quarta-feira, 4 de julho de 2018

UM PROVISÓRIO DEFINITIVO*

Expresso de 30 de Junho de 2018
Num misto de ignorância do veto presidencial — “alterando fundamentalmente uma transição no tempo para uma permanência da exceção, nascida antes do 25 de abril de 1974” — e urgência descabida do PAN, PCP e PSD, foi aprovado um novo diploma na Assembleia da República (AR) com 124 votos (80 do PSD, 25 do PS, 15 do PCP, 2 dos Verdes, 1 do CDS e 1 do PAN), permitindo que engenheiros civis — licenciados até 1987 em quatro distintas escolas portuguesas e que tenham tido um projecto de Arquitectura aprovado entre 2009 e 2017 — assinem projectos de Arquitectura.
Argumentaram então que a Directiva Europeia dizia isto e que o Provedor exigia aquilo. Nada! A Directiva 2005/36/CE estabelece que o detentor das condições para exercer a profissão de arquitecto num dado país comunitário tem, por elementar força da livre circulação, o direito ao reconhecimento mútuo em qualquer outro país membro da Comunidade Europeia. Para Freitas do Amaral, num parecer pedido pela Ordem dos Arquitectos: “A norma é de uma clareza meridiana: a Directiva aplica-se a quem, tendo obtido as suas qualificações num dado Estado-membro, pretenda exercer a correspondente profissão num outro Estado-membro. (…) Não pode ser invocada, pois, por quem pretenda exercer uma profissão no mesmo Estado-membro onde obteve as qualificações.”
A Recomendação do Provedor da Justiça, reclamando “uma clarificação urgente” por parte da “vontade parlamentar” e baseada na pretensão de “direitos adquiridos”, recomendou, não exigiu. Se assim não fosse não seria possível o teor do texto justificativo do veto presidencial. Aliás os referidos direitos finaram-se a Novembro de 2017, final dos oito anos do somatório de prazos da Lei n.º 31/2009 com a Lei n.º 40/2015. Mas 124 deputados, com a sua votação, transformam o estabelecido provisório num definitivo final. Apesar da evidência de quem não assinar no seu país não poder assinar nos outros…
E foram mais longe: fizeram tábua rasa da existência das ordens — aprovadas pela mesma AR — que regulam as profissões de arquitecto e de engenheiro.
Mas há mais! O diploma estabelece, pelo menos, duas situações de concorrência desleal: a possibilidade dos engenheiros realizarem a totalidade do projecto e, ao contrário dos arquitectos, verem-se livres da sujeição a um código deontológico no domínio da Arquitectura.
Realizar projectos de Arquitectura permite aos engenheiros civis, pelas sinergias criadas, reduzir custos e o conjunto de projectos que apresentam pode ser sempre mais barato do que o apresentado por arquitectos que, aos seus, terão de somar os custos dos projectos de especialidades realizados por engenheiros civis.
Impor a inscrição dos engenheiros civis no Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção, IMPIC, suscita uma pergunta: por que código se regerão se a responsabilidade deontológica que pende sobre o exercício da Arquitectura é exclusiva da Ordem dos Arquitectos?
Estes aspectos trazem óbvios prejuízos — a concorrência desleal resulta sempre na desqualificação das acções — para os utentes que são o povo português, supostamente defendido pela AR.
A pública afirmação, pelas três principais figuras da hierarquia política — Presidentes da República e da Assembleia e Primeiro-Ministro — de que a Arquitectura deve ser realizada por arquitectos não colheu na votação de 124 deputados que consideram assim que a profissão de arquitecto não necessita de qualquer formação adequada e específica.
“Sem que se conheça facto novo que o justifique”, como frisa o texto presidencial, não compreendo ainda os 25 votos favoráveis e as 12 abstenções do PS — o paladino, em 2009, da Arquitectura por Arquitectos — e acuso, indignado, a consequência da aprovação: se podem ser substituídos por quem não tem formação adequada é porque a sua formação não vale grande coisa.
Estou profundamente desiludido, irritado até. Pelo óbvio prejuízo e desqualificação da profissão de arquitecto e porque esperei da AR de um Estado de Direito que tive — adulto, licenciado e com alegria —a possibilidade de ver nascer, a garantia do rigor e da responsabilidade em cada decisão. E não foi a isso que assisti acontecer.  

