domingo, 1 de abril de 2018

ÉTICA, DESPORTO E CIDADANIA

No título da conferência, a exposição do conceito de que não há Desporto nem Cidadania sem Ética, esse conjunto de valores e princípios que devem nortear a nossa conduta. 
Domínio de estudo da Filosofia conhecido desde, pelo menos, a Antiguidade Clássica, a Ética exige, para sua expressão prática, referências suficientemente reconhecíveis para permitir o seu exercício quotidiano.
Para que serve a Ética? Para colocarmos um adequado limite às nossas acções, não ultrapassando na sua expressão a linha separadora que limita o correcto do incorrecto.
O filósofo e pensador brasileiro Mário Sérgio Cortella, formulando que a Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: Quero? Posso? Devo? Conjugando-as em "coisas que Quero mas não Devo; coisas que Posso mas não Devo; coisas que Quero mas não Posso”, o filósofo define que a paz de espírito existe quando aquilo que queremos é, simultaneamente, o que podemos e o que devemos fazer.
Ou seja, no dia-a-dia das nossas acções e decisões, a Ética baliza-se pela Decência. Podendo então dizer-se que é éticamente correcto ou positivo aquilo que é Decente! E todos nós, seja qual for o nível de estudos e conhecimentos adquiridos, temos - devemos ter com o que aprendemos na escola e uns com os outros - uma noção clara do que é Decência e do que nos deve limitar nas escolhas.
O que é então Decente no domínio do Desporto?
A primeira ideia que normalmente surge ao falar de Desporto é a de fair-play, esse conceito de espírito desportivo que pretende transmitir a ideia que, visando o seu mais alto rendimento e dando o seu melhor para ganhar, o jogador, o atleta, não deve ou pode tirar qualquer vantagem de algo exterior ou violador quer das regras previamente definidas para cada jogo quer das regras de relacionamento da cidadania. O que coloca uma questão central: como conseguir materializá-lo num mundo cada vez mais hiperindividualista, cheio de pós-verdades e combinações materialistas de interesses onde qualquer meio parece valer para atingir um fim?
E não pode ser assim. Como diz Irene Flunser Pimentel, historiadora contemporânea e Prémio Pessoa 2007, "um fim só é interessante se o meio para o atingir for ético”. E no Desporto não vale, não pode valer, a vitória a qualquer preço por mais que todos nós a procuremos atingir e consideremos a sua importância. 
Nem a vitória é a única forma de sucesso nem a derrota é ponto final de coisa alguma. Aprender a viver com estes conceitos é meio caminho para uma conduta decente. 
Pessoalmente sou um privilegiado nesta matéria. Tive sempre presente o exemplo ético de meu Pai - jogador federado de futebol, andebol e ténis - e as preocupações de minha Mãe para uma representação prática e efectiva de espírito desportivo que ficaram enfatizados numa frase que me tem marcado a vida: “uma derrota, por pior que seja, é sempre mais honrosa do que uma vitória com batota". O resto veio no acréscimo da frequência da então melhor escola de ensino e prática desportiva do país e uma das melhores da Europa - o Colégio Militar - onde o Desporto, na sua variedade expressiva, era encarado nas exigências de excelência das suas componentes globais de superação e de conduta. E, foi com esta base de aprendizagem que se traduzia no respeito, lealdade, humildade, disciplina e solidariedade por companheiros, adversários, árbitros, dirigentes, espectadores, por nós próprios e pelas regras do jogo que encarei sempre a minha carreira desportiva no quadro da Ética.
No Rugby, modalidade de expressão do meu Alto Rendimento e que defino como "modalidade colectiva de combate organizada para a conquista de terreno com o propósito de marcar ensaios”, encontrei a continuidade dessa expressão.
Um dos clubes mais conhecidos e tradicionais do mundo do Rugby - os Barbarians RFC, clube de convites que existe desde 1890 - tem como lema [8] o conceito, idealizado pelo reverendo anglicano W. J. Carey, que “o Rugby é um jogo para cavalheiros de qualquer classe mas não para maus desportistas seja qual for a sua origem”. Este lema assegura que os Barbarians não descriminam pela classe de origem, raça, credo ou cor e que a única qualificação necessária para ser membro é que se seja um bom jogador de rugby e um bom desportista [9]. De certa maneira a comunidade do rugby actual mantém vivo este conceito aberto e tolerante mas exigente mesmo depois do profissionalismo ser uma realidade.
Ao contrário do que é, muitas vezes, dado a entender, os jogadores de Rugby e a comunidade rugbística não são diferentes dos jogadores e adeptos de outras modalidades. Mas comportam-se de forma distinta. Principalmente porque desde o seu início como modalidade organizada foi estabelecido [10] um conjunto de princípios de acordo com as características particulares e próprias do jogo por forma a garantir que ele não passaria disso mesmo: de um jogo! O nosso jogo! E isto faz toda a diferença.
Apesar de - e ao que se conta - ter nascido de “um acto de audaciosa criatividade como se gosta de referir e atribuir a William Webb Ellis, o Rugby, pelas suas características próprias, estabeleceu um conjunto de regras - designadas por Leis do Jogo - que têm no seu Código do Rugby uma espécie de Constituição que, definindo os seus valores de referência, determina o Espírito do Jogo. Controlando assim a forma da sua expressão.
Porque o Rugby, nos duros combates pela bola ou por cada centímetro de terreno, pode, pela exaustão provocada, colocar os jogadores para além dos limites da sua lucidez. E é aí que as restrições impostas pelas Leis do Jogo - já completamente assimiladas pelo conhecimento e treino - funcionam como uma segunda natureza do jogador, diminuindo as hipóteses de violação do Espírito Desportivo e garantindo que cada combate não se transforma numa batalha campal.
De facto, deixando de lado a formação ordenada que recomeça o jogo após falhas técnicas de importância reduzida e para um jogo que estrategicamente estabelece a conquista de terreno como factor decisivo de superioridade sobre o adversário, considerar que, a faltas graves, correspondem pontapés de penalidade que, quando não permitem a procura directa de pontos, garantem, para além do ganho de terreno sem esforço, a continuidade da posse da bola, traduz uma forma inteligente - pelos prejuízos provocados na equipa do elemento faltoso - de censurar colectivamente o recurso à falta. A que acresce a amostragem do "cartão amarelo" que impõe uma suspensão de 10 minutos limitada ao "banco do pecador", por faltas abusivamente deliberadas (não há "faltas inteligentes" no Rugby) ou agressões físicas ou verbais. O que, num jogo em que tacticamente o cumprimento da "lei do espelho" representa uma necessidade, pode produzir uma considerável situação de desvantagem. Para faltas ainda mais graves existe o “cartão vermelho”, equivalente a expulsão do jogo. Como dissuasor há ainda a "lei dos 10 metros” que serve para obrigar a recuar, cedendo terreno, a equipa em que algum dos seus membros não cumpra ou barafuste com as decisões do árbitro e que podem ir desde a não retirada em tempo útil até à expressão dirigida de não concordância. Porque no Rugby apenas o “capitão de equipa” pode falar com o árbitro, evitando-se assim as "reuniões" na tentativa de influenciar decisões. Existe ainda a figura de "ensaio de penalidade" que visa considerar a sua validade quando o impedimento da sua marcação resultou de falta adversária. Como se percebe as faltas, no Rugby, não compensam e as suas Leis estão, de acordo com o Código do Jogo, em constante análise e revisão como meio de garantir a manutenção dos equilibrios necessários à disciplina, auto-domínio e respeito mútuo bem como a segurança da integridade física dos jogadores. 
Um jogador deve confiar que a realização das acções de jogo lhe garantem que a sua integridade física não será posta em causa a não ser de forma acidental. Por razões de segurança não é permitido placar/agarrar acima da linha de ombros de um adversário ou placá-lo - mesmo tocá-lo - quando ele se encontra com os pés no ar ou, ainda, placar de forma a atirar ou largar o adversário de modo a que caia de cabeça no chão. Isto é, existem leis dirigidas especificamente à salvaguarda da integridade física dos jogadores, impedindo assim que a aparência de batalha campal se possa tornar uma realidade.
Para além da visão do árbitro há ainda a possibilidade, usada em todos os jogos de melhor nível competitivo, de recurso ao vídeo-árbitro que tem um protocolo claro e que, tendo começado por ser accionado apenas por iniciativa do árbitro, já alargou o seu âmbito para situações de perigosidade. Esta relação com o vídeo-árbitro- a que os espectadores do estádio podem assisir - tem funcionado muito bem não se tendo assistido, nem no campo nem na comunicação social, a nada parecido com aquilo que vemos ou ouvimos no futebol. Talvez pela simples razão que, fazendo o vídeo-árbitro parte da equipa de arbitragem, são as suas respostas às perguntas do árbitro que definem a solução. Ou seja: à falta de visão do árbitro a responsabilidade da decisão passa para o vídeo-árbitro: “Há alguma razão para não marcar ensaio?”, “Não! Não há qualquer razão e pode marcar ensaio!”. O vídeo do jogo serve ainda para testemunhar qualquer acto de violência, contribuindo como meio de prova para a construção da acusação de jogo desleal. 
Por outro lado o conhecimento do jogo por parte dos jornalistas ou especialistas que fazem a cobertura dos jogos é suficientemente elevado para que sejam as incidências do jogo e as capacidades técnico-tácticas demonstradas pelas equipas e seus jogadores o ponto central dos seus comentários, retirando qualquer importância aos aspectos secundários. E se o respeito pelo árbitro é uma realidade no campo, também o é na comunicação social: o jogo deve-se aos jogadores e suas capacidades e o árbitro é uma peça fundamental - num jogo suficientemente complexo para dele não poder prescindir - para garantir a equidade e a igualdade de tratamento no respeito e interpretação das regras.  
Os valores do Rugby são os valores genéricos do Desporto mas as exigências de conduta foram adaptadas às características que o definem e diferenciam de outros jogos. E assim é possível, mesmo no actual quadro profissional que existe desde 1995, que o Rugby possa manter um enquadramento de conduta ética, espírito desportivo e lealdade que se apresenta como exemplo de elevado nível.
Ou seja, é do conjunto de regras e regulamentos que dirigem o jogo que resulta o desempenho ético das modalidades. Os níveis de pressão física e psíquica a que os jogadores e atletas estão sujeitos no domínio do Alto Rendimento exigem formas de enquadramento que permitam o auto-controlo das suas acções e emoções e que garantam a disciplina, auto-domínio, respeito mútuo e lealdade para permitir intervir no jogo de forma psicologicamente confortável - isto é, sem medos - e tendo garantida a tranquilidade, segurança e retidão imparcial para todos os actores.
Nada do que se faz dentro do campo desportivo pode contrariar as normas da decente convivência entre cidadãos. Nada autoriza que se deixem ficar à porta dos campos, pistas ou estádios os princípios e valores que norteiam o percurso da nossa cidadania que tem por base o reconhecimento expresso das conquistas civilizacionais que representam os Direitos Humanos e as preocupações consequentes de Igualdade, Equidade,Tolerância e Transparência.
O Desporto, para que seja a escola de vida que pretendemos, não pode ver-se envolvido - quaisquer que sejam os artifícios utilizados - na corrupção da manipulação de resultados, na expressão directa ou indirecta da violência, no comportamento batoteiro dos seus agentes, no insultuoso bullying verbal televisivo que nos entra casa dentro. O Desporto não pode ser subvertido no desenho da sua expressão. Cumpre-nos não aceitar o inaceitável!
Sendo a Ética do Desporto balizada pela Decência, a aproximação à Cidadania torna-se evidente. Embora formando dois campos distintos de exposição têm a Decência como linha mestra da qualidade das suas acções. Ou seja, Desporto e Cidadania dependem de uma mesma Ética, de um mesmo conjunto de valores que estabelecem, no mesmo domínio do Respeito, uma mesma Decência. O que significa que a forma como se solucionam os problemas da Cidadania não anda longe da que se exige para solucionar os abusos no Desporto.
A Decência em movimento que o Desporto deve constituir, resulta muito mais das acções de Educação, Diagnóstico e Profilaxia do que de piedosas intenções que tendem a sobrevalorizar gestos que se enquadram na normalidade das exigências da ética ou decência desportivas, banalizando a narrativa e, assim, contribuindo para manter o vigor da doença. 
No Desporto, como na Cidadania, o prémio resulta da eficácia qualitativa das acções realizadas e não de artifícios de compensação. Porque existe uma enorme diferença entre a normalidade de fazer o que se deve e a excepção do feito extraordinário.

