quinta-feira, 26 de junho de 2014

BILHETE DE VOLTA

Foi mau, muito mau. E é um dever exigir explicações. Não sobre o remate à trave, ou o falhanço inacreditável só com o guarda-redes pela frente mas sobre tudo o que se passou desde a decisão contratual ás decisões de partida e estada, dos percursos, dos sítios, da escolha de jogadores e mais etc. e etc.

Ou seja: o que parece ressaltar do que vimos é que os erros se estenderam por todos os sectorese departamentos. E se são erros, devem ser reconhecidos para que - numa regra de ouro do Alto Rendimento desportivo - não se repitam; se não foram erros é preciso saber que o não foram e saber então o que foram. Porque alguma coisa foram e ciência não foi.
O jogo de hoje foi, apesar da vitória, um desperdício: por sorte dos deuses - que já nos tinha dado o golo de Varela - o Gana, num repente, percebeu que tinha as malas feitas e nós Selecção de Portugal fomos incapazes de aproveitar a oportunidade, jogando fora, umas atrás das outras, as hipóteses que nos surgiram. Porque, num repente, os deuses tinham girado as rodas para o nosso lado sem que, no relvado, o tivessem percebido ou não aproveitado.
A periferia quando não culturalmente assumida, só se traduz em desfasamentos. Em desacertos com o momento e com o sítio. Principalmente quando se lhe junta a mitologia que nos impôs o silêncio de quarenta anos do orgulhosamente sós. A periferia paga-se caro e a mitologia da supremacia não dá qualquer troco: na realidade sustenta o provincianismo. De que é exemplo o provincianismo da focagem absoluta no "maior jogador do mundo" - como se o futebol não fosse uma modalidade colectiva...
A  questão é esta: temos direito a explicações - se esta visível incapacidade se passa no futebol, a modalidade mais rica de Portugal, o que não será das outras modalidades colectivas desportivas. Se são estes os exemplos que fornece quem mais pode numa demonstração constante de um deserto de ideias disfarçadas em azares e ais duns quases sempre a destempo, que podem fazer os outros? Que exemplos, que conhecimentos, que consequências nos são transmitidas? Que aprendizagem nos é facultada? Que lição nos é garantida?
Explicações, exigem-se! ...
... Ou teremos o direito de entender que houve interesses que, sob a vulgata da incerteza desportiva - o futebol é assim mesmo - vantajosamente se sobrepuseram.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Rui Costa - tri-vencedor da Volta à Suiça

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Foto do site de Rui Costa

Parabéns Rui Costa!
Vale-nos o nosso Campeão Mundial. Venceu pela terceira vez consecutiva a Volta à Suiça - ver a subida dos três últimos quilómetros é impressionante da classe do nosso ciclista - e agora é o terceiro - depois de Contador e Quintana (recente vencedor da Volta à Itália) - do ranking mundial. 
Agora é contar os dias para a Volta à França.


[e o Tiago Machado venceu a Volta à Eslovénia prova do nível da Volta a Portugal]
O ciclismo português está em grande.

DESADEQUADO

Depois dos resultados obtidos a conclusão é evidente: a preparação da equipa portuguesa para o Mundial não foi adequada! E não vale a pena contar estórias e ignorar evidências: cometemos o mesmo erro no Mundial da Coreia e não soubemos aprender nada. Preparamos mal o Mundial!

No desporto - como aliás na vida - é admissível cometer erros - errar é humano, diz-se - o que já não é admissível é repetir o mesmo erro. Que repetimos quer na preparação quer no eterno recuar a dar hipóteses ao adversário.

Joga-se como se treina, treina-se como se joga é o conceito do desporto colectivo que encerra toda uma metodologia que é necessário cumprir para atingir os patamares de sucesso. A evidência do que fizemos transporta-nos para a evidência do erro no uso do método. Estivemos mal, muito mal!

Portugal, a nossa selecção nacional de futebol, não esteve à altura de quem se ficciona num 4º lugar de um ranking FIFA sem sentido. Nem das expectativas que nos foram criando num constante atirar poeira para os nossos olhos. Foi muito mau! Mau por parte dos dirigentes, mau por parte da equipa técnica, mau por parte dos jogadores.