* publicado no Semanário Expresso em 30 de Junho de 2018
ver texto inicial aqui

UM PROVISÓRIO DEFINITIVO (texto inicial)*

Depois do veto presidencial sobre o anterior decreto da Assembleia da República relacionado com a possibilidade de engenheiros—civis assinarem projectos de Arquitectura e uma vez que, pela clareza da acusação presidencial — “alterando fundamentalmente uma transição no tempo para uma permanência da exceção, nascida antes do 25 de abril de 1974.” — foi colocado, ignorando o teor do veto e num misto de responsabilidade urgente do PCP, PAN e PSD, um novo diploma na Assembleia da República que foi aprovado — passadas apenas 3 semanas e com 124 votos (80 do PSD, 25 do PS, 15 do PCP, 2 dos Verdes, 1 do CDS, e 1 do PAN) favoráveis.
Não consigo perceber tanto empenho na imposição de um disparate tão grande e baseado em falácias injustificáveis. Que a Directiva Europeia dizia isto e que o Provedor exigia aquilo, argumentaram. Nada! Nem um nem outro dos documentos chamados à colação exigia nada do que pretendiam que exigisse.
A Directiva 2005/36/CE estabelece apenas que quem é considerado com as condições para exercer a profissão de Arquitecto num dado país comunitário tem o direito, numa consequência elementar do direito de livre circulação, ao reconhecimento mútuo em qualquer outro país membro da Comunidade Europeia. Como escreve Freitas do Amaral num parecer pedido pela Ordem dos Arquitectos: “A norma é de uma clareza meridiana: a Directiva aplica-se a quem, tendo obtido, as suas qualificações num dado Estado membro, pretenda exercer a correspondente profissão num outro Estado membro.” Para adiantar: “A directiva não pode ser invocada, pois, por quem pretenda exercer uma profissão no mesmo Estado membro onde obteve as qualificações.”
Claro que a Recomendação do Provedor da Justiça, reclamando, no seu último ponto (68), “uma clarificação urgente” por parte da “vontade parlamentar” é, isso mesmo e por competência legal, uma recomendação e não uma exigência. Se assim não fosse não seria possível — pelo que é e sendo quem é — o teor justificativo do veto presidencial. 
A base da Recomendação é a insistência no entendimento de “direitos adquiridos”. Ora este direito — para se tornar “direito adquirido” necessitará da transformação do definido provisório em definitivo — finou-se no final do prazo de oito anos em Novembro de 2017, estabelecido pela soma de cinco anos considerados na Lei n.º 31/2009 com os 3 anos definidos na Lei n.º40/2015. Ou seja, a situação provisória que permitia o direito de assinatura de projectos de Arquitectura foi eliminada para todos aqueles que não possuem — engenheiros incluídos — a necessária licenciatura em Arquitectura. E não vale a pena dizer-se da profunda injustiça que caía sobre os engenheiros que, podendo — como há quem goste de dizer — fazer projectos de Arquitectura no estrangeiro, não o podiam fazer em Portugal, no seu próprio país. Mas os engenheiros, pela conjugação das leis n.º 31/2009 e n.º40/2015, deixaram de poder assinar, em Portugal, projectos de Arquitectura desde Novembro de 2017, e deixaram também por força da Directiva invocada, de os poder assinar nos países comunitários — quem não assina no seu país de formação não pode assinar nos outros…
Mas foram ainda mais longe os 124 deputados que votaram favoravelmente o diploma: fizeram tábua rasa da existência das Ordens que, por aprovação — pasme-se! — da própria Assembleia da República, regulam, sem existência de pontos comuns, a expressão pública das profissões de Arquitecto e de Engenheiro.
Mas há mais desatenções: o diploma aprovado estabelece, pelo menos, duas situações de concorrência desleal: a possibilidade de apenas uma das formações realizar, na prática, a totalidade do projecto; à permissão aos engenheiros que projectam arquitectura de ficarem libertos, ao contrário dos arquitectos, da sujeição a qualquer código deontológico no domínio da Arquitectura.
De facto, autorizando os engenheiros civis — preparados para realizar projectos de estruturas e, eventualmente, de outras especialidade — a realizar projectos de Arquitectura, é—lhes também permitido, pelas sinergias criadas, reduzir custos. Ou seja: o conjunto de projectos que apresentam podem sempre ser mais baratos do que os apresentados por arquitectos que, aos seus, terão ainda de somar os custos referentes aos projectos de estruturas e especialidades e que são realizados por ... engenheiros civis.
Por outro lado, impondo a inscrição dos engenheiros civis que tenham iniciado os seus cursos até 1987 no Instituto Superior Técnico, Faculdade de Engenharia do Porto, Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra ou na Universidade do Minho e tenham visto um seu projecto de Arquitectura municipalmente aprovado entre 1de Novembro de 2009 e de 2017, no Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção, IMPIC, obrigam a uma pergunta elementar: porque código deontológico se regerão? Sem esquecer que a responsabilidade deontológica que pende sobre o exercício da Arquitectura é exclusiva da Ordem dos Arquitectos, a resposta só pode ser uma: claramente por nenhum uma vez que o instituto onde terão que se inscrever não tem competências legais para tal. 
Destes dois aspectos vão ressaltar óbvios prejuízos para os utentes — porque a concorrência desleal tem sempre como resultado a desqualificação dos projectos a realizar — que são, em primeira instância, o povo português. Povo português que é suposto a Assembleia da República defender.
Mas não!
Apesar da pública demonstração de que a Arquitectura deve ser realizada por Arquitectos dada pelas três principais figuras da hierarquia política do país — Presidente da República, Presidente da Assembleia da República e Primeiro-Ministro — a votação de 124 deputados da Assembleia da República considera que para exercer uma profissão — a de Arquitecto — não é preciso qualquer formação adequada e específica. O que é grave e inaceitável!  
Sem esquecer a incompreensão dos 25 votos favoráveis e das 12 abstenções do Partido Socialista — o paladino do retorno, em 2009, de Arquitectura por Arquitectos — “sem que se conheça facto novo que o justifique”, como frisa o Senhor Presidente da República na justificação ao seu veto, não aceito, pelo menos intelectualmente, a indignidade provocada na profissão Arquitecto — se podem ser substituídos por quem não tem formação adequada é porque a sua formação não vale grande coisa — como consequência da aprovação expressa.
Estou, clara e profundamente, desiludido, irritado até. Não só pelo óbvio prejuízo e desqualificação da profissão Arquitecto mas porque aquilo que esperei da Assembleia da República de um país democrático, de um Estado de Direito e que tive a possibilidade de, com alegria, já adulto e curso terminado, ver nascer, era, não a ignorância das consequências, mas — como factores essenciais da máxima expressão da vida democrática — a garantia do rigor e da responsabilidade em cada decisão tomada. E não foi isso a que assisti acontecer.   

Arquitecto nº 724, Membro eleito da Assembleia de Delegados da Ordem dos Arquitectos

* texto inicial que foi reduzido a 3499 batidas para poder ser publicado no Expresso

domingo, 20 de maio de 2018

APRENDER COISAS INTERESSANTES

Na habitual reunião do Panathlon Clube de Lisboa subordinada ao tema “Inovação no Têxtil para o Desporto” aprendi coisas muito interessantes. Como, por exemplo, que as camisolas dos rugbístas Springboks são construídas com uma malha que tem fibras horizontais elásticas e verticais rigídas, isto é, são de largura extensível, adaptando-se às diferentes formas dos corpos, mas não são alteráveis no seu comprimento. Vantagens do modelo: aumenta em muito a dificuldade de agarrar um jogador portador da bola pela camisola. Esta ideia partiu de um pedido de um antigo rugbista internacional escocês que comentou junto de investigadores têxteis: “interessante era uma camisola que não deixasse que a puxássemos...”. E de ideia em ideia a somar aos conhecimento das técnicas necessárias, atingiu-se o modelo pretendido de camisola que e não por acaso, são fabricadas em Portugal. E poucos de nós o sabemos...
Também os calções dos Springboks são adaptados para criar uma vantagem competitiva. De ambos os lados têm um tecido que permite limpar as mãos do suor — as vantagens para o jogo de passes, no passar e receber, são óbvias e o formação, o lançador da bola e o saltador agradecerão mais do que os outros. (na altura perguntei: porque é que os tenistas não usam calções deste tipo? Isso é gente muito especial... foi a resposta).
Fui-me lembrando dos “avanços tecnológicos” que fazíamos nos tempos em que — por óbvia falta de capacidades técnicas —pouco mais podíamos contar do que com a imaginação para procurar vantagens competitivas como substituir o pano dos bolsos dos calções por nylon para, nos dias frios e/ou com chuva, podermos aquecer as mãos. Ou o “roubo” da laca da mãe para deitar na sola dos sapatos e garantir a “presa” necessária para um voleibolista ou ainda e para o mesmo efeito o uso do próprio suor retirado dos braços e testa para molhar as solas de sapatos e assim melhor garantir a necessária “presa” ao piso.
Com o mais que foi dito, ficou uma noção muito clara da contribuição do Desporto para a inovação têxtil. A necessidade de superação e a procura de melhores resultados desportivos é, de facto, responsável por diversas inovações de consequências positivas para o conforto das nossas vidas. De facto e cada vez mais o Desporto não é apenas o espectáculo que passa à nossa frente mas um conjunto de actividades de investigação, de criação, de inovação, de produção e de distribuição que faz dele um espaço de cada vez maior domínio social. E Portugal, com uma enorme e muito espalhada iliteracia desportiva, está, numa contradição de interessante análise, profunda e positivamente integrado neste domínio da têxtil. Coisas...

sábado, 7 de abril de 2018

ARQUITECTURA POR ARQUITECTOS (3)

O Presidente da República vetou o diploma que permite que engenheiros civis assinem projectos de Arquitectura alegando que, não se conhecendo facto novo, não se justifica alterar "uma transição no tempo para uma permanência da excepção, nascida antes do 25 de abril."