João Paulo Bessa

(Texto lido como conferencista convidado na conferência Ética, Desporto e Cidadania, realizada na Universidade Lusófona em 26 de Janeiro de 2018 que, por erro involuntário, só foi possível colocá-lo agora. Este texto foi acompanhado com projecção de slides, quatro dos quais aqui se reproduzem.)

sexta-feira, 16 de março de 2018

ARQUITECTURA POR ARQUITECTOS (2)

Manifestação na Assembleia da República

Vigília junto à Ordem dos Arquitectos, Banhos de S. Paulo, Lisboa

quinta-feira, 15 de março de 2018

ARQUITECTURA POR ARQUITECTOS


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

IRANIANAS SEM LENÇO


As mulheres iranianas decidiram protestar - às 4ª feiras - contra o uso obrigatório do lenço no seu país. Para que sejam notadas, tiram o lenço, desfraldam-no num pau e sobem para um ponto mais elevado - caixas de electricidade ou muretes - deixando os seus cabelos livres e ao vento. Por este gesto, algumas já foram presas.
Aqui fica a homenagem da minha solidariedade e contra a menorização da mulher na sociedade.

domingo, 28 de janeiro de 2018

EDMUNDO PEDRO (1918~2018)

A dez meses de chegar aos cem anos - a última vez que falámos apostámos que lá chegaria - faleceu o meu Amigo Edmundo Pedro. E desta aposta perdida fica-me o misto de tristeza e de alegria. Tristeza por ter visto partir uma pessoa que, como os heróis ficcionais, nunca nos deveria deixar; alegria por ter podido conhecê-lo e participar das suas ideias e das recordações de diversas situações que viveu - o prazer que me deu a leitura da versão inicial, ainda manuscrita, de que fez questão de me dar a ler, do seu texto sobre o assalto ao quartel de Beja... Ainda hoje não percebo porque não há um filme sobre aquela acção que, pela sua pena, transmitia a realidade do país: o romantismo amadorístico, cheio de uma coragem capaz de não deixar que algum obstáculo atrapalhasse o objectivo a que se tinha proposto demonstrado por um grupo de resistentes antifascistas a quem faltou sempre a coragem de outros para poder cumprir a missão que lhes norteava a vida; um regime que, impondo o medo, não abria portas fora do seu limitado mundo de interesses.
Ir parar ao Tarrafal, o "campo da morte lenta", com 17 anos e aí passar 9 anos e nunca desistir do projecto da insurreição nacional derrubador do regime facista de Salazar demonstra bem a fibra de que era constituído este querido Amigo. Conhecer a sua vida percorrendo as linhas das suas Memórias é descobrir um herói de carne e osso, de simpatia irradiante, de força moral extrema que será o mais próximo que humanamente se pode conseguir dos super-heróis que desenham os sonhos juvenis da mente de cada um de nós. Homem de enorme firmeza de carácter, tinha uma noção muito clara da lealdade e da decência - reconheça-se com admiração (e pedido público de desculpas!) o seu comportamento no famigerado “caso das armas” que lhe custou, em 1978, seis meses de prisão: que nunca tinha falado perante a polícia e que não se implica alguém que desempenha as funções de Presidente da República (Eanes), foram as explicações, décadas mais tarde, para o seu silêncio.
Edmundo Pedro era uma personagem única!
E por ser único não precisa da preguiça dos copistas para aumentarem incorrectamente a sua biografia que tem, na sua realidade própria, o mais que suficiente para merecer o respeito de Portugal. Edmundo Pedro - sendo um histórico do Partido Socialista - não precisa de ser dado como seu fundador - em cuja lista não se encontra o seu nome - para se reconhecer a importância da sua participação na vida do Partido Socialista enquanto militante, dirigente ou deputado: esteve sempre do lado da justiça, do lado dos mais fracos, do lado da Democracia e, acima de tudo, do lado da Liberdade.
Cito, do prefácio do seu Memórias I, Mário Soares: “Após o 25 de Abril de 1974, ao contrário do seu amigo Fernando Piteira Santos, Edmundo Pedro, entraria no Partido Socialista. Num encontro casual que tivemos, em Setembro de 1973, no aeroporto de Barajas, estando eu já no exílio e de regresso do Chile, de Allende, anunciou-me a sua vontade de se inscrever no PS, que acabava de ser formado na clandestinidade, na Alemanha. Mas essa vontade não chegou a concretizar-se formalmente. Só viria a sê-lo depois do 25 de Abril. […]".
A memória de Edmundo Pedro, pelo que representa para todos nós que vivemos em Democracia, não merece distrações ou desplicências. A extraordinária vida deste homem exige o respeito pelo rigor histórico dos factos.