A responsabilidade desta negativa participação pertence por inteiro aos dirigentes, à equipa técnica e aos jogadores. Importam-se de fazer as alterações necessárias?

segunda-feira, 16 de junho de 2014

NÃO É ACEITÁVEL

No desporto exige-se a humildade necessária para que nos seja possível tirar o máximo partido das capacidades que temos; a vaidade e o convencimento retiram-nos capacidade de análise, de execução e de clarividência para impedir que entendamos que o erro, para além de costas largas, termina sempre na culpa do árbitro.
O banco português desde cedo focou no árbitro os erros evidentes da disponibilidade física e psíquica dos jogadores portugueses de que o atraso desmesurado para o guarda-redes foi o prenúncio de um cartão vermelho - encostar a cabeça, coloque ou não em perigo a integridade física do adversário é um acto inadmissível, anti-ético, num campo desportivo - e do golo onde a superioridade numérica portuguesa de jogadores "em jogo" era evidente.
Palavras leva-as o vento, cartas de amor são papéis, escreveu o poeta que provavelmente nada sabia de futebol ou de campeonatos do mundo mas que alerta para a conversa da treta em que e ao que parece, nos tornamos especialistas: estamos aqui para ganhar! a nossa selecção é a maior! tragam-nos a Taça! Como se o apuramento ou alguns dos jogos de preparação não nos mostrassem o contrário e onde só um ranking feito de forma canhestra ajuda à mentira (quem é 4º do ranking mundial não joga assim!).
[a Alemanha jogou contra um sol violento que o horário tornou muito mais difícil para o guarda-redes. Nem partido dessa vantagem se viu jeitos...]

Quatro-zero não é resultado aceitável para uma equipa que a comunidade futebolística nacional considera como das melhores mundiais.
Como se sai daqui? Sabendo que a derrota ensina, só há uma maneira possível: a honestidade de um acto de contrição colectivo - de jogadores, responsáveis técnicos e dirigentes - que possa recolocar a focagem de cada um e de todos numa diferente atitude e forma de encarar um jogo internacional, colocando na entrega, na velocidade, na entreajuda, na vitória, as questões essenciais em cada momento daqueles que se encontram em campo.
Certo é que ou os jogadores portugueses mudam radicalmente de atitude e garantem uma postura adequada a uma presença num campo desportivo onde a capacidade de luta, de resiliência e de sofrimento fazem os vencedores - sem sangue, suor e lágrimas não há vitórias! - ou a nossa passagem pelo Mundial do Brasil ficará, de novo e negativamente, na história futebolística nacional.
E o pior que podemos fazer é a eterna desculpa dos fracos e medíocres: pôr na arbitragem as desculpas do descalabro que apenas a nós pertence - jogamos muito pouco, fomos completamente ineficazes e sem qualquer tipo de consistência colectiva.
Dar a obrigatória volta depende apenas da nossa coragem e honestidade competitivas. E o primeiro passo da mudança será não aceitar nem mascarar o que se passou no jogo. 

domingo, 1 de junho de 2014

As Meninas da Luz


Colégio Militar, 28 de Maio 2014 - a partir de foto de Silva Alves

O Colégio Militar de género misto está, num sinal dos tempos - o género feminino já conquistou nas sociedades ocidentais os direitos de acesso a todas as áreas de actividade - a que só desatentos ao mundo que nos envolve podem colocar estranheza, a tornar-se uma realidade. 

As raparigas que, actualmente e na sua enorme maioria, entraram por primeira escolha para o Colégio Militar, mostram-se satisfeitas e dizem até que querem o estatuto de "internas" porque "é mais divertido!"

Mas nem tudo são rosas. Devido às péssimas decisões do Ministério de Defesa - num despautério incompetente, desproporcionado e temporalmente errado - as "Meninas da Luz" não estão nas melhores condições podendo até falar-se de segregação em aspectos que dizem respeito a espaços e acções de lazer ou fardamentos, por exemplo. 

Com um início pouco brilhante e onde a Igualdade de Género ou a Igualdade de Oportunidades - valores essenciais desta nova faceta - não parecem estar devidamente acauteladas por responsabilidade das acções, repete-se, do Ministério da Defesa, espera-se que os responsáveis da Direcção colegial, da Associação de Pais e da Associação de Antigos Alunos consigam impôr as necessárias rectificações que evitem a realidade do ditado de "o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita".