Esta posição presidencial, se vem ao encontro do que a Ordem dos Arquitectos sempre defendeu, corresponde também à posição publicamente expressa, em diferentes ocasiões, pelo Presidente da Assembleia da República e pelo Primeiro-Ministro - ambos se mostraram contra a proposta de lei, Ferro Rodrigues exprimindo, alto e bom som, o seu voto contra e António Costa, expressando a sua posição - "mais nenhuma outra profissão, por muito útil que seja à construção, substitui a mão, o desenho e o saber único que só um arquitecto sabe ter." - na intervenção realizada na inauguração da Casa da Arquitectura em Matosinhos.

Retirado do site da Presidência da República, reproduz-se, o texto explicativo do veto:

“Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República
1. O Decreto da Assembleia da República n.º 196/XIII, de 3 de abril de 2018, vem alterar a Lei n.º 31/2009, de 3 de julho, que aprovou um regime jurídico estabelecendo a qualificação profissional exigível aos técnicos responsáveis pela elaboração e subscrição de projetos, pela fiscalização de obra e pela direção de obra, revogando legislação nomeadamente de 1973 e estabelecendo um regime transitório de 5 anos para certos técnicos.
2. Pela Lei n.º 40/2015, de 1 de junho, foi permitido aos referidos técnicos prosseguirem a sua atividade transitoriamente por mais 3 anos.
3. O diploma ora aprovado pela AR, sem que se conheça facto novo que o justifique, vem transformar em definitivo o referido regime transitório, aprovado em 2009 depois de uma negociação entre todas as partes envolvidas, e estendido em 2015, assim questionando o largo consenso então obtido e constituindo um retrocesso em relação àquela negociação, alterando fundamentalmente uma transição no tempo para uma permanência da exceção, nascida antes do 25 de abril.
4. Nestes termos, decidi devolver à Assembleia da República, sem promulgação, nos termos do Artigo 136º, n.º 1 da Constituição, o Decreto n.º 196/XIII, de 3 de abril de 2018, que procede à segunda alteração da Lei n.º 31/2009, de 3 de julho, que aprova o regime jurídico que estabelece a qualificação profissional exigível aos técnicos responsáveis pela elaboração e subscrição de projetos, pela fiscalização de obra e pela direção de obra, que não esteja sujeita a legislação especial, e os deveres que lhes são aplicáveis, e à primeira alteração à Lei n.º 41/2015, de 3 de junho, que estabelece o regime jurídico aplicável ao exercício da atividade da construção.
Marcelo Rebelo de Sousa”
Como Arquitecto - inscrito na Ordem dos Arquitectos com o nº 724 e membro eleito da sua Assembleia de Delegados - e também como cidadão, agradeço, naturalmente, a posição do Presidente da República, dr. Marcelo Rebelo de Sousa.

[Clicando aqui pode ter-se acesso à carta do Presidente da República dirigida ao Presidente da Assembleia da República]