Ver aqui texto escrito no seu 99º aniversário
...
[pelo respeito e amizade que tenho por Edmundo Pedro vou ter uma enorme dificuldade em apagar o seu nome e número de telefone do meu telemóvel...]

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

PESSOAS?!

É insuportável ter que ouvir os barões e os seus escudeiros neoliberais a justificar as suas acções ou decisões. Ou a dizerem o que pensam sobre qualquer matéria.
De uma coisa fico certo no rebuscar das suas teses: a última por última das coisas que os preocupam são as pessoas.  
De facto as pessoas estão no fundo buraco negro do seu pensamento e o único objectivo da sua iluminada retórica é a mecânica procura da multiplicação dos interesses que servem com o aconchego moral de um "se é bom para mim, é bom para todos". E em vez de indignação, há quem ache isto decente como forma de vida.
...E com o péssimo exemplo Trump a coisa tem a fiar ainda mais grosseiro.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

NO MEU SÍTIO

Foto JPBessa, Nikon D300


domingo, 7 de janeiro de 2018

MÁRIO SOARES...PASSOU UM ANO

Sede do Partido Socialista, Largo do Rato, Lisboa - foto JPB Iphone
Passou um ano...
... passou um ano sobre o falecimento de Mário Soares, o português com as acções mais importantes para a construção da Democracia portuguesa. Da Democracia em que vivemos depois de 40 anos de Ditatura.
Conheci-o bem quando participei, como Director Executivo do MASP I, na campanha eleitoral da sua primeira candidatura à Presidência da República. Com ele percorri muito Portugal e participei directamente na montagem e organização dos comícios. E desse tempo guardo estórias que, na lembrança, me fazem ainda sorrir com o sabor das peripécias.
Mas principalmente de Mário Soares guardo a memória da sua enorme coragem moral e física na defesa das suas convicções e a permanente e clara visão estratégica para atingir os objectivos superiores da Liberdade numa Democracia moderna e humanista e onde os valores da Cidadania Republicana fossem a realidade da vida dos portugueses. E nessa realidade da nossa vida introduziu, atribuindo-lhe a dignidade de gesto pleno, o Direito à Indignação.  
Passou um ano... ( ver aqui o post de 7 de Janeiro de 2017)

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

CEGOS E SURDOS...MAS NÃO MUDOS

São de uma lata desmedida!

Quem os ouve falar - aos senhores políticos que fizeram ou apoiaram o anterior Governo patrono da austeridade ++ - deverá julgar que só existem a traço-ponto. Chegaram agora (traço) e nada têm de responsabilidades anteriores (ponto). Aquilo que funciona mal é por total culpa e inépcia do actual governo; o que funciona bem é resultado da excelente política do anterior Governo. Nunca por nunca por terem dado cabo e fechado diversos serviços públicos, por terem cortado verbas a torto e a direito sem olhar a quem, por se terem mostrado mais austeros do que a austeridade. Por terem, na sua visão de um país melhor, uma política de facilidade, optando pelo mais simples e descurando a procura de soluções pela sua incapacidade de pensamento solidário. No fundo, fazendo aquilo que mais gostam e que tomam por missão: proteger os mais ricos, prejudicando todos os outros.

Ouvi-los falar nas sessões da Assembleia da República ou a perorar nas diversas televisões atinge o pior nível de desrespeito pelas pessoas que prejudicaram quer pela contente aceitação de regras primárias da imposta austeridade quer pelo desmantelar de serviços que serviam comunidades de pessoas. Um fartote de indecência mascarada de bom tom a fazer de todos nós uns parvos, uns estúpidos vergados à sua importância.

Não há paciência para tanto enfardo.

sábado, 30 de dezembro de 2017

BOM 2018!

Experiências de traços, cores e figuras feitas a dedo e ponta de borracha em iPad para um BOM 2018!
O ano de 2017 acabou muito mal para a boa imagem cívica dos portugueses. Como se não bastassem os desastres incendiários, os portugueses tiveram que se confrontar - a somar à tolice do processo Infarmed (que o senhor da pasta vangloria num fazer primeiro para pensar depois) - com a péssima demonstração da sua qualidade ética e cultural no que diz respeito ao "financiamento dos partidos": uma asneirada monumental de políticos sem o mínimo de respeito por aqueles que são os seus votantes no disfarce das propostas num A, B, C com tanto de ridículo como de ignorância da regra e dos bons costumes; um disparate traduzido no chico espertismo reinante por parte de uma série de comunicadores sociais - uns jornalistas e outros nem por isso - que se mostraram, para além de profundamente ignorantes nas questões do sistema, muito mais preocupados com os acessórios de favores de 15 minutos de fama - a senhora diz que é inconstitucional e o melhor, porque dá jeito na corrida desenfreada dos tempos, é não perguntar porquê ou desenvolver qualquer investigação suplementar -  do que com a análise do quadro institucional, seus defeitos e necessidades para estabelecer os domínios da clareza e transparência no respeito pelas funções de informar que desempenham.

Não sei se - dada a mudança dos números que formam o ano - se aplica o ditado de que um mal começado tardará ou não virá nunca a endireitar ou a mais global Lei de Murphy, mas, confesso, estou preocupado e um bocado farto. Porque isto - este sítio (lembrando Cardoso Pires) onde vivemos - parece em roda livre a deixar que a voragem da espuma encubra - num pouco mas suficiente elaborado truque neoliberal - as vantagens da diminuição da austeridade. Levando na onda o que ainda terá de ser feito.

E para 2018 que tal um modo de  DECÊNCIA e RESPEITO?