E esta mudança para o estatuto misto - ao contrário do que pretende o Ministério da Defesa - nada obriga ao desaparecimento do secular Instituto de Odivelas. Uma coisa nada tem a ver com a outra. A não ser a comando de interesses.

sábado, 31 de maio de 2014

Janelas discretas


Foto iPhone, Stº António, Lisboa

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Fugir com o rabo à seringa

Já nem sei porque me admiro.
O senhor ministro Marques Guedes chegou ao Estádio de Honra do Complexo Desportivo Nacional do Jamor e, sobre os graves incidentes da final da recente Taça de Portugal, disse sem qualquer pudor que eram resultado de "alguma percepção errada  por parte de pessoas que queriam entrar que pensavam que o acesso para o topo norte só se poderia dar nos torniquetes deste canto da praça da Maratona quando não é verdade [...]". 
Percepção errada?! Não era verdade?!
Claro: a culpa dos maus momentos passados pelas pessoas, não é da organização incompetente ou da incapacidade policial. A culpa, segundo o senhor ministro, é da percepção errada. De quem? Das pessoas, pois claro! 
O que, isto sim, não é verdade! As pessoas limitaram-se, civilizadamente, a cumprir com as instruções combinadas do que liam impresso nos seus bilhetes e aquilo que viam nas indicações colocadas expressamente para o jogo na Praça da Maratona. 
Senhor ministro, não é decente sacudir a água do capote para disfarçar a irresponsabilidade e incompetência demonstradas. Não é bonito, nem sério.
Popularmente a sua actuação de hoje só tem um nome: fugir com o rabo à seringa!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Governo perdeu e o PS ganhou

Os dois partidos do Governo - somados um com o outro - e que têm propagandeado uma excelente governação tiveram menos votos do que o Partido Socialista. Ou seja, apesar de uma propaganda viciada e constante sobre a extraordinária governação que levou à saída (!) da troika e a mais esta e aquela vantagem e à maravilha disto e daquilo, a coligação dos partidos do Governo empenhada com a presença do Primeiro e do Segundo, perdeu. E o PS ganhou. Se isto não é uma derrota, numa eleição resultante do contexto do poder que dizem apoiado pelos portugueses, então o que é uma derrota? 
A máquina de propaganda aí está: não é uma derrota significativa porque ficamos próximos do PS, dizem. E os comentadores de serviço aí estão a corresponder: a derrota é de quem ganhou.
Mas a realidade dos factos é esta: a aliança governamental - apesar de toda a máquina de propaganda que utiliza, acrescento - não conseguiu convencer os portugueses da bondade da sua política. A coligação - os dois somados - teve menos (-27,7%) de votos  do que o PSD teve, sózinho, em 2009. E, por isso, perdeu! Perdeu uma brutalidade e não ganhou qualquer credibilidade para a sua política. O resto são estórias...
O Governo perdeu as eleições e o PS ganhou as eleições.
Ao Governo - com vista às legislativas - não lhe resta mais do que tirar truques da cartola para convencer os portugueses de que lhes melhora a vida enquanto que o PS ficará com a responsabilidade de convencer os portugueses de que tem a capacidade de mudar, melhorando, a sua vida e assim congregar essa enorme maioria de eleitores que - votando branco ou nulo ou se abstendo - mostraram não querer este Governo. E do resultado destas estratégias o futuro dirá. Mas o Governo perdeu e o PS ganhou.
É assim: o Governo de Passos Coelho perdeu as eleições por um resultado nada abonatório para a sua política. Ponto!

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Ir ao futebol para ver a Marta e...

... ver cumprir a velha ideia de Gary Lineker: futebol são onze de cada lado e no fim ganha a Alemanha. No caso - a UEFA Women's Champions League 2014 - ganharam, por 4-3 depois de estarem a perder por 2-0, as alemãs do VfL Wolfsburg ao venceram as "suecas" do Tyresö FF que tem a Marta - considerada pela FIFA a melhor jogadora do Mundo de 2006 a 2010 - na sua equipa. E vê-la continua a ser um prazer pelo toque e trato da bola, pela finta, pela subtileza da percepção táctica do jogo. E brindou-nos com dois golos sendo o último deles um tratado de bola: entrada pelo lado esquerdo da grande-área, flexão para o meio e remate - de pé direito! - a descrever um arco para entrar no ângulo oposto da baliza. Uma beleza técnica, um tratado! Uma inteligência táctica na procura do poste mais longe.