quinta-feira, 5 de abril de 2018

VIOLÊNCIA NO DESPORTO NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

A Assembleia da República, através da sua Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto a que se juntou a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, realizou, na Sala do Senado, uma Conferência Parlamentar subordinada ao tema “Violência no Desporto” com duração de um dia e organizada em torno de três painéis: Painel 1 - A violência no Desporto vista pelas organizações do fenómeno desportivo; Painel 2 - A Justiça e a violência no Desporto; Painel 3 - Violência no Desporto: que papel para a Comunicação Social. A sessão terminou com intervenções dos representantes dos Grupos Parlamentares que constituem a Assembleia da República.
Pese a densidade do número de horas, o domínio do tema era suficientemente interessante para me fazer estar presente. E ouvi do primeiro ao último minuto.
A minha primeira anotação foi de estranheza. 
A estranheza - anotada também pelo conferencista Presidente da Confederação Portuguesa do Desporto de Portugal - surge no enunciado que deu nome à conferência. A violência que se pretendia escalpelizar, não está no Desporto, isto é, no domínio do confronto que lhe é próprio e  que, nesta matéria, tem a sua auto-regulação eficazmente estabelecida, mas sim na sua envolvente, isto é, nas componentes que transformam o Desporto em Espectáculo Desportivo. E para a compreensão deste equívoco que trata faces diferentes da totalidade de um fenómeno que tem raízes distintas, vale a pena lembrar a intervenção do Presidente do Comité Olímpico de Portugal que, já depois de uma excelente e esclarecedora intervenção sobre o tema geral, muito bem definiu, aclarando a confusão, os domínios de responsabilidade da regulação desportiva e da regulação estatal. Aliás, na Conferência, esta confusão, resultante até da ordem definida dos oradores que, não seguindo o caminho do geral para o particular, colocou o foco do tema no futebol. E tão de futebol se falou que a conferência se deixou marcar pelos pontos de vista do Presidente do Sporting Clube de Portugal…
Aliás a demonstração de que a violência não está no exercício do Desporto verifica-se na evidência de nunca se ter falado do Atleta - apenas, num ou noutro momento, de jogadores de futebol e apenas por razões laborais.
Assente a focalização no futebol, embora aqui e ali se ouvissem vozes a tentar alertar para a existência da violência noutras envolvências desportivas, pouco se opinou sobre o como intervir naquilo que o Presidente do Sindicato dos Jogadores (de futebol, claro!) definiu como “terra de ninguém”, esse espaço vazio onde nem a capacidade legislativa da Assembleia da República, nem a capacidade interventiva do Governo ou dos promotores do espectáculo desportivo ultrapassam a intervenção tímida e pouco exigente, misturando conceitos para, no fundo, entregar a água do seu capote ao parceiro do lado.
E ouviram-se coisas, mesmo se algumas encobertadas pela preservação dos valores do Desporto chamados então à liça, de espantar.
Como, por exemplo, a proposta do Presidente da Liga de Futebol Profissional - julgo ter percebido que seria para as claques visitantes - do retorno do velho “peão” - áreas não enladeiradas - mesmo se assente no sofisticado conceito de área de cadeiras removíveis (não vá a UEFA torcer o nariz), ignorando - mas muito de acordo com o momento de retrocessos que nos parece assaltar - as mais elementares regras de segurança que a transformação do espectáculo desportivo em espectáculo de massas exige. Se o limite estabelecido para não cair na zona de ocupação espacial de elevado risco é de 5 pessoas por metro quadrado, como garantir - não falando já no conforto dos lugares sentados - que o “peão”, para mais em superfícies inclinadas ou em plataformas, terá a segurança necessária. É que o facto de se pretender ver o jogo de pé não invalida, por razões de objectiva segurança, a necessidade do controlo do posicionamento das pessoas não deixando, nomeadamente, que a nova densidade ultrapasse a densidade resultante dos lugares sentados, garantindo assim o cumprimento do princípio essencial de “uma pessoa, um bilhete, um lugar”.
Não lhe ficando atrás, ouvi a pretensão de um dirigente clubista de aumento do “perímetro de segurança” dos estádios para melhor controlo de adeptos. Claro e o papel das cidades e dos seus habitantes não é outro mais do que ficarem reféns dos jogos de futebol, deitando às urtigas os direitos da cidadania numa subordinação preocupante às exigências simplórias do desporto-rei... fomentando o aumento da “terra de ninguém”: não se ataca o problema da ineficácia do controlo dos maus comportamentos dos adeptos e joga-se apenas no campo da irresponsabilidade do afastamento.  
Também vieram à baila as questões - já recorrentes num país de pouca dimensão e baixa cultura desportivas - do qual do se "com" ou se "contra" definirá o confronto desportivo, bem como os pretendidos malefícios do "resultado" que envolvem o Desporto e a sua prática. A resolução parece-me simples e sem qualquer duplicidade. Naturalmente que o Desporto é "com" porque o "eu" ou o "nós" precisam de outros para competir - a competição consigo próprio não é Desporto! - mas também é “contra” porque são necessários adversários que, com a sua oposição e qualidade, possibilitem a superação individual ou colectiva que define o Desporto. Como sistema complexo que é o Desporto precisa de colaboração (acertar as regras, calendários, locais, etc.) e de oposição (o jogo competitivo). E daqui, desta competição com opositores (porque têm o mesmo objectivo), não vem qualquer mal ao mundo porque estabelecida em regras e normas previamente definidas e acordadas e directamente julgadas por mediadores que garantem a igualdade de oportunidades de cada prova ou momento. E se o Desporto é superação, a sua avaliação faz-se através do resultado. Que não é a fonte directa de qualquer mal mas, como tudo na vida, pode ser bem ou mal perseguido. O Desporto, como a vida, também apresenta a necessidade da escolha. E, para a balizar, criou-se um conjunto de regras - baseadas em Princípios e Valores - que definem o corpo da designada Ética Desportiva.
A questão não estará no resultado - que garante, entre outras coisas, as componentes da pesquisa científica, da inovação de materiais, de métodos ou de processos, do desenvolvimento motor, do controlo da saúde, do equilíbrio competitivo  ou da atractividade que também caracterizam o Desporto - mas sim na criação de formas e meios que evitem a batota na sua construção. Porque Desporto, sem resultado, não existe!
Também se percebeu, apesar dos prejuízos que causam ou causarão à solidez financeira do futebol, que dificilmente nos iremos ver livres do bullying provocado pelos comentadores que enxameiam os programas televisivos de futebol e que, avisaram os jornalistas presentes, poderão, nos tempos mais próximos, tornar-se ainda piores. Mas também aqui, ninguém parece procurar soluções que ultrapassem o deixar andar até que caiam. Porque encarar de frente os problemas e resolvê-los inteligente e eficazmente, não é adequado à permissividade que invadiu a Democracia. Também aqui se ficou pelo esperar para ver.
O futebol, reconheceu-se, está sob suspeição. Por razões diversas, algumas mais conhecidas outras menos. No entanto parece-me que uma das razões que tem tornado o futebol mais atreito a jogo sujo dentro de campo deve-se ao facto de, ao contrário de diversas outras modalidades e muito por uma sua pretensiosa posição de superior importância, nunca ter adaptado as suas regras disciplinares às alterações que a passagem ao profissionalismo e à globalização forçosamente exigem - um bom exemplo dessa má postura é a entrada tardia, mal estruturada e sem qualquer recurso à muita experiência de outros, do vídeo-árbitro. Infelizmente neste campo da exigência da garantia evidente do jogo limpo, tratando-se de uma resultante importante do domínio da auto-regulação desportiva, parece ficar-se à espera que outras entidades instituam a composição do cenário, colocando a mão por baixo do que já não é inocente.
O que não ouvi e teria gostado de ouvir, foram respostas a uma simples pergunta e que, na minha opinião, deveria ter marcado todos os painéis deste Debate Parlamentar: porque é que estamos organizados assim? Ou e de outra forma: como é que chegámos a esta situação?
Encontrada e analisada a evidência das causas, poderemos então encontrar as soluções que real e eficazmente ataquem e resolvam os verdadeiros problemas, ultrapassando as contingências, sejam de que tipo forem, que impedem o cumprimento dos princípios cívicos que a Democracia defende e os princípios e valores que o Desporto exige. Porque a violência na envolvente desportiva existe e não pode ser admitida.