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

BOM NATAL 2017

Desenhado a dedo em iPad

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

AO EDMUNDO PEDRO COM AMIZADE, RESPEITO E ADMIRAÇÃO


O Edmundo Pedro - de quem tenho a sorte de ser Amigo - faz hoje, 8 de Novembro, 99 anos de idade. Nasceu em 1918, seis anos antes do nascimento dos meus pais. Uma vida enorme, na longevidade e no carácter.
Quem conhecer a vida do Edmundo reconhecerá que estamos em presença de alguém muito especial. Um exemplo demonstrativo - como ilustrava a cantiga de Zeca Afonso - de alguém sempre capaz de dizer não! e ser capaz de resistir com a força de carácter da convicção.
O que passou, no Tarrafal - o campo salazarista da morte lenta onde esteve preso quase criança - ou nas prisões por que passou, fazem dele um homem notável cuja história deveria ser conhecida e contada nas escolas. Para que o seu exemplo não se perca e para que o seu exemplo seja suporte de esperança de situações que, embora se espere que não tenhamos com que nos confrontar nunca mais em Portugal, percorrem o Mundo diariamente.
Ler os livros - a colecção das Memórias é um bom exemplo - que escreveu dão alguma ideia do que foi a sua vida e das suas lutas  - penso sempre, num misto d admiração e respeito: como foi possível resistir? - mas nada chega a ouvi-lo falar a contar o que viveu - lembro-me sempre da descrição do assalto ao quartel de Beja e de como daria um filme extraordinário se feito com a visão que ele nos transmite, transformando o risco de vida da luta antifascista num momento de extraordinário humor.
Ter a possibilidade de estar com ele é ouvir a lucidez da análise política sobre o Mundo actual e sobre a história do Mundo que percorreu. Nomeadamente da vida do PCP a que pertenceu e de onde saiu por questões de princípio. Estar com ele garante uma aula viva sobre o que é Portugal e como se chegou ao que ele é hoje desde os quase primórdios da República.
Caro Edmundo, o teu exemplo de resistência alicerçado nos valores e princípios que traduzem a exigência de uma vida colectiva livre e mais solidária, democrática e respeitadora dos valores e direitos humanos incita a que não desistamos de lutar pela melhoria das condições de vida dos mais fracos e socialmente desprotegidos.
Não esquecerei nunca as lições de vida que me foste ensinando e, como combinamos ao telefone,  cá estaremos para a tua festa dos 100 anos!
Um enorme e querido abraço de parabéns, Amigo!

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

REVIVER MEMÓRIAS COM AGRADECIMENTO

Capa do álbum de fotografias

Telefonaram-me da Federação Portuguesa de Rugby a dizer: “Há um senhor do Porto  que diz ter uma coisa sua e que quer falar consigo. Diz que é um álbum.”
Liguei ao número que me deram, apresentei-me e ouvi:
Sabe, eu sou um coleccionador de velharias e vou muitas vezes às feiras. Estava com a minha namorada e vi, numa das mesas da feira de Vandoma, um senhor a ver um álbum de fotografias onde vi fotos desportivas e, como gosto muito de Desporto, disse: “se ele não levar, eu compro!”. O homem pousou o álbum, peguei eu nele e perguntei: “Quanto?”. “Vinte euros!”, foi a resposta. “Levo!”, disse e dei-lhe o dinheiro.
“Chegado a casa pus-me a ver o álbum”, conta-me, “e pensei: Ná, isto foi roubado! Ninguém deita fora ou põe a vender um álbum de fotografias como este - isto é de família! Estava lá o senhor, ainda bébé com os seus pais, fotografias com irmãos - não, isto só pode ter sido roubado…E depois havia as fotografias desportivas, algumas de Rugby”
“Quanto mais via, pensava para mim: tenho que encontrar o dono disto.
O álbum, de capa vermelha, tinha, bordado a linha branca, pela minha Mãe - previlégios de primeiro filho - o meu nome, João Paulo.
Juntei o nome ao Rugby, fui ao Google e escrevi: João Paulo Rugby. E percebi logo quem o senhor era - até vi que foi condecorado pela Câmra de Lisboa - e falei para a Federação. Dei o meu nome e telefone e ainda bem que estámos a falar porque eu nunca me sentiria bem se não lhe entregasse o álbum. Um álbum deste é uma recordação de família!”
Há quase quarenta anos que não sabia que era feito do álbum - julgo, de facto, que terá sido roubado em mudanças ou obras ou num desleixo de limpezas - e foi uma alegria enorme sabê-lo recuperado nesta história maravilhosa: encontrado numa mesa de uma feira de velharias por alguém com a simpatia suficiente - para além de um sentido cívico invulgar - para ter o trabalho de me procurar e de fazer questão de me o fazer chegar. E já o tenho! 
A abertura do álbum traduziu-se num desfiar de recordações muito agradáveis que a visão das fotografias me proporcionou - é muito bom poder recordar familiares e amigos e lembrar as histórias que cada fotografia   tráz à superfície. Uma satisfação… no reviver dos tempos passados. 
Quem me proporcionou esta alegria, esta satisfação, foi o senhor Juvenal Queirós a quem expresso, com toda a minha gratidão, os meus maiores agradecimentos. Muito obrigado!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

BRADLEY-DEFOE UMA COMOVENTE DESPEDIDA

Foi com muita tristeza e comoção que soube da morte do pequeno - 6 anos - Bradley Lowery que foi diagnosticado com um cancro terminal. Adepto do clube inglês Sunderland, travou-se de amizade com o jogador de futebol do clube, Jermain Defoe, que teve a atenção e o carinho de lhe corresponder genuinamente. Formaram um parelha exemplar e enternecedora.
Vendo as fotografias e sabendo do que se ia passando, tenho a certeza que o futebolista Defoe conseguiu dar ao pequeno Bradley momentos de grande felicidade.
Com muito respeito e pesar quer pelo pequeno Bradley quer pelo grande Defoe, deixo o seu comovente texto de despedida.
Alguns adeptos do Sunderland lançaram uma petição - embora não sendo sócio do Sunderland assinei a petição (clique aqui) porque a apoio absolutamente - para que seja dado o nome de Bradley Lowery a uma das bancadas do estádio do Sunderland. Mais propriamente à bancada sul que hoje tem a designação de East Stand. A mudança do nome significará que os adeptos do Sunderland reconhecem esta amizade entre Bradley e Defoe como uma expressão exemplar de afecto e esperança que deve perdurar na memória do tempo.
É um gesto que espero se concretize para mostrar ao mundo que o Desporto não é, ao contrário do que vemos espelhado todos os dias - por gente que, não sendo dele, se serve dele - um espaço de luta estúpida e insultuosa, mas um espaço de solidariedade, companheirismo, respeito e amizade. E esta bancada assim o lembrará.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Comissão Consultiva de Treinadores do COP

Na passada segunda-feira tomei posse no Comité Olímpico de Portugal como Comissário da Comissão Consultiva de Treinadores. 

Esta Comissão tem como missão apoiar a Comissão Executiva na observância dos Princípios Fundamentais do Olimpismo, no cumprimento da sua missão e fins, emitir propostas, pareceres e recomendações sobre matérias relevantes e ainda aconselhar em questões específicas do seu domínio de intervenção. 

Fazem parte desta Comissão, para além de mim, Isabel Mesquita (Voleibol), eleita Presidente,  António Vasconcelos Raposo (Natação), Gabriel Mendes (Ciclismo), Henrique Vieira (Basquetebol), Paulo Sá (Andebol), Pedro Almeida (Ginástica), Rui Norte (Atletismo), Tiago Lourenço (Canoagem)

  • O Presidente do COP, José Manuel Constantino, na sua intervenção nesta cerimónia de tomada de posse das diferentes Comissões - Mulheres e Desporto, Marketing e Financiamento, Jurídica, Arbitragem e Ajuizamento, Educação Física e Desporto na Escola, Treinadores, Cultura e Desporto, Ciência e Desenvolvimento e Conselho Médico - acentuou que: “A criação de um movimento social valorizador do desporto requer atitude, vontade e ação das organizações desportivas e dos seus dirigentes para que compreendam que a dependência do desporto terá de ser perante valores culturais e sociais e não outros. Todos os dias e em todos os momentos. Porque só assim o desporto nos pode ajudar a encontrar um sentido para a vida. Contamos convosco nesta caminhada.”