Mas depois a consistência alemã tomou conta do relvado e o oxigénio começou a subir mais devagar tornando os erros suecos numa permanência. O costume, já se vê.
Mas foi um óptimo jogo de futebol, com muita lealdade e muita geometria - uma vantagem que parece ter o futebol feminino sobre o actual masculino com excepção do Barcelona dos grandes momentos. E o ambiente do Restelo foi suficientemente caloroso.
E é claro que as entradas e o acesso aos lugares se fizeram no pólo oposto da final da Taça de domingo passado: tranquilamente e sem quaisquer receios. Como é mais agradável e mais seguro.
O problema foi no final do jogo: no que julgo ter sido uma simpatia da UEFA, após o jogo iniciou-se um concerto - ao que suponho a entrada terá passado a ser livre - que permitiu (e pediu!) que as pessoas fossem, atravessando a pista de atletismo - cujos problemas de construção e manutenção conheci bem - para o relvado. Relvado que pareceu em bom estado durante o jogo.
E uma de duas: ou o relvado já estava programado para ser substituído e pouca importa o que lhe possa acontecer provocado pelo amontoado de pessoas e a pista, que não teve quaisquer defesas para ser atravessada por milhares de pessoas - sujeita a diversas agressões nomeadamente ao punçonamento dos saltos dos sapatos de senhoras - já não tem qualquer qualidade para o treino e provas de atletismo ou, tudo isto, não é mais do que um puro desperdício.
E o desperdício incomoda-me. Principalmente porque a tendência para o resolver passa, como sempre, pelos dinheiros públicos, isto é, pelo dinheiro dos nossos impostos, descontos e similares.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Ir ao futebol para sermos tratados como bichos

Sempre e inevitavelmente cada um de nós subestima o 
número de indivíduos estúpidos em circulação.   
As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Carlo Cipolla

Já há muito que percebi que os estádios de futebol - e nem sempre o foram - são, hoje em dia - nos seus privilégios e abusos - uma expressão do dualismo social  que nos atravessa: de um lado os senhores que, na protecção dos seus carros, entram, longe de tudo e de todos e sem cruzamentos com a plebe, pelas cavernas do estacionamento para, subindo nos elevadores, chegarem aos casulos onde se albergam e onde comem e bebem - álcool incluído -  e onde terão a visão da apoiante massa popular apenas nas bancadas do outro lado do campo; desse outro lado, os que fazem do futebol um espectáculo de massas que permite o êxito do negócio mas que se encontram sujeitos a todas e mais umas regras de controlo e revistas, são tratados como vassalos sem direitos, apertados em espaços de atropelo uns aos outros, empurrados daqui, empurrados dali num sufoco permanente até que, num derradeiro esforço de uma pequena passagem, sejam expelidos para a vista do relvado. 

Ambos, nas aparências pelo menos, comungando do mesmo fervor clubista. Como se fossem iguais. Como se tivessem o mesmo tratamento. Como se o facto de apoiarem o mesmo clube derrubasse as barreiras que lhes impuseram à chegada - e que parece ter no golo a sua expressão igualitária máxima.

No domingo fui ao Jamor - para ver a minha neta dançar e o Benfica a jogar. À chegada, de antecedência por via das coisas, uma enorme multidão de camisolas vermelhas a ocupar a entrada da praça da Maratona por onde o meu bilhete dizia dever entrar. A minha mulher e eu entramos no amontoado, andando centímetro a centímetro, aos encontrões, apertos e pisões, empurrados e levados na mole humana que tinha no ver o início do jogo o objectivo maior. E embora a multidão se comportasse bem e tentasse movimentar-se com civilidade, o ambiente não era nem agradável, nem cómodo. Pior, era assustador se se pensasse nas consequências que daí poderiam resultar caso houvesse qualquer pânico. Desistimos e voltamos para trás - não sem grandes dificuldades - na secreta esperança que alguém responsável solucionasse as entradas.

Já fui a muitas centenas de jogos de futebol em variados estádios no país e no estrangeiro. Já vi muitas organizações de entradas para estádios e também já participei na sua organização. Já estive dos dois lados em diversas ocasiões: do lado dos senhores de acesso fácil ou do lado dos populares em penosos caminhos de diferentes estádios e diferentes países. Já levei filhos de outros aos ombros e já entrei de carro até porta.

Sei portanto o suficiente destas coisas para poder dizer que o que se passou no Jamor é o somatório de incompetência e de total falta de respeito pelos cidadãos-espectadores. Quer dos organizadores que se mostraram incapazes de perceber os problemas para encontrar as soluções, quer da polícia que igualmente se mostrou incapaz de encontrar soluções eficazes. Foi infame! E é perturbador.

Sendo um estádio antigo - inaugurado em 1944 - o Estádio de Honra do Jamor exige uma organização adaptada para um espaço que tendo poucas entradas tem a vantagem de um largo corredor na base das bancadas que permite a distribuição dos espectadores para todos os sectores. E que exige, do lado da Maratona, uma organização de corredores iniciada a boa distância dos pontos de paragem para revistas e para a verificação electrónica de bilhetes.


A Maratona e os sectores servidos pelas suas portas (verso do bilhete)

Bastava olhar as costas dos bilhetes de ingresso para ver que o problema iria surgir: a entrada norte da Maratona servia 20 sectores enquanto que a entrada sul da mesma Maratona servia apenas 8 sectores. O que significa, sem necessidade de especial análise, uma entrada desproporcionada de pessoas por um e outro lado. Facilmente previsível, facilmente programável e emendável e, portanto, evidenciando falha grave da organização montada pela Federação Portuguesa de Futebol.