domingo, 1 de abril de 2018

ÉTICA, DESPORTO E CIDADANIA

No título da conferência, a exposição do conceito de que não há Desporto nem Cidadania sem Ética, esse conjunto de valores e princípios que devem nortear a nossa conduta. 
Domínio de estudo da Filosofia conhecido desde, pelo menos, a Antiguidade Clássica, a Ética exige, para sua expressão prática, referências suficientemente reconhecíveis para permitir o seu exercício quotidiano.
Para que serve a Ética? Para colocarmos um adequado limite às nossas acções, não ultrapassando na sua expressão a linha separadora que limita o correcto do incorrecto.
O filósofo e pensador brasileiro Mário Sérgio Cortella, formulando que a Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: Quero? Posso? Devo? Conjugando-as em "coisas que Quero mas não Devo; coisas que Posso mas não Devo; coisas que Quero mas não Posso”, o filósofo define que a paz de espírito existe quando aquilo que queremos é, simultaneamente, o que podemos e o que devemos fazer.
Ou seja, no dia-a-dia das nossas acções e decisões, a Ética baliza-se pela Decência. Podendo então dizer-se que é éticamente correcto ou positivo aquilo que é Decente! E todos nós, seja qual for o nível de estudos e conhecimentos adquiridos, temos - devemos ter com o que aprendemos na escola e uns com os outros - uma noção clara do que é Decência e do que nos deve limitar nas escolhas.
O que é então Decente no domínio do Desporto?
A primeira ideia que normalmente surge ao falar de Desporto é a de fair-play, esse conceito de espírito desportivo que pretende transmitir a ideia que, visando o seu mais alto rendimento e dando o seu melhor para ganhar, o jogador, o atleta, não deve ou pode tirar qualquer vantagem de algo exterior ou violador quer das regras previamente definidas para cada jogo quer das regras de relacionamento da cidadania. O que coloca uma questão central: como conseguir materializá-lo num mundo cada vez mais hiperindividualista, cheio de pós-verdades e combinações materialistas de interesses onde qualquer meio parece valer para atingir um fim?
E não pode ser assim. Como diz Irene Flunser Pimentel, historiadora contemporânea e Prémio Pessoa 2007, "um fim só é interessante se o meio para o atingir for ético”. E no Desporto não vale, não pode valer, a vitória a qualquer preço por mais que todos nós a procuremos atingir e consideremos a sua importância. 
Nem a vitória é a única forma de sucesso nem a derrota é ponto final de coisa alguma. Aprender a viver com estes conceitos é meio caminho para uma conduta decente. 
Pessoalmente sou um privilegiado nesta matéria. Tive sempre presente o exemplo ético de meu Pai - jogador federado de futebol, andebol e ténis - e as preocupações de minha Mãe para uma representação prática e efectiva de espírito desportivo que ficaram enfatizados numa frase que me tem marcado a vida: “uma derrota, por pior que seja, é sempre mais honrosa do que uma vitória com batota". O resto veio no acréscimo da frequência da então melhor escola de ensino e prática desportiva do país e uma das melhores da Europa - o Colégio Militar - onde o Desporto, na sua variedade expressiva, era encarado nas exigências de excelência das suas componentes globais de superação e de conduta. E, foi com esta base de aprendizagem que se traduzia no respeito, lealdade, humildade, disciplina e solidariedade por companheiros, adversários, árbitros, dirigentes, espectadores, por nós próprios e pelas regras do jogo que encarei sempre a minha carreira desportiva no quadro da Ética.
No Rugby, modalidade de expressão do meu Alto Rendimento e que defino como "modalidade colectiva de combate organizada para a conquista de terreno com o propósito de marcar ensaios”, encontrei a continuidade dessa expressão.
Um dos clubes mais conhecidos e tradicionais do mundo do Rugby - os Barbarians RFC, clube de convites que existe desde 1890 - tem como lema [8] o conceito, idealizado pelo reverendo anglicano W. J. Carey, que “o Rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas não para maus desportistas seja qual for a sua origem”. Este lema assegura que os Barbarians não descriminam pela classe de origem, raça, credo ou cor e que a única qualificação necessária para ser membro é que se seja um bom jogador de rugby e um bom desportista [9]. De certa maneira a comunidade do rugby actual mantém vivo este conceito aberto e tolerante mas exigente mesmo depois do profissionalismo ser uma realidade.
Ao contrário do que é, muitas vezes, dado a entender, os jogadores de Rugby e a comunidade rugbística não são diferentes dos jogadores e adeptos de outras modalidades. Mas comportam-se de forma distinta. Principalmente porque desde o seu início como modalidade organizada foi estabelecido [10] um conjunto de princípios de acordo com as características particulares e próprias do jogo por forma a garantir que ele não passaria disso mesmo: de um jogo! O nosso jogo! E isto faz toda a diferença.
Apesar de - e ao que se conta - ter nascido de “um acto de audaciosa criatividade como se gosta de referir e atribuir a William Webb Ellis, o Rugby, pelas suas características próprias, estabeleceu um conjunto de regras - designadas por Leis do Jogo - que têm no seu Código do Rugby uma espécie de Constituição que, definindo os seus valores de referência, determina o Espírito do Jogo. Controlando assim a forma da sua expressão.
Porque o Rugby, nos duros combates pela bola ou por cada centímetro de terreno, pode, pela exaustão provocada, colocar os jogadores para além dos limites da sua lucidez. E é aí que as restrições impostas pelas Leis do Jogo - já completamente assimiladas pelo conhecimento e treino - funcionam como uma segunda natureza do jogador, diminuindo as hipóteses de violação do Espírito Desportivo e garantindo que cada combate não se transforma numa batalha campal.
