuir para a sensibilização do povo russo para a rejeição interna desta enorme atrocidade.
Não há desculpas, o desporto tem de ser exemplar na aplicação das medidas sancionatórias, dando um sinal claro ao povo russo que se encontram do lado errado da trincheira e, ao mesmo tempo, mostrar a solidariedade que permita a esperança ao povo ucraniano.
A Humanidade agradece.
Morreu o Rayan.
Passei horas nestes últimos dias a olhar para o ecrã da televisão a fazer força por ti, sempre na esperança de te ver a ser retirado do poço. Cheguei a ter enormes esperanças quando percebi que estavas a ser retirado. Cheguei a rir. Satisfeito e aliviado. Afinal…
Infelizmente a situação nada tinha de esperançosa. O Rayan já estava morto…
Estou triste! E tenho muita pena. Dele que não precisava de passar estes 5 dias em sofrimento e dos pais dele que devem estar completamente destroçados.
Hoje seria o 82º aniversário do Jorge Sampaio — dia muito triste pelo recente falecimento mas também um dia inevitável de memória. Ouvi o seu nome, aos meus quinze anos e pela primeira vez, em 62: estava no Colégio Militar e o Batalhão Colegial tinha feito um “levantamento de rancho” que durou uns dias com os consequentes castigos de que resultaram expulsões e suspensões e um natural péssimo ambiente que foi durando até ao final do ano lectivo. O que teve como resultado — nos primeiros dias, para nos trazerem comida para compensar a deixada nos refeitórios e depois pela solidariedade do apoio pelo endurecimento do dia-a-dia colegial — que ex-alunos viessem, já noite, ao fundo da “quinta” para saber como iam as coisas e para contarem o que se passava lá “por fora”. Alguns andavam na luta estudantil e contavam que o “comandante da crise” era um tipo de Direito chamado Jorge Sampaio e que tinha a alcunha — no Colégio as alcunhas eram um nome próprio — de “Cenoura”.
Anos depois, embora o visse - pela proximidade do Expresso onde era colaborador - no Flórida, encontramo-nos na candidatura de Mário Soares e já no Partido Socialista participei activamente, pela mão de Lopes Cardoso, na sua candidatura a Secretário-Geral. Com a sua decisão de se candidatar à CM Lisboa, estive naturalmente com ele e com a sua candidatura. Com a sua vitória fui convidado a acompanhá-lo enquanto seu assessor para a Área Urbanística e assim pude — numa enorme vantagem profissional — participar na construção, alinhada na capacidade e sabedoria do António Fonseca Ferreira, dessa nova visão da cidade “Lisboa Capital Atlântica da Europa” traduzida no excelente Plano Estratégico de Lisboa em que pude participar enquanto membro do seu Conselho e que teria permitido — como se depreende da leitura dos seus fundamentos — que Lisboa fosse hoje, a par de Paris, Barcelona, Copenhaga ou Berlim, uma cidade de vanguarda do actual movimento de cidades para as pessoas. Infelizmente ao longo dos anos subsequentes, esse objectivo e estratégia para o concretizar, foi sendo ignorado ou incompreendido.
Foi, pessoal e profissionalmente, um enorme privilégio ter podido estar presente — e adquirir novos conhecimentos, actualizando perspectivas fixadas no tempo de uma Escola semi-parada — nesta transformação de conceitos, de papeis, de exigências, de objectivos que devem marcar o desenvolvimento das cidades. Disso são exemplo o realojamento de lisboetas de aglomerados degradados ou os pequenos mas importantes passos na realização de um todo, como a aproximação ao rio, a recuperação do Coliseu dos Recreios — lembro-me de, a pedido do especialista israelita de acústica, termos andado a bater palmas em diversos sítios da plateia e dos balcões para controlo da colocação das placas aéreas — do convite a Jacques Delors — um aficionado de futebol — para vir a Lisboa e que tive a possibilidade de acompanhar na sua estada e poder ver um Benfica-Sporting com conhecimento directo do também seu ídolo Eusébio (vestiu de imediato e por cima do casaco, a camisola de jogador que lhe foi oferecida), a realização de uma Semana de Lisboa em Viena, aproveitando a disputa da final da Taça dos Campeões Europeus de 1990 entre o Benfica e o Milão (para além do Fado com Luz Sá da Bandeira, de Olga Pratts, dos Madres de Deus de Teresa Salgueiro ou de afamados cozinheiros da gastronomia lisboeta, levou também o José Mário Branco cuja família havia acolhido, em sua casa, a esposa do Primeiro-Ministro austríaco durante a Guerra… imagine-se a surpresa).