Como se esta incompetência não bastasse, juntou-se a incapacidade da chefia da Polícia que pretendeu justificar o péssimo ambiente criado e o mau serviço prestado com um corporativo "as pessoas têm de ter consciência de que têm de chegar cedo aos estádios de futebol em geral”. Não, não têm que ter essa consciência coisissima nenhuma! Tendo comprado bilhetes para um espectáculo com hora marcada, as pessoas devem chegar às horas que melhor entenderem e com pleno direito de entrada cómoda e segura num horário razoável de dispêndio de tempo aceitável. Com o respeito como princípio base, compete á Polícia encontrar soluções que garantam a sua segurança - de todos sem excepção - e zelar pela sua comodidade. 

E as soluções estavam lá: bastava utilizar parte da força que tanto fizeram para impedir o avanço das pessoas e, numa forma construtiva e avisando da vantagem, levá-las para a porta sul da Maratona onde não havia ninguém - foi por lá, logo que descobri a hipótese, que entrei - para utilizar depois o corredor interior de distribuição. Solução que se encontraria se o propósito da acção fosse respeitar os espectadores e não o fazer-lhes frente. Em vez disso, o responsável policial, numa forma distorcida do seu papel cívico, culpabiliza os espectadores, razão principal para haver bilhetes, bancadas e espectáculo. E multidões. 

E de que valeu este mal-estar? De coisa nenhuma! A dado momento tudo entrou sem qualquer revista ou verificação de bilhetes. Ao meu lado a conversa "eu não te dizia que não era preciso comprar bilhete, já no ano passado foi assim..." provava o disparate.

Esta falta de respeito pelos espectadores portadores de ingressos não é admissível, não é desculpável e exige a chamada à responsabilidade por quem de direito. Em defesa dos direitos de cidadania e para que o futebol seja um espaço civilizado de divertimento.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Martim Moniz, Uma Praça de Lisboa

Há dias participei com a Daniela Ermano no colóquio Conversas da Mouraria organizado pelo Grupo Amigos de Lisboa. Tinham-nos pedido que fizessemos uma intervenção sobre o projecto que ambos realizaramos para a Praça Martim Moniz. Resolvi ler o texto - abaixo reproduzido - que escrevera para o Congresso Mundial da Federação Internacional para a Habitação, Urbanismo e Ordenamento do Território em 1998.
Antes e naturalmente passei na Praça e fiquei chocado com o que vi de "montagens" que por lá se fizeram sem qualquer nexo ou respeito pela geometria do desenho projectado - mudanças existem sempre e, se feitas com o respeito devido ao espaço definido pela geometria do lugar, podem tornar-se - no que não é obviamente o caso - num valor acrescentado. Isto sem falar na pecha de já longa duração que é a falta de manutenção, a falta de alimentação das árvores que seria suposto criarem uma esplendorosa barreira visual em cortinas densas e luxuriantes ou a falta da água que jorra sabe-se lá quando corre - a "fonte da estrela" está preparada para "dar as horas". Enfim, uma tristeza!
O texto lido aqui fica:

MARTIM MONIZ, UMA PRAÇA DE LISBOA
Em tempos, foi um esteiro do Tejo por onde terá chegado, guiada por dois corvos, a barca com as relíquias do mártir São Vicente, hoje padroeiro e simbolo de Lisboa. Nos terrenos drenados ao tempo manuelino. foi aí, no inicio do sec.XVI. construida por temor da peste, da fome e da guerra, a igreja de S. Sebastião da Mouraria que, em 1561, mudaria para o actual nome de Nossa Senhora da Saúde. Em 1646, nascia com a igreja do Socorro, a freguesia do mesmo nome.
Séculos antes por aí passou o troço da muralha fernandina que ligava a colina do Castelo à de Sant'ana, definindo o limite da cidade de que resta a memória de um cubelo ao cima da escadaria do Jogo da Péla, e de que se pode perceber a localização cartografada pelo correr da rua denominada. a partir de 1915, de Martim Moniz.
Nos anos quarenta deste século e como resultado da abertura. em 1903 e na sequência da já tradicional ligação entre a cidade e os seus arrabaldes, da Avenida D. Amélia - hoje Almirante Reis - iniciou-se, embora com algum propósito de bons costumes, um processo de demolição em larga escala justificado na necessidade de articular este eixo estruturante de desenvolvimento urbano com a Baixa Pombalina. A igreja do Socorro, o Teatro Apolo e o palácio do Marquês de Alegrete - este já muito deteriorado pelo terramoto de 1755 - foram alguns dos edificios notáveis demolidos.
Ao mesmo tempo que o espaço livre aumentava, o nome de Martim Moniz alargava a sua esfera de influência. A ponto mesmo da Câmara, que nada fizera para oficializar esta dimensão do desejo popular, referir em reunião de 15 de Novembro de 1946, o Largo de Martim Moniz.
De então para cá, não faltaram tentativas de solução sobre o espaço assim vazio. Da memória de sempre ficaram a Igreja da Saúde, as encostas envolventes e a visão tutelar do castelo. Dos diversos planos tentados - o último nos anos 80 - fica a memória visivel dos edifícios dos centros comerciais e a pedonalização da rua da Mouraria.
Foi sobre este espaço vazio. sobre este espaço residual de encontro de tecidos urbanos de várias procedências, de diversas formas ou lógicas de utilização, de transformação e de apropriação que nos foi dado intervir: a nascente, a Mouraria originária de uma ocupação medieva extra-muros; a poente, o traço pré-pombalino da colina de Sant'ana; a sul, a racionalidade da Baixa Pombalina; a norte, a avenida Almirante Reis, contraponto pobre ao boulevard da Avenida da Liberdade.
A vista do castelo, o nome mitológico do guerreiro, a visão romântica da tomada de Lisboa, a imagem das margens do esteiro transformadas em campo de lutas atravessado por cavaleiros de armadura e lança, a conquísta, os mouros, as muralhas com a suas passagens, arcos e postigos de acesso, os nomes de João Peculiar, de Pedro Pitões, Fernão Cativo, Paio Delgado ou Pedro Plágio que, à volta do Conquistador, se juntavam ao nome mitológico do guerreiro mártir, formam o imaginário medieval popular traduzindo o espirito do lugar onde, nós projectistas, nos iremos mover.
Em termos de desenho urbano e partindo da necessidade programática de criar um novo parque central de estacionamento, três novos problemas a resolver: a articulação do desenho da praça com o eixo da avenida Almirante Reis, a integração visual dos edifícios recentemente construídos e a defesa acolhedora - fisica e visual - do espaço-ilha rodeado de vias de tráfego intenso.
Impondo-se o valor de uso ao valor de troca subjacente a planos anteriores, surge como objectivo prioritário a criação de um espaço de paragem, de encontro, de estar, de relação e lazer suficientemente protegido e enfático da memória do sitio e do espirito do lugar.
Decidimos assim, dividir a praça em três zonas:
a) na 1ª, tendo como preocupação articular os eixos da nova praça com a avenida e estabelecer uma relação integradora na envolvente urbana;
b) na 2ª, procurando através de um comércio especial e de qualidade. atrair as pessoas ao seu interior;
c) na 3ª. criando um clima lúdico que possibilite tempos dinâmicos de distracção.
Para resolver os problemas criados pela intensidade do tráfego e enquanto cortina de salvaguarda visual e articulação com a escala envolvente dos edifícios mais modernos, decidimos rodear a praça de revestimento arbóreo denso e elevado.
Quem chega pela Almirante Reis ao Martim Moniz. encontra um primeiro espaço de paragem numa estrela, numa rosa dos ventos, que constitui uma placa giratória capaz de inflectir um eixo e, na leveza dos seus jogos de água, relacionar e articular a escala urbana com a redução necessária ao conforto de quem passeia.
Na parte central. criando a atracção necessária para a frequência de uma população exterior às zonas envolventes e para o entretenimento dos utentes habituais, um conjunto de quiosques destinados à venda de artesanato qualificado desenha pequenos pátios a que as laranjeiras darão a sombra para um tempo de espera a que os bancos convidam.
A água lançada dos repuxos de um caneiro central que acentua a simetria do espaço, trará, nos quentes fins-de-tarde de verão, uma frescura convidativa ao sabor de quem está. dos grupos, das conversas ou da solidão procurada para leitura de um livro ou de um jornal. A envolvente de árvores e arbustos dará - logo que o seu tempo de crescimento se adapte á dimensão esperada - o conforto, a protecção e a intimidade que este espaço-ilha necessita para se autonomizar.
Logo a seguir, três degraus para entrar num espaço que aborda, com ironia, a mitologia histórica das proximidades do sítio. Um muro-muralha, vaga impressão fernandina e onde guerreiros - de bandeiras colocadas ao alto e engalanados de românticas plumas ao vento - parecem perfilados na perenidade da recordação de conquistadores, dá o tom à plasticidade de uma outra praça.
Uma porta entreaberta - marcando a direcção das lescadarias das encostas opostas - um machado enorme jorrando das suas marcações um labirinto de águas de que a miudagem foge e, pelo sim, pelo não, guardiões - companheiros de Osberno? eventualmente templários - tomando conta, não vá o diabo tecê-las!, das passagens-pontes sobre a água borbulhenta de mistérios insondáveis.
Lá ao fundo, no limite que obriga ao retorno, restos marcantes da cultura vencida que, por tantos anos quantos os que chegam atá hoje. continua a jorrar marcando a vida e os passos do ser português. A esta cultura dum sul tão próximo juntam-se pequenas influências das sete partidas do mundo que demandamos em quinhentos.
É assim: uma praça espaço de paragem, de lazer, feita de percursos com lembranças à frescura das árvores e do correr da água. Um espaço de divertimento.
João Paulo Bessa, arq.º
      texto escrito para o 44º Congresso Mundial da FIHOUT
 (Federação Internacional para a Habitação, Urbanismo e Ordenamento do Território)
Lisboa, 13 a 17 de Setembro de 1998