De facto, deixando de lado a formação ordenada que recomeça o jogo após falhas técnicas de importância reduzida e para um jogo que estrategicamente estabelece a conquista de terreno como factor decisivo de superioridade sobre o adversário, considerar que, a faltas graves, correspondem pontapés de penalidade que, quando não permitem a procura directa de pontos, garantem, para além do ganho de terreno sem esforço, a continuidade da posse da bola, traduz uma forma inteligente - pelos prejuízos provocados na equipa do elemento faltoso - de censurar colectivamente o recurso à falta. A que acresce a amostragem do "cartão amarelo" que impõe uma suspensão de 10 minutos limitada ao "banco do pecador", por faltas abusivamente deliberadas (não há "faltas inteligentes" no Rugby) ou agressões físicas ou verbais. O que, num jogo em que tacticamente o cumprimento da "lei do espelho" representa uma necessidade, pode produzir uma considerável situação de desvantagem. Para faltas ainda mais graves existe o “cartão vermelho”, equivalente a expulsão do jogo. Como dissuasor há ainda a "lei dos 10 metros” que serve para obrigar a recuar, cedendo terreno, a equipa em que algum dos seus membros não cumpra ou barafuste com as decisões do árbitro e que podem ir desde a não retirada em tempo útil até à expressão dirigida de não concordância. Porque no Rugby apenas o “capitão de equipa” pode falar com o árbitro, evitando-se assim as "reuniões" na tentativa de influenciar decisões. Existe ainda a figura de "ensaio de penalidade" que visa considerar a sua validade quando o impedimento da sua marcação resultou de falta adversária. Como se percebe as faltas, no Rugby, não compensam e as suas Leis estão, de acordo com o Código do Jogo, em constante análise e revisão como meio de garantir a manutenção dos equilibrios necessários à disciplina, auto-domínio e respeito mútuo bem como a segurança da integridade física dos jogadores. 
Um jogador deve confiar que a realização das acções de jogo lhe garantem que a sua integridade física não será posta em causa a não ser de forma acidental. Por razões de segurança não é permitido placar/agarrar acima da linha de ombros de um adversário ou placá-lo - mesmo tocá-lo - quando ele se encontra com os pés no ar ou, ainda, placar de forma a atirar ou largar o adversário de modo a que caia de cabeça no chão. Isto é, existem leis dirigidas especificamente à salvaguarda da integridade física dos jogadores, impedindo assim que a aparência de batalha campal se possa tornar uma realidade.
Para além da visão do árbitro há ainda a possibilidade, usada em todos os jogos de melhor nível competitivo, de recurso ao vídeo-árbitro que tem um protocolo claro e que, tendo começado por ser accionado apenas por iniciativa do árbitro, já alargou o seu âmbito para situações de perigosidade. Esta relação com o vídeo-árbitro- a que os espectadores do estádio podem assisir - tem funcionado muito bem não se tendo assistido, nem no campo nem na comunicação social, a nada parecido com aquilo que vemos ou ouvimos no futebol. Talvez pela simples razão que, fazendo o vídeo-árbitro parte da equipa de arbitragem, são as suas respostas às perguntas do árbitro que definem a solução. Ou seja: à falta de visão do árbitro a responsabilidade da decisão passa para o vídeo-árbitro: “Há alguma razão para não marcar ensaio?”, “Não! Não há qualquer razão e pode marcar ensaio!”. O vídeo do jogo serve ainda para testemunhar qualquer acto de violência, contribuindo como meio de prova para a construção da acusação de jogo desleal. 
Por outro lado o conhecimento do jogo por parte dos jornalistas ou especialistas que fazem a cobertura dos jogos é suficientemente elevado para que sejam as incidências do jogo e as capacidades técnico-tácticas demonstradas pelas equipas e seus jogadores o ponto central dos seus comentários, retirando qualquer importância aos aspectos secundários. E se o respeito pelo árbitro é uma realidade no campo, também o é na comunicação social: o jogo deve-se aos jogadores e suas capacidades e o árbitro é uma peça fundamental - num jogo suficientemente complexo para dele não poder prescindir - para garantir a equidade e a igualdade de tratamento no respeito e interpretação das regras.  
Os valores do Rugby são os valores genéricos do Desporto mas as exigências de conduta foram adaptadas às características que o definem e diferenciam de outros jogos. E assim é possível, mesmo no actual quadro profissional que existe desde 1995, que o Rugby possa manter um enquadramento de conduta ética, espírito desportivo e lealdade que se apresenta como exemplo de elevado nível.
Ou seja, é do conjunto de regras e regulamentos que dirigem o jogo que resulta o desempenho ético das modalidades. Os níveis de pressão física e psíquica a que os jogadores e atletas estão sujeitos no domínio do Alto Rendimento exigem formas de enquadramento que permitam o auto-controlo das suas acções e emoções e que garantam a disciplina, auto-domínio, respeito mútuo e lealdade para permitir intervir no jogo de forma psicologicamente confortável - isto é, sem medos - e tendo garantida a tranquilidade, segurança e retidão imparcial para todos os actores.
Nada do que se faz dentro do campo desportivo pode contrariar as normas da decente convivência entre cidadãos. Nada autoriza que se deixem ficar à porta dos campos, pistas ou estádios os princípios e valores que norteiam o percurso da nossa cidadania que tem por base o reconhecimento expresso das conquistas civilizacionais que representam os Direitos Humanos e as preocupações consequentes de Igualdade, Equidade,Tolerância e Transparência.
O Desporto, para que seja a escola de vida que pretendemos, não pode ver-se envolvido - quaisquer que sejam os artifícios utilizados - na corrupção da manipulação de resultados, na expressão directa ou indirecta da violência, no comportamento batoteiro dos seus agentes, no insultuoso bullying verbal televisivo que nos entra casa dentro. O Desporto não pode ser subvertido no desenho da sua expressão. Cumpre-nos não aceitar o inaceitável!
Sendo a Ética do Desporto balizada pela Decência, a aproximação à Cidadania torna-se evidente. Embora formando dois campos distintos de exposição têm a Decência como linha mestra da qualidade das suas acções. Ou seja, Desporto e Cidadania dependem de uma mesma Ética, de um mesmo conjunto de valores que estabelecem, no mesmo domínio do Respeito, uma mesma Decência. O que significa que a forma como se solucionam os problemas da Cidadania não anda longe da que se exige para solucionar os abusos no Desporto.
A Decência em movimento que o Desporto deve constituir, resulta muito mais das acções de Educação, Diagnóstico e Profilaxia do que de piedosas intenções que tendem a sobrevalorizar gestos que se enquadram na normalidade das exigências da ética ou decência desportivas, banalizando a narrativa e, assim, contribuindo para manter o vigor da doença. 
No Desporto, como na Cidadania, o prémio resulta da eficácia qualitativa das acções realizadas e não de artifícios de compensação. Porque existe uma enorme diferença entre a normalidade de fazer o que se deve e a excepção do feito extraordinário.