  • Trabalho não faltará e os votos são simples: que esta Comissão possa fazer - com a sua componente específico de conhecimentos - com que o Desporto português se aproxime cada vez mais do desenvolvimento desportivo dos países mais avançados, nomeadamente dos europeus.

terça-feira, 20 de junho de 2017

AI LISBOA

Faço minhas as palavras da deputada do PS à Assembleia Municipal de Lisboa, Simonetta Luz Afonso a propósito da alteração proposta para o edifício modernista com azulejos de António Vasconcelos Lapa do nº20 do Largo Bordalo Pinheiro.
Assim:
"A cidade não é só feita de 'neopombalino', nem tão-pouco queremos transformar Lisboa numa Disney do pombalino. Queremos antes que a cidade deixe transparecer na sua malha urbana as diferentes intervenções arquitectónicas feitas no seu tempo histórico, mas também no que se refere à sua história mais recente."
Está dito e serve como um programa de intervenção urbana para a cidade, deixando a cidade respirar os seus tempos históricos na diversidade da sua existência.

O FOGO

Pedro Brás, Facebook
As minhas profundas condolências aos familiares das pessoas falecidas nos fogos dos últimos dias. A minha solidariedade fraternal a todos os que no terreno combatem - com notável coragem, persistência e assertividade - as chamas em condições de enorme dificuldade.
Por respeito aos mortos e aos seus familiares não dou agora conta do que penso e daquilo que me indigna na repetição constante, ano após ano, dos mesmos argumentos que, afinal, não são ouvidos por quem de direito. Falta de coragem, estupidez pura, elevada incompetência ou interesses instalados estarão, cada um por si ou por todos ao molhe, na causa da incapacidade ou de erros cometidos. Tudo apesar do esforço de muitos desperdiçado na ineficácia da preparação ou da prevenção.
Gostaria que pela memória dos mortos, das suas famílias, dos feridos e daqueles que tudo ou muito perderam que houvesse a dignidade de analisar, discutir e planear um futuro de intervenções sobre incêndios mais eficaz. Com seriedade e espírito de missão. 
É preciso compreender para tomar as decisões acertadas para farantir um futuro mais seguro. Porque o clima ou a demografia não vão mudar, mas vão acentuar as condições actuais.

quarta-feira, 8 de março de 2017

FAZER DE ALBERT SPEER


Volante de anúncio da sessão

A convite do Hélder Costa participei de novo nos Encontros Imaginários de A Barraca onde fiz de Albert Speer, arquitecto preferido de Hitler, bem vestido, bem falante, e - muito por isso - tido por "bom nazi" (como se isto fosse possível). Apanhou no Tribunal de Nuremberg 20 anos de prisão safando-se - como teria merecido como se veio a demonstrar mais tarde - da condenação à morte. Convencendo o Tribunal que nada sabia dos campo de concentração ou do extermínio dos judeus e de outros - como se fosse possível ignorá-lo enquanto Ministro do Armamento e Munições e que lhe dava o controlo da distribuição pelo Reich dos materiais de construção. Ignorando, como tantas vezes acontece ainda hoje, a relação entre a ética e a estética, o Tribunal - embasbacado provavelmente pelos seus dotes de artista - entendeu-o como arrependido e desconhecedor do Holocausto e limitou-se a condená-lo pela responsabilidade na utilização de trabalho escravo - com esse trabalho escravo conseguiu, ao que se calcula, prolongar a guerra por mais dois anos - e crimes contra a humanidade.
Terminada a prisão terá recolhido os proveitos da venda de quadros roubados a judeus, terá vendido desenhos de Hitler por bom preço, deu entrevistas bem pagas e escreveu livros que os saudosistas da suoremacia ariana compraram para levar uma santa e rica vida. Morreu com um AVC.
Albert Speer, arquitecto megalómano, criminoso de guerra, um safado que como grande precursor do trumpiano conceito de factos alternativos, montou bem a estória para fazer ignorar o seu apoio e cumplicidade incondicional a Hitler - com eventual desacordo sobre a política incendiária do "Decreto Nero". Vinte anos, vinte anos de prisão para um estupo desta ordem...
O espectáculo correu bem e foi divertido. Pelo menos para nós os quatro - Nuno Santos Silva, Vítor Ramalho, Hélder Costa e eu próprio - que, no palco, nos fartámos de rir.

terça-feira, 7 de março de 2017

COP - TOMADA DE POSSE


Foto da praxe da Tomada de Posse com investidos e autoridades

Com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, do Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, da Presidente da Comissão da Cultura, Comunicação Juventude e Desporto da Assembleia da República, Edite Estrela e do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, foi dada, no passado dia 3 de Março, pelo Presidente da Comissão Eleitoral, Vasco Lynce, posse aos membros dos Órgãos Sociais do Comité Olímpico de Portugal eleitos pela lista presidida por José Manuel Constantino - "Valorizar Socialmente o Desporto - um futuro que nos une".
Com a sala Almada Negreiros do Centro Cultural de Belém cheia, estiveram presentes personalidades ligadas ao Desporto, nomeadamente uma grande maioria de presidentes das Federações Desportivas Olímpicas, Deputados, presidentes de Câmaras Municipais, membros dirigentes de Universidades e parceiros do COP numa cerimónia demonstrativa do reconhecimento da importância do Comité Olímpico de Portugal na sociedade portuguesa.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

ELEIÇÕES NO COP


Capa do programa. Autoria do logótipo: JPBessa
A lista aos Órgãos Sociais do Comité Olímpico de Portugal presidida por José Manuel Constantino e subordinada ao tema programático "Valorizar socialmente o desporto - O futuro que nos une" venceu com 99% dos votos expressos - 142 em 144. 
Das 33 federações olímpicas - com o beisebol, tiro com arco e karaté a não comparecerem para exercer o seu direito de voto - e numa demonstração de responsabilidade democrática uma vez que se tratava de uma única candidatura, expressaram o seu voto na lista candidata 30 das federações. O que significa ter havido um número superior de votantes em relação às 27 federações olímpicas que tinham subscrito a candidatura
Se for considerada a totalidade dos votos possíveis (175), a candidatura presidida por José Manuel Constantino, com os 144 votos obtidos, atingiu 82% do colégio eleitoral.
Como Mandatário desta candidatura não posso deixar de estar satisfeito com o resultado que, pelo apoio recebido, permite pensar num mandato que permitirá um maior desenvolvimento do movimento olímpico português com prováveis e positivas consequências no desporto português. 

sábado, 28 de janeiro de 2017

MEDALHA MUNICIPAL DE MÉRITO DESPORTIVO

Com Fernando Medina, Presidente da Câmara de Lisboa depois da entrega da Medalha

Recebi hoje, 27 de Janeiro, a Medalha Municipal de Mérito Desportivo da Câmara Municipal de Lisboa, entregue pelo Presidente da Câmara, Fernando Medina, e por Proposta do Vereador dos Sistemas de Informação, Desporto e Relação com o Munícipe. Esta foi a minha intervenção de agradecimento:

"O desporto é a água-forte que desenha a minha vida e é, por isso e para mim, uma grande honra receber esta Medalha Municipal de Mérito Desportivo atribuída pela Cidade que escolhi para viver. Para mais quando me é atribuída numa casa onde trabalhei - primeiro com Vasco Franco, depois com o Presidente Jorge Sampaio e ainda, no seu início de mandato, com João Soares - para servir a causa comum da genial obra humana a que chamamos Cidade.
Muito obrigado Senhor Presidente Fernando Medina, muito obrigado executivo municipal e principalmente o meu agradecimento ao senhor Vereador dos Sistemas de Informação, Desporto e Relação com o Munícipe, Jorge Máximo, responsável pela proposta de atribuição da distinção.
Distinção que criou em mim dois sentimentos profundos: Gratidão e Responsabilidade.
Gratidão porque não se consegue uma carreira desportiva isoladamente. E para que haja a permanente e necessária relação entre ilusões e desafios, ela depende não só de nós mas de muitas pessoas: família, amigos, companheiros de equipa, treinadores, adversários, dirigentes e jogadores que fizeram parte das equipas que treinámos. Muitos dos quais revejo hoje aqui e por isso, por o terem tornado possível também os meus agradecimentos ao Mário Patrício e Rafael Lucas Pereira.
A minha primeira expressão de Gratidão vai para os meus Pais: para o meu Pai, que sempre conheci como desportista e que me abriu, pelo seu exemplo de atleta, o espaço da vivência e conhecimento desportivos; para a minha Mãe que sempre se preocupou em me ensinar que uma derrota, por pior que seja, é sempre mais honrosa do que uma vitória com batota. E, claro, agradeço à minha família - à minha mulher Ana, aos meus filhos Raul - obrigado por teres vindo e trazido as minhas netas - e Mafalda que não pode vir porque espera a minha 7ª neta - a paciência de anos que me possibilitou a dedicação e o serviço ao Desporto.
Comecei pelo ténis com as raquetas do meu pai e pelo futebol de muda-aos-cinco-acaba-aos-dez com campo e balizas à medida das circunstâncias. Aos 10 anos entrei para o Colégio Militar deslumbrado por um pista de atletismo, um campo de futebol “à séria” e um ginásio que me pareceu enorme e onde tive a sorte de encontrar - comandado pelo notável Mestre Pereira de Carvalho a que se juntavam Reis Pinto, Vitória, Manuel Cerqueira, Lemos, Abranches, Luis Sequeira e o inesquecível Dario Fernandes - um sistema de formação desportiva de grande qualidade que, naquele tempo já distante, se aproximava do actualmente apreciado Long Term Athlete Development, o célebre LTAD e que me permitiu fazer parte das equipas representativas do Colégio em Atletismo, Voleibol, Andebol, Futebol, da Escolta a Cavalo e da Classe Especial de Ginástica num desenvolvimento permanente de destrezas que nos permitiram diversas e saborosas vitórias. Este processo, baseado na multiplicidade de acesso desportivo, evitava qualquer tipo de especialização precoce. O que me possibilitou vir a singrar numa modalidade que, até então, desconhecia.
Terminada a vida Colegial regressei ao Porto e, por influência de grupos de amigos, fui jogar futebol para o Incana F.C. que disputava o campeonato de amadores da Associação de Futebol do Porto e rugby pelo Centro Desportivo Universitário do Porto - CDUP. Era o tempo de jogar futebol ao sábado e rugby ao domingo…
No CDUP tive como treinador Valdemar Lucas Caetano de quem guardo uma viva memória. Com ele aprendi o espírito do jogo, os seus valores, a sua técnica e com as bases do jogo que me transmitiu depressa compreendi que a criatividade, a adaptação permanente e a velocidade eram as ferramentas decisivas para o sucesso neste desporto colectivo de combate.
Por influência de Serafim Marques - que convenceu os meus pais: “ele devia era jogar no CDUL.” - voltei a Lisboa, matriculei-me na Escola de Belas-Artes e ingressei no CDUL. Aqui lembro com gratidão Serafim Marques - que hoje seria considerado um moderno treinador de skills - e as horas pacientes que gastou comigo para melhorar a minha técnica individual e a quem muito devo da melhoria da minha qualidade de jogador. E pude ainda e a seu convite, comentar jogos do Torneio das Cinco Nações na RTP.
No CDUL tive notáveis companheiros de equipa de que lembro, sempre com a ternura da amizade e a tristeza da sua partida, Bernardo Marques Pinto que me sucedeu como “capitão de equipa”. E lembro também e sempre o eterno Joaquim Pereira de quem, para além de amigo, fui companheiro de equipa, fui posteriormente treinado por ele e, para terminar - o que diz bem da sua longevidade competitiva - como seu treinador na Selecção Nacional. De um ponto de vista competitivo este tempo do CDUL foi notável - 7 campeonatos - e marcou-me para sempre.
A convite de Duarte Leal - por quem tenho enorme gratidão pela amizade, simpatia e permanente disponibilidade - assumi com Olgário Borges e tendo João Ataíde como dirigente e depois de uns cursos em Inglaterra, o cargo de seleccionador/treinador de Juniores. No passo seguinte fui adjunto de Pedro Lynce na Selecção Nacional de Seniores para me tornar, a convite de António Trindade, treinador principal com Vasco Lynce como adjunto e Albano Rodrigues como dirigente. Treinava então a equipa do Grupo Desportivo de Direito por convite do Miguel Ferreira, tempos de que guardo uma particular forma de encarar o rugby e amizades que se criaram para sempre.
Do GDD passei ao Cascais - o Grupo Dramático e Sportivo de Cascais - onde, com Raul Patrício e o fisioterapeuta Manuel Carvalho e graças ao talento, vontade e atitude competitiva dos jogadores que encontrei, foi possível expressar as concepções do jogo de movimento que defendo. Fomos campeões 4 vezes seguidas. Surgiu então um novo convite por parte de Raúl Martins, meu antigo “capitão” da equipa nacional, para voltar a ao cargo de Seleccionador/Treinador Nacional . Com Raúl Patrício, António Coelho, o meu irmão Luís Bessa e a ajuda de Tomaz Morais a formar a equipa de campo e com Francisco Graça Gordo como fisioterapeuta, Mário Ferreira no apoio e Henrique Caleia Rodrigues, António Faím e Armando Fernandes como dirigentes fomos, em Sevens, ao Campeonato do Mundo em 1997 e em XV chegámos até às fases finais de apuramento para o Mundial de 99… onde nos faltou um ensaio mais…
Acabada a missão internacional voltei ao CDUL agora para o treinar e retirar da 2ª divisão onde tinha ingloriamente caído. A ver os jogos aparecia Serafim Marques… e subimos de divisão
Nesta vida marcadamente desportiva vi abrirem-se interessantes caminhos que me possibilitaram enraizar uma visão alargada, sistémica e estratégica sobre este fenómeno único que é o Desporto. A relação com treinadores de outras modalidades permitiu-me a aproximação a outros mundos desportivos e que tiveram na fundação da Confederação de Treinadores o seu ponto alto de confluência. Daí também a minha gratidão ao José Curado, ao António Vasconcelos Raposo, ao Jorge Araújo e a essa notável figura de homem e treinador que foi o Mestre José Teotónio Lima.  E lembro também Eriksson ou Bernardo Resende com quem qualquer meia-hora de conversa valia uma vida de conhecimentos.
Estou grato também a Vasco Lynce e a António Guterres - o nosso Secretário-Geral das Nações Unidas - pelo convite que me fizeram para Coordenador Nacional da Medida Desporto do III Quadro Comunitário de Apoio onde pude desenvolver uma outra minha paixão: a das infraestruturas desportivas.
Como grato estou a Miranda Calha pelo convite para membro do Conselho Superior do Desporto ou também a Laurentino Dias que me convidou para assumir a vice-presidência do Instituto do Desporto de Portugal onde encontrei, na área das Infraestruturas Desportivas, elevado conhecimento construído na aplicação diária de anos a fio de experiência.
E estou ainda grato a José Manuel Constantino que, ao convidar-me para Mandatário da sua Candidatura à presidência do Comité Olímpico de Portugal me abriu as portas do Olimpismo e me proporcionou uma inesgotável fonte de conhecimentos e confronto de ideias na partilha das questões desportivas mais actuais e relevantes. Agradeço ainda ao Carlos Amado da Silva, o Cábé, que me convidou para consultor da Presidência da Federação Portuguesa de Rugby o que, para além de me manter “dentro” da modalidade que gosto, me permitiu uma outra visão da realidade das organizações desportivas.
Não posso deixar ainda de referir quão grato estou ao Prof. Doutor Luis Miguel Cunha pela oportunidade que me proporcionou de reconhecimento pelo Conselho Científico da Faculdade de Motricidade Humana da qualidade de Especialista de Mérito em Gestão de Desporto. 
Hoje, continuando a ser Treinador de Rugby certificado com o Grau III, apoio onde me solicitam e mantenho a qualidade de formador nos diversos cursos de treinadores de rugby que se vão realizando.
Durante estes anos tenho conhecido muitos atletas, treinadores e dirigentes a quem estou grato pelos apoios e desafios que me proporcionaram. Muitos estão aqui hoje e é com profunda gratidão que os saúdo e lhes agradeço.
Mas como inicialmente afirmei, esta atribuição da Medalha Municipal de Mérito Desportivo impõe-me também o sentimento da Responsabilidade. Responsabilidade pelo Desporto que me marca e que pretendo sempre limpo, sem dopings ou truques que o deteriorem ou abastardem os valores que o moldam.
O lema olímpico de Mais Alto, Mais Forte, Mais Rápido, não engana!
O Desporto é competição, superação, resultado! E é por ser isto e não por ser quaisquer outras coisas que o sabor dos interesses do tempo lhe vai colando, que resulta a exigência de ser um campo meritocrático, inclusivo, solidário e com fair-play.  
Porque se não fosse a permanência da procura do objectivo resultado, o Desporto seria como qualquer outro sector, dependente dos preconceitos ou dos interesses e não seria, como afirmou o Presidente Nelson Mandela, “mais poderoso do que os Governos em romper as barreiras raciais.”. 
É pela procura do resultado que o Desporto espalha a meritocracia e ignora o preconceito, é pelo valor do resultado que a solidariedade cresce dentro da equipa - quanto mais coesa, mais forte! - e é pelo valor do resultado que pretendo adversários tão fortes quanto possível. E é ainda pelo valor do resultado que pretendo que as regras do jogo sejam idênticas para todos, que sejam igualmente respeitadas, que o comportamento de todos seja exemplar, garantindo assim que as vitórias não resultem de uma qualquer batota.
É também pelo valor do resultado que o Desporto se alicerça na Ciência, exigindo investigações e desenvolvimento de métodos que possam contribuir para a superação dos conhecimentos actuais e dando assim o seu contributo para o melhor conhecimento do corpo e mente humanos.
A importância social do Desporto é inegável - pela universal linguagem desportiva aproximam-se pessoas e povos de diferentes culturas, origens, línguas ou religiões - e por isso é necessário saber mantê-lo no seu domínio específico, no seu espaço de decência, sem o sujeitar a alterações ou confusões circunstanciais. E o Desporto vivido assim pode ser uma tremenda lição para a sociedade em que vivemos ao ganhar a dimensão ímpar de ter “o poder de mudar o mundo… […] o poder de inspirar.” como também referiu o presidente Mandela.
É esta a responsabilidade que sinto com a atribuição desta Medalha Municipal de Mérito Desportivo: continuar a bater-me pela existência e desenvolvimento de um Desporto que exista por e para aquilo que é destinado enquanto espaço de competição pelo melhor resultado, campo de expressão das virtudes da vida e demonstrativo das possibilidades de vivência solidária.
A todos os que me ajudaram, apoiaram e desafiaram nesta carreira que construí devo esta responsabilidade. A todos estou grato e por eles sinto a responsabilidade.
Muito obrigado pela vossa presença. Um grande abraço."