Autoria do Projecto:
Daniela Ermano, arquitecta
João Paulo Bessa, arquitecto
Gonçalo Ribeiro Teles, arquitecto paisagista


quarta-feira, 7 de maio de 2014

A contente demagogia

Vi, no programa televisivo Prós & Contras, o senhor Ministro da Economia. Fiquei pasmado! O que vejo ou leio nada tem a ver com o País das Maravilhas que nos impingiu no rectângulo mágico. Tudo a caminho do fenomenal, do extraordinário, numa demagogia de apresentação de números de positivas aparências, num total desrespeito pelos inúmeros portugueses que não têm emprego, que viram as suas vidas a andar para trás ou que tiveram de novo que emigrar como o fizeram aos milhares nos anos sessenta. Num contentamento desbragadamente inconsciente. Quer dizer: tudo às mil maravilhas na visão de quem passa olímpicamente - porque a carne lhes aparece sempre no prato - sobre a crise, com o desplante ainda de se verem altamente patriotas porque - imagine-se - abandonaram vantagens para servir a Pátria. Um despudor! Uma lata desmedida, uma cegueira pesporrente. Uma vaidade imbecil, a que se juntarão as palmas dos estrangeiros de serviço...
Todo o país está melhor e a caminho do céu, dizem. E a pergunta a fazer irrita-me na pacatez dos distraídos: á custa de quê? à custa de quem? De que fome, de que medo, de que instabilidade, de que fugas? De que futuro? De que desespero?
E é um dar vivas a isto e áquilo, num vivó frenético como se tivessem decidido, em escolha responsável, fazer o que, em quarenta-e-cinco-graus-e-arrecuas, aceitaram imposto. Como se os amigos a quem servem tivessem, alguma vez, sugerido mais do que uma porta aberta. Ou se tivessem esquecido de dar ordens. Escolhemos a saída limpa! Façam-me um favor, sejam decentes.
Valeu, neste despejar da sebenta da cadeira, que o representante do Partido Socialista foi capaz - fico satisfeito por isso - de desmascarar as gloriosas obras, os notáveis indicadores, dos novos salvadores da Pátria, reduzindo-as à dimensão de péssima governação.
E o constitucionalista presente tem toda a razão: o que fizeram, o que o governo nos preparou, não passa de levar um enxerto de porrada mais ligeiro do que o último - estão a ver? foi melhor. Mas é enxerto de porrada à mesma!