João Paulo Bessa

(Texto lido como conferencista convidado na conferência Ética, Desporto e Cidadania, realizada na Universidade Lusófona em 26 de Janeiro de 2018 que, por erro involuntário, só foi possível colocá-lo agora. Este texto foi acompanhado com projecção de slides, quatro dos quais aqui se reproduzem.)

sexta-feira, 16 de março de 2018

ARQUITECTURA POR ARQUITECTOS (2)

Manifestação na Assembleia da República

Vigília junto à Ordem dos Arquitectos, Banhos de S. Paulo, Lisboa

quinta-feira, 15 de março de 2018

ARQUITECTURA POR ARQUITECTOS


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

IRANIANAS SEM LENÇO


As mulheres iranianas decidiram protestar - às 4ª feiras - contra o uso obrigatório do lenço no seu país. Para que sejam notadas, tiram o lenço, desfraldam-no num pau e sobem para um ponto mais elevado - caixas de electricidade ou muretes - deixando os seus cabelos livres e ao vento. Por este gesto, algumas já foram presas.
Aqui fica a homenagem da minha solidariedade e contra a menorização da mulher na sociedade.

domingo, 28 de janeiro de 2018

EDMUNDO PEDRO (1918~2018)

A dez meses de chegar aos cem anos - a última vez que falámos apostámos que lá chegaria - faleceu o meu Amigo Edmundo Pedro. E desta aposta perdida fica-me o misto de tristeza e de alegria. Tristeza por ter visto partir uma pessoa que, como os heróis ficcionais, nunca nos deveria deixar; alegria por ter podido conhecê-lo e participar das suas ideias e das recordações de diversas situações que viveu - o prazer que me deu a leitura da versão inicial, ainda manuscrita, de que fez questão de me dar a ler, do seu texto sobre o assalto ao quartel de Beja... Ainda hoje não percebo porque não há um filme sobre aquela acção que, pela sua pena, transmitia a realidade do país: o romantismo amadorístico, cheio de uma coragem capaz de não deixar que algum obstáculo atrapalhasse o objectivo a que se tinha proposto demonstrado por um grupo de resistentes antifascistas a quem faltou sempre a coragem de outros para poder cumprir a missão que lhes norteava a vida; um regime que, impondo o medo, não abria portas fora do seu limitado mundo de interesses.
Ir parar ao Tarrafal, o "campo da morte lenta", com 17 anos e aí passar 9 anos e nunca desistir do projecto da insurreição nacional derrubador do regime facista de Salazar demonstra bem a fibra de que era constituído este querido Amigo. Conhecer a sua vida percorrendo as linhas das suas Memórias é descobrir um herói de carne e osso, de simpatia irradiante, de força moral extrema que será o mais próximo que humanamente se pode conseguir dos super-heróis que desenham os sonhos juvenis da mente de cada um de nós. Homem de enorme firmeza de carácter, tinha uma noção muito clara da lealdade e da decência - reconheça-se com admiração (e pedido público de desculpas!) o seu comportamento no famigerado “caso das armas” que lhe custou, em 1978, seis meses de prisão: que nunca tinha falado perante a polícia e que não se implica alguém que desempenha as funções de Presidente da República (Eanes), foram as explicações, décadas mais tarde, para o seu silêncio.
Edmundo Pedro era uma personagem única!
E por ser único não precisa da preguiça dos copistas para aumentarem incorrectamente a sua biografia que tem, na sua realidade própria, o mais que suficiente para merecer o respeito de Portugal. Edmundo Pedro - sendo um histórico do Partido Socialista - não precisa de ser dado como seu fundador - em cuja lista não se encontra o seu nome - para se reconhecer a importância da sua participação na vida do Partido Socialista enquanto militante, dirigente ou deputado: esteve sempre do lado da justiça, do lado dos mais fracos, do lado da Democracia e, acima de tudo, do lado da Liberdade.
Cito, do prefácio do seu Memórias I, Mário Soares: “Após o 25 de Abril de 1974, ao contrário do seu amigo Fernando Piteira Santos, Edmundo Pedro, entraria no Partido Socialista. Num encontro casual que tivemos, em Setembro de 1973, no aeroporto de Barajas, estando eu já no exílio e de regresso do Chile, de Allende, anunciou-me a sua vontade de se inscrever no PS, que acabava de ser formado na clandestinidade, na Alemanha. Mas essa vontade não chegou a concretizar-se formalmente. Só viria a sê-lo depois do 25 de Abril. […]".
A memória de Edmundo Pedro, pelo que representa para todos nós que vivemos em Democracia, não merece distrações ou desplicências. A extraordinária vida deste homem exige o respeito pelo rigor histórico dos factos.

Ver aqui texto escrito no seu 99º aniversário
...
[pelo respeito e amizade que tenho por Edmundo Pedro vou ter uma enorme dificuldade em apagar o seu nome e número de telefone do meu telemóvel...]

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

PESSOAS?!

É insuportável ter que ouvir os barões e os seus escudeiros neoliberais a justificar as suas acções ou decisões. Ou a dizerem o que pensam sobre qualquer matéria.
De uma coisa fico certo no rebuscar das suas teses: a última por última das coisas que os preocupam são as pessoas.  
De facto as pessoas estão no fundo buraco negro do seu pensamento e o único objectivo da sua iluminada retórica é a mecânica procura da multiplicação dos interesses que servem com o aconchego moral de um "se é bom para mim, é bom para todos". E em vez de indignação, há quem ache isto decente como forma de vida.
...E com o péssimo exemplo Trump a coisa tem a fiar ainda mais grosseiro.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

NO MEU SÍTIO

Foto JPBessa, Nikon D300


domingo, 7 de janeiro de 2018

MÁRIO SOARES...PASSOU UM ANO

Sede do Partido Socialista, Largo do Rato, Lisboa - foto JPB Iphone
Passou um ano...
... passou um ano sobre o falecimento de Mário Soares, o português com as acções mais importantes para a construção da Democracia portuguesa. Da Democracia em que vivemos depois de 40 anos de Ditatura.
Conheci-o bem quando participei, como Director Executivo do MASP I, na campanha eleitoral da sua primeira candidatura à Presidência da República. Com ele percorri muito Portugal e participei directamente na montagem e organização dos comícios. E desse tempo guardo estórias que, na lembrança, me fazem ainda sorrir com o sabor das peripécias.
Mas principalmente de Mário Soares guardo a memória da sua enorme coragem moral e física na defesa das suas convicções e a permanente e clara visão estratégica para atingir os objectivos superiores da Liberdade numa Democracia moderna e humanista e onde os valores da Cidadania Republicana fossem a realidade da vida dos portugueses. E nessa realidade da nossa vida introduziu, atribuindo-lhe a dignidade de gesto pleno, o Direito à Indignação.  
Passou um ano... ( ver aqui o post de 7 de Janeiro de 2017)

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

CEGOS E SURDOS...MAS NÃO MUDOS

São de uma lata desmedida!

Quem os ouve falar - aos senhores políticos que fizeram ou apoiaram o anterior Governo patrono da austeridade ++ - deverá julgar que só existem a traço-ponto. Chegaram agora (traço) e nada têm de responsabilidades anteriores (ponto). Aquilo que funciona mal é por total culpa e inépcia do actual governo; o que funciona bem é resultado da excelente política do anterior Governo. Nunca por nunca por terem dado cabo e fechado diversos serviços públicos, por terem cortado verbas a torto e a direito sem olhar a quem, por se terem mostrado mais austeros do que a austeridade. Por terem, na sua visão de um país melhor, uma política de facilidade, optando pelo mais simples e descurando a procura de soluções pela sua incapacidade de pensamento solidário. No fundo, fazendo aquilo que mais gostam e que tomam por missão: proteger os mais ricos, prejudicando todos os outros.

Ouvi-los falar nas sessões da Assembleia da República ou a perorar nas diversas televisões atinge o pior nível de desrespeito pelas pessoas que prejudicaram quer pela contente aceitação de regras primárias da imposta austeridade quer pelo desmantelar de serviços que serviam comunidades de pessoas. Um fartote de indecência mascarada de bom tom a fazer de todos nós uns parvos, uns estúpidos vergados à sua importância.

Não há paciência para tanto enfardo.

sábado, 30 de dezembro de 2017

BOM 2018!