Mas a visão era também ampliada por uma preocupação cosmopolita de fazer da sua cidade, da sua Lisboa, uma capital reconhecida internacionalmente ao aceitar a realização da Expo 98 a que não faltou uma ida de autocarro à Sevilha 92 de todos os colaboradores próximos para não repetir erros na Lisboa 98 ou da Lisboa Capital Europeia da Cultura de 94 e que teve, na sua 7ª Colina e com a responsabilidade do Elísio Summavielle, uma demonstração das possibilidades de, se juntos e focados num mesmo objectivo, reabilitar a cidade que marca a nossa identidade. Ou ainda com a proposta do Miguel Portas de iniciar a criação dos grandes concertos abertos a grandes plateias — e assim vieram os Rolling Stones a Alvalade — ou o cuidado colocado na realização do programa do Pavilhão da Expo “toma cuidado com o programa, deve ser um pavilhão polivalente mas que possa receber eventos desportivos do melhor nível. A responsabilidade é tua!”, disse-me. Propus-lhe que juntasse á equipa Luis Millet, responsável do programa do Pavilhão Saint Jordi de Barcelona realizado para os Jogos Olímpicos de 92 mas com a preocupação de servir a cidade. Nem hesitou.
Nesta aventura, Jorge Sampaio distinguiu-me sempre com demonstrações de amizade e de confiança política e profissional. Na sua permanente simpatia aproximava-se dos membros do seu Gabinete de forma as que as relações pessoais produzissem, pela proximidade e participação sem barreiras, relações de trabalho profícuas, inovadoras e competentes (trabalhávamos que nos fartávamos e estudávamos muito…). “Se vocês fossem meus amigos”, disse ao abrir a porta do nosso gabinete sem aviso-prévio e com toda a naturalidade, “levavam-me a almoçar a um sítio agradável e com boa vista” — saímos, tomámos um cacilheiro, andámos a pé junto ao rio da outra margem já a adivinhar, num bonito dia de sol, o prazer da vista deslumbrante de Lisboa. O contentamento do convidado foi evidente.
Sempre que tinha um jogo importante — treinava o rugby do Cascais na altura — manifestava-me a sua amizade aparecendo para ver o jogo. Lembrava-me o André que, há bem pouco tempo, se fartaram de rir, ele e o pai, ao relembrarem a minha bengala pelo ar — não foi dirigida a ninguém! — numa altura em que um erro infantil de um jogador da minha equipa nos ia fazendo perder o campeonato. E profissionalmente ou politicamente sempre me mostrou a sua confiança mandando-me negociar, de acordo com os preceitos estratégicos estabelecidos, com empreendedores ou autores de projectos. Isto para além de me pedir que escrevesse textos que iria utilizar na sua função de Presidente, não sem que e quando entendia me pedir “autorização” para alterar uma frase porque “não consigo dizer isto assim”. Fazia a alteração à mão, sempre de maneira que eu visse, e guardava os papeis.
“És capaz de fazer um discurso em francês?” perguntou-me uma manhã. Que sim, disse-lhe. “Então vais amanhã para Paris, se fazes o favor, para discursares por mim no Centro Pompidou.” Falamos uns minutos sobre o tema e que não precisava de ver o texto. Em Paris tive como guia o Eduardo Prado Coelho que me enquadrou na organização francesa onde estavam portugueses e as suas associações. Na volta disse-me com a maior naturalidade do mundo: “Sei que estiveste bem!”. Noutra altura fui, com o Vasco Franco que era vereador, a diversas capitais da América do Sul apresentar a sua candidatura — que acabou vitoriosa — à presidência da Federação Mundial das Cidades Unidas.
Fui com ele, quando ia receber um prémio às Nações Unidas, a Nova Iorque — tivemos a inteligência de ir, do aeroporto para a cidade, de helicóptero para admirar uma inesquecível vista aérea. Foi com ele que, aí, conheci Ramos Horta com quem estivemos a conversar sobre Timor — “ficas como o contacto dele em Lisboa”, disse-me depois de ter dito a Ramos Horta que sempre que precisasse de alguma coisa que me contactasse que eu daria o andamento necessário. Á noite fomos a clubes de jazz ouvir fabulosos músicos de quem nunca tínhamos ouvido o nome e fomos também ouvir um notável concerto, convidados por um dos seus patronos, numa oportunidade rara de ouvir uma orquestra com mais de 100 figuras. No dia seguinte, o mesmo patrono levou-nos de barco Hudson fora, a ver de perto a Estátua da Liberdade e a skyline nova-iorquina onde aproveitei para fotografar o Jorge com as, agora destruídas, Twin Towers em fundo. De dia fomos aprendendo como se movimenta uma cidade com horários diferenciados — do nosso hotel podíamos ver o acender das luzes por tempos diferentes — e percorríamos, nos poucos intervalos possíveis, os espaços da cidade para perceber que não são os edifícios altos que fazem o mal das cidades…
Tive uma sorte espantosa ao poder ser seu colaborador. Aumentei os meus conhecimentos, aprendi com ele uma ética de liderança, a obrigação de ouvir as partes, a lidar com perspectivas e interesses desiguais ou mesmo divergentes, a não ceder nos princípios ou nas questões essenciais — aprendizagem que me foi valiosíssima para, posteriormente, desempenhar capazmente os cargos de Coordenador Nacional da Medida Desporto do III Quadro Comunitário de Apoio ou de Vice-Presidente do Instituto do Desporto de Portugal. A nossa convivência foi, para mim, uma escola de elevado nível.
Meu caro Jorge: por tudo isto que me possibilitaste, estou-te muito grato. Como escrevi no teu Livro de Condolências: “o teu Exemplo ficará vivo para sempre na minha memória. Foi uma honra servir sob as tuas ordens. Com profunda amizade” o meu até sempre!