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ALTERNATIVE FACTS



2009 Obama Inauguration - foto do New York Times (nytimes.com)
2017 Trump Inauguration - foto do New York Times (nytimes.com)
O homem não se veda...


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

SOARES É FIXE!

MASP 1986

sábado, 7 de janeiro de 2017

SOARES É FIXE!


Com o falecimento de Mário Soares (1924-2017) fechou-se um dos ciclos da minha vida. Toda a vida ouvi falar de Mário Soares. Mário Soares preso, deportado para S.Tomé, exilado em França. Mário Soares sempre contra a Ditadura. Mário Soares um Homem de Coragem e Convicções. Mário Soares a voltar de Paris no Comboio da Liberdade (28 de Abril de 1974) e a abrir-nos - com muito mais sabedoria que então lhe teremos atribuído - as portas da Liberdade e Democracia. Mário Soares a bater-se pela descolonização que os suportes do anterior regime, numa visão cega do andamento do Mundo, tudo fizeram, durante anos e anos e á custa de milhares de portugueses e africanos, para impedir. Mário Soares a abrir-nos o caminho da Europa. Mário Soares um Humanista. Mário Soares um homem de visão. Mário Soares que nos dava a confiança de garantir saber traçar uma linha que não admitiria que fosse ultrapassada e que marcava a diferença para a Liberdade.
Mário Soares sempre presente. Mário Soares Republicano, Socialista e Laico. Agora fica-nos a memória de um Homem Notável. A não esquecer!
Varanda do edifício da Sede da Campanha no Saldanha em Lisboa
imediatamente após a divulgação dos resultados eleitorais
Fiz parte, enquanto director executivo da Imagem - a convite e nomeação do Director de Campanha Gomes Mota - do "quartel-general" da campanha do MASP que acabou por o eleger, pela primeira vez, Presidente da República. Tempos notáveis de recordações formidáveis. O "Soares é fixe!" nasceu na sala ao lado - um jovem, Adelino Vaz, entrou e disse: Tenho o slogan! Disse-o e foi uma adesão imediata de quem estava no Gabinete - quando foi transmitido ao Candidato  foi oficialmente aceite com um sorriso discreto de quem sabe o valor das coisas - e a sua máxima expressão esteve num memorável discurso de Pinto Machado num comício na Avenida dos Aliados no Porto. E foram comícios - com o José Nuno Martins a ser a voz de comando e animação da multidão connosco a deixarmos-lhe as notas de frases - com quilómetros de viagem por todo o país ou a procura do Rui Ochoa para que pudessemos publicar a sua fotografia que mostrava a agressão na Marinha Grande. Ou a lembrança da gravação do Rock da Liberdade (letra do António Pedro de Vasconcelos), no estúdio com o Rui Veloso para que tudo saísse bem e rapidamente. Ganhou as eleições, felizmente, num resvés que nos marcou a sorte. 
Na tomada de posse, estando na escadaria da Assembleia da República, vi-o a passar revista às tropas em parada - o passo nem sempre acertava (ou acertava mesmo pouco) com as batidas do "caixa". Disse para o José Lello que estava ao meu lado: Momento histórico: nunca mais vai haver um militar na Presidência da República. 
Depois de eleito foi sempre muito atencioso comigo - chegou a sair das suas posições protocolares para - com espanto de muita gente - me vir cumprimentar. Um dia, no Estádio Nacional e em dia de final da Taça, mandou um agente do seu serviço de segurança ter comigo - que estava na bancada central - para me dizer: "O sr. Presidente pede-lhe para vir comigo para ir ter com ele à Tribuna". Fui e ofereceu-me lugar na Tribuna numa cadeira a seu lado e, quase a sussurrar, disse-me: "Sente-se aqui e vá-me explicando isto que não percebo nada...". E fomos conversando sobre o jogo de futebol...
Tenho boas lembranças de Mário Soares e sou-lhe agradecido pelo que fez por Portugal.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