Experiências de traços, cores e figuras feitas a dedo e ponta de borracha em iPad para um BOM 2018!
O ano de 2017 acabou muito mal para a boa imagem cívica dos portugueses. Como se não bastassem os desastres incendiários, os portugueses tiveram que se confrontar - a somar à tolice do processo Infarmed (que o senhor da pasta vangloria num fazer primeiro para pensar depois) - com a péssima demonstração da sua qualidade ética e cultural no que diz respeito ao "financiamento dos partidos": uma asneirada monumental de políticos sem o mínimo de respeito por aqueles que são os seus votantes no disfarce das propostas num A, B, C com tanto de ridículo como de ignorância da regra e dos bons costumes; um disparate traduzido no chico espertismo reinante por parte de uma série de comunicadores sociais - uns jornalistas e outros nem por isso - que se mostraram, para além de profundamente ignorantes nas questões do sistema, muito mais preocupados com os acessórios de favores de 15 minutos de fama - a senhora diz que é inconstitucional e o melhor, porque dá jeito na corrida desenfreada dos tempos, é não perguntar porquê ou desenvolver qualquer investigação suplementar -  do que com a análise do quadro institucional, seus defeitos e necessidades para estabelecer os domínios da clareza e transparência no respeito pelas funções de informar que desempenham.

Não sei se - dada a mudança dos números que formam o ano - se aplica o ditado de que um mal começado tardará ou não virá nunca a endireitar ou a mais global Lei de Murphy, mas, confesso, estou preocupado e um bocado farto. Porque isto - este sítio (lembrando Cardoso Pires) onde vivemos - parece em roda livre a deixar que a voragem da espuma encubra - num pouco mas suficiente elaborado truque neoliberal - as vantagens da diminuição da austeridade. Levando na onda o que ainda terá de ser feito.

E para 2018 que tal um modo de  DECÊNCIA e RESPEITO?

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

BOM NATAL 2017

Desenhado a dedo em iPad

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

AO EDMUNDO PEDRO COM AMIZADE, RESPEITO E ADMIRAÇÃO


O Edmundo Pedro - de quem tenho a sorte de ser Amigo - faz hoje, 8 de Novembro, 99 anos de idade. Nasceu em 1918, seis anos antes do nascimento dos meus pais. Uma vida enorme, na longevidade e no carácter.
Quem conhecer a vida do Edmundo reconhecerá que estamos em presença de alguém muito especial. Um exemplo demonstrativo - como ilustrava a cantiga de Zeca Afonso - de alguém sempre capaz de dizer não! e ser capaz de resistir com a força de carácter da convicção.
O que passou, no Tarrafal - o campo salazarista da morte lenta onde esteve preso quase criança - ou nas prisões por que passou, fazem dele um homem notável cuja história deveria ser conhecida e contada nas escolas. Para que o seu exemplo não se perca e para que o seu exemplo seja suporte de esperança de situações que, embora se espere que não tenhamos com que nos confrontar nunca mais em Portugal, percorrem o Mundo diariamente.
Ler os livros - a colecção das Memórias é um bom exemplo - que escreveu dão alguma ideia do que foi a sua vida e das suas lutas  - penso sempre, num misto d admiração e respeito: como foi possível resistir? - mas nada chega a ouvi-lo falar a contar o que viveu - lembro-me sempre da descrição do assalto ao quartel de Beja e de como daria um filme extraordinário se feito com a visão que ele nos transmite, transformando o risco de vida da luta antifascista num momento de extraordinário humor.
Ter a possibilidade de estar com ele é ouvir a lucidez da análise política sobre o Mundo actual e sobre a história do Mundo que percorreu. Nomeadamente da vida do PCP a que pertenceu e de onde saiu por questões de princípio. Estar com ele garante uma aula viva sobre o que é Portugal e como se chegou ao que ele é hoje desde os quase primórdios da República.
Caro Edmundo, o teu exemplo de resistência alicerçado nos valores e princípios que traduzem a exigência de uma vida colectiva livre e mais solidária, democrática e respeitadora dos valores e direitos humanos incita a que não desistamos de lutar pela melhoria das condições de vida dos mais fracos e socialmente desprotegidos.
Não esquecerei nunca as lições de vida que me foste ensinando e, como combinamos ao telefone,  cá estaremos para a tua festa dos 100 anos!
Um enorme e querido abraço de parabéns, Amigo!

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

REVIVER MEMÓRIAS COM AGRADECIMENTO

Capa do álbum de fotografias

Telefonaram-me da Federação Portuguesa de Rugby a dizer: “Há um senhor do Porto  que diz ter uma coisa sua e que quer falar consigo. Diz que é um álbum.”
Liguei ao número que me deram, apresentei-me e ouvi:
Sabe, eu sou um coleccionador de velharias e vou muitas vezes às feiras. Estava com a minha namorada e vi, numa das mesas da feira de Vandoma, um senhor a ver um álbum de fotografias onde vi fotos desportivas e, como gosto muito de Desporto, disse: “se ele não levar, eu compro!”. O homem pousou o álbum, peguei eu nele e perguntei: “Quanto?”. “Vinte euros!”, foi a resposta. “Levo!”, disse e dei-lhe o dinheiro.
“Chegado a casa pus-me a ver o álbum”, conta-me, “e pensei: Ná, isto foi roubado! Ninguém deita fora ou põe a vender um álbum de fotografias como este - isto é de família! Estava lá o senhor, ainda bébé com os seus pais, fotografias com irmãos - não, isto só pode ter sido roubado…E depois havia as fotografias desportivas, algumas de Rugby”
“Quanto mais via, pensava para mim: tenho que encontrar o dono disto.
O álbum, de capa vermelha, tinha, bordado a linha branca, pela minha Mãe - previlégios de primeiro filho - o meu nome, João Paulo.
Juntei o nome ao Rugby, fui ao Google e escrevi: João Paulo Rugby. E percebi logo quem o senhor era - até vi que foi condecorado pela Câmra de Lisboa - e falei para a Federação. Dei o meu nome e telefone e ainda bem que estámos a falar porque eu nunca me sentiria bem se não lhe entregasse o álbum. Um álbum deste é uma recordação de família!”
Há quase quarenta anos que não sabia que era feito do álbum - julgo, de facto, que terá sido roubado em mudanças ou obras ou num desleixo de limpezas - e foi uma alegria enorme sabê-lo recuperado nesta história maravilhosa: encontrado numa mesa de uma feira de velharias por alguém com a simpatia suficiente - para além de um sentido cívico invulgar - para ter o trabalho de me procurar e de fazer questão de me o fazer chegar. E já o tenho! 
A abertura do álbum traduziu-se num desfiar de recordações muito agradáveis que a visão das fotografias me proporcionou - é muito bom poder recordar familiares e amigos e lembrar as histórias que cada fotografia   tráz à superfície. Uma satisfação… no reviver dos tempos passados. 
Quem me proporcionou esta alegria, esta satisfação, foi o senhor Juvenal Queirós a quem expresso, com toda a minha gratidão, os meus maiores agradecimentos. Muito obrigado!

Arquivo do blogue

Seguidores