quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Evocação do Vasco Massapina

Foto de Silva Alves
Organizada pela Família