sábado, 3 de maio de 2014

Trocatintismo

Trocar as tintas já não é um erro imperdoável - é apenas uma forma de ser

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Uma só solução

Anos da nossa esperança

O senhor primeiro-ministro parece não ter qualquer senso. Encantado consigo próprio, satisfaz-se com as palmadinhas nas costas do inner circle e com o sorrizinho cúmplice dos que o amanteigam: Arrasou-os! Ficam sem resposta! Muito bem!
Diz-se que o Poder corrompe. É provável. E será mesmo certo se falarmos de corrupção da inteligência, do auto-respeito, da própria decência. Parece que o Poder consegue criar uma armadura que isola os senhorecos do mundo que os rodeia - e que aquilo que são princípios, valores, respeito ou decência perderam-se no deslumbre sem que isso lhes bata na consciência.
Não merecem respeito, é o que é. Mentem quando querem, abusam quando lhes apetece, decidem como lhes interessa e miram-se no espelho mágico que o Poder lhes proporciona com o ar néscio de meninos embevecidos. Deliciados.
O aumento do IVA não é aumento de impostos como dois mais dois não serão quatro. E por mais que nos pasme a pobre e impossível explicação, os senhores do Poder, pendurados no sorriso dentrífico da propaganda que os move, nem se atrapalham. 
O Poder fá-los perder a cabeça? O Poder retira-lhes a capacidade de controlo e responsabilidade que a cidadania exige?
A última estória que tive conhecimento enquadra-se neste ambiente frenético e abusador.
Do Ministério da Defesa terão telefonado para o Instituto de Odivelas exigindo a recolha das fardas das raparigas para que não pudessem sair fardadas no último fim-de-semana e assim não se notar a sua participação nas manifestações do 25 de Abril. Não teve sorte o senhor ministro: as fardas não puderam ser recolhidas porque, responderam, são propriedade dos familiares das alunas e assim e graças à coragem da oposição, todos pudemos reconhecer as Meninas de Odivelas no 25 de Abril, nas chaimites, no Terreiro do Paço. 
Seria ridícula a imposição se não se tratasse de um claro abuso de Poder. Que deveria ser penalizado! O senhor ministro vai demitir-se? 
O senhor primeiro-ministro que nos trata, no diz uma coisa hoje e outra amanhã, como tontos, ignorantes e não merecedores de respeito, vai demitir-se?
O Governo que se entretem a fazer o que entende sem respeito pelos portugueses, vai demitir-se?
Dados os interesses em causa, temo bem que não.
Resta um solução: apeá-los!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Quanto mais...


Sabedoria popular, desenho em papel

terça-feira, 1 de abril de 2014

1 de Abril


desenho em iPad

segunda-feira, 31 de março de 2014

A luz ao fundo do túnel

Desenho em iPad

sexta-feira, 21 de março de 2014

Vão durar muito?



Depois de ter ido, chega e diz: estou a caminho da sabedoria. Óptimo caminho da sabedoria este, depois de ter deixado famílias à míngua e ter partido para outra casa a garantir que os dias do mês são muito mais pequenos do que o salário internacional que recebe. E não satisfeito cita um americano para dizer que tudo vai continuar como dantes porque "é mais fácil fazer do que desfazer" (cito de cor). Claro que é assim senhor ex-ministro, mas por razões contrárias às boas intensões que o senhor pretende que transporta. É, aliás, por saber isso, porque a corporação dos interesses não deixa mudar o que decidiram impor a favor dos interesses do comando financeiro mundial, é que o actual Governo decide às escondidas. E nós cada vez piores... Embora outra luminária venha dizer que piores sim, mas que Portugal está melhor...
Mesmo quando o pretencioso do senhor PM - do qual não se conhece qualquer produção intelectual relevante - entende tratar os autores do Manifesto como "aquela gente" a que se juntou mais uma data de gente intelectual e culturalmente capazes a dizer que o caminho que seguem estes bandos neo-liberais não tem saída, que é errada a solução, digo eu, dos defensores dos interesses instalados da venda a retalho e da diminuição - para óbvia submissão - da qualidade de vida a que se junta o brutal desaparecimento do rendimento descricionário da classe média atirada para o canto das coisas sem utilidade.
E pior ainda, é que os temos de aturar com aquele insuportável ar grave de bem falantes convencidos.
E vamos ter que os aturar durante muito mais tempo?

quinta-feira, 13 de março de 2014

D. José Policarpo (1936/2014)

Conheci D. José Policarpo em Roma em salas e corredores de espaços do Vaticano quando lá fui para a mudança de posição do túmulo de João XXI, o nosso Pedro Hispano, na Catedral de Viterbo em Março de 2000. Numa das conversas de corredor e a propósito do livro comemorativo pelo qual eu tinha sido responsável, disse-me: olhe que eu não sou dom, você cometeu um erro. Ainda não sou o Patriarca de Lisboa. Que não é erro, disse-lhe eu, não é, mas vai ser dentro de dias e é como se já fosse. Sim, mas não devia pôr dom... Com a continuação da conversa fiquei logo com a ideia que estava perdoado.
Participamos em boas, grandes e interessantes conversas que prolongavam - com as devidas interrupções pela sua necessidade de fumar um cigarro - as refeições, sempre rodeados por batinas debroadas com diferentes cores de filetes de altos dignatários eclesiásticos.
Encontramo-nos uma e outra vez em cerimónias públicas. A última vez na Sé, ele para uma cerimónia e eu para uma nova visita.
Sempre o vi como pessoa culta, tolerante e atento ao mundo. Boa pessoa. Foi bom tê-lo conhecido. 

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