PREFERENCIAIS


Cartaz nos Postos da Orla Marítima do Rio de Janeiro
Foto iPhone, Agosto 2016

sábado, 31 de dezembro de 2016

OS VELHOS SEM PRIORIDADE

Tenho mais de 65 anos e sou, por muito que tenhamos a mania de achar que é "feio" dizê-lo, velho. Mas não necessáriamente trapo. E sou velho com experiência suficiente para compreender muitas coisas da vida e, pelo menos, saber sobre algumas outras.
Ouvi dizer das prioridades e fui ler: um embuste para nós, os velhos. Porque não chega ser velho, é preciso ser alquebrado quase a não se poder sair de casa para ter prioridade. É preciso ser idoso que, de acordo com a alínea b) do Artigo 3º do Decreto-Lei nº58/2016 de 29 de Agosto de 2016 assim se define: "«Pessoa idosa», a que tenha idade igual ou superior a 65 anos e apresente evidente alteração ou limitação das funções físicas ou mentais".
Explicou a senhora Secretária de Estado para a Inclusão, Ana Sofia Antunes, que:"não basta que a pessoa comprove que tem 65 ou mais anos. Nesse caso, tem que ter uma incapacidade física ou mental visível, portanto, inquestionável ao comum dos cidadãos". Ou leio mal ou não passa de uma redundância para atirar com areia para os nossos olhos para fazer de conta que existem grandes preocupações humanitárias - o decreto-lei das "prioridades" garante a qualquer deficiente físico ou mental a prioridade desejada - embora devendo ser portador de atestado que garanta os 60% de incapacidade como recomenda fonte oficial do ministério responsável. O que significa que os velhos deficientes ou incapazes estão aí incluídos! Então para quê o articulado para os "idosos"? Para óbvia conversa da treta no habitual faz-de-conta de preocupações que verdadeiramente não existem - e nem cito as justificações, por pertencerem ao domínio da estupidez, da referida senhora Secretária de Estado. Como se não bastasse a idade para criar dificuldades em situações de longa permanência em pé... são precisas evidências?! A não ser que se deva agradecer o bónus da evidência por troca com a exigência do papel demonstrativo.
Com esta regulamentação, feita apenas com a preocupação de dar nas vistas - propaganda, diz-se - vamos dar-nos mal e o aumento da conflitualidade nos tempos perdidos das filas de espera parece ser a única garantia que teremos.
Estive no Rio de Janeiro durante os Jogos Olímpicos e fui - agradavelmente - surpreendido por uma norma que considera "preferencial" toda e qualquer pessoa com mais de 60 anos sem mais qualquer outra classificação. Preferenciais no direito a lugar sentado no metro - tem uma carruagem azul onde a prioridade é absoluta ("menino, deixa o senhor sentar!" disse a senhora para um jovem. Que agradecia mas não precisava porque sairia duas estações à frente, respondi. Que não, "que tem que se habituar a respeitar", respondeu e lá me sentei no lugar que o jovem disponibilizou). Também nos postos que têm instalações sanitárias (de uma higiene impecável, diga-se) e que se situam nas praias de quilómetro em quilómetro, os preferenciais podem utilizá-las sem qualquer custo, podendo apenas ser obrigados a demonstrar a sua idade.
Os Jogos Olímpicos são uma experiência única para quem como eu pôde estar presente mas exigiram longas viagens em transportes públicos, longas filas de acesso aos locais das provas a que se somavam, ainda e muitas vezes, longos percursos a pé. Dias inesquecíveis mas cansativos. Mas em todos os locais existiam "vantagens" para os preferenciais - ou transporte motorizado (permitindo um acompanhante) ou filas exclusivas (tive oportunidade de entrar na loja "oficial" dos Jogos em menos de 10 minutos quando nas 4 ou 5 filas normais levaria mais de uma hora). Assim o tempo e o esforço eram reduzidos para todos, espante-se, os que tivessem, sem nenhuma outra classificação, mais de 60 anos. Com natural aceitação por parte de todas as outras pessoas que esperavam a sua vez nas lentas filas.
As regras que agora por cá se impõem têm apenas, para mim e outros velhos como eu, uma vantagem: não me insere no quadro de pessoa idosa - as minhas mazelas não são evidentes - e deixa-me ficar pelo grupo dos velhos. Grupo mais natural e menos politicamente correcto e que não tem que mostrar evidentes alterações.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

UM MUSSOLINI CONTEMPORÂNEO?

Cabeça de Benito Mussolini de Giandante X (1900/1984)
Ganhou Trump e o país mais poderoso do mundo irá ser conduzido por um racista, demagogo, populista, egocêntrico, xenófobo, sexista, protofacista, mentiroso compulsívo e tantas outras coisas mais que fazem dele uma espécie de Mussolini contemporâneo.
Com uma campanha a fazer-se anti-sistema este multimilionário do imobiliário e casinolândia que vive no e do sistema conseguiu convencer os americanos suficientes para garantir o maior número de delegados.
É um facto que Hillary Clinton, não sendo um fenómeno de popularidade, tem ainda contra ela o facto de ser mulher numa sociedade que, segundo um conhecido comediante, é "muito mais sexista que racista... e somos terrivelmente racistas". Como caricaturava Michael Moore "era só o que faltava que depois de um negro viesse uma mulher dar-nos ordens".
É claro que a campanha de Clinton cometeu enormes erros estratégicos, deixando fugir uma vitória que, apesar das condições, esteve ao seu alcance - tanto que parece ir vencer no voto popular. Mas os votos da classe operária - os blue collars - dos estados da cintura industrial do MiddWest (Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin) deixaram-se embalar na demagogia trumpista e foram todos parar ao mesmo saco, garantindo assim que a derrota democrata seria uma evidência - mas havia sinais que foram ignorados e como no futebol, a campanha Clinton ao querer segurar uma vantagem diminuta deu o flanco para acabar por perder. Ignorando que o ataque é a melhor defesa, a estratégia da campanha Clinton encolheu-se e deixou-se andar para permitir - porque não reagiu - a multiplicação da ocupação do espaço pela demagogia, pela mentira e pelo abuso.
Estou com o Libération: deixemo-nos de coisas, é a extrema-direita que está no poder nos Estados Unidos. Basta ver - para além de voltar a ouvir os lapidares conceitos do novo presidente - o que nos espera de um Giuliani que vem de democrata em passos cada vez mais largos para a extrema-direita (o seu comentário de vitória é exemplar), de um filho de que basta ler os twitters ou quejandos para não se ter dúvidas do alinhamento, de um islamofóbico Gingrich a um Bannon que foi director de campanha e que mostrou no site de notícias que era responsável a sua aproximação à extrema-direita levando à demissão de diversos jornalistas. E corre que estes irão ser parte do novo governo...
Como não é estúpido Trump, no pós-vitória, mostra-se cordato, respeitoso, estadista, simpático até. Esperem pela volta. E pelo muro também. 
Os que não têm dúvidas já se manifestaram...
Esta eleição de Trump, tida por inesperada, comporta uma enorme lição dirigida à esquerda.
À americana - os chamados liberais - que passou o tempo todo a presumir, sobranceira no convencimento que a sua auto atribuída superioridade moral seria o garante natural da vitória. De todo o lado - dos grandes centros cosmopolitas e culturalmente inovadores que formam a América de que gostamos - se dizia, fossem quais fossem os problemas, que não era possível que um tipo como Trump ganhasse as eleições presidenciais. Porquê? Porque ninguém vota num tipo destes. Acordaram tarde - afinal não conheciam o país como julgavam, reconhecem o Nobel Krugman e a própria Hillary Clinton. 
À europeia que, pelo andar da carruagem, tem tudo a aprender. Nomeadamente que o seu comportamento tipo direita simpática mascarada com algumas preocupações sociais mas com o deslumbramento conhecido pela alta finança, nunca será suficiente para parar as pretensões da extrema-direita europeia. A partir desta eleição seria bom que a esquerda europeia se olhasse e reflectisse para encontrar as soluções necessárias para os diversos problemas de forma a garantir que da extrema-direita de Le Pen à Austria passando pela Holanda não dará mais folêgo aos já instalados. 
A lição é simples: candidatos como Trump vencem porque a esquerda, não se mostrando capaz de enfrentar o mundo e o sistema para encontrar as soluções que permitam melhorar as condições de vida das populações, deixa em branco o espaço para a escrita demagógica e populista. E depois, não há emendas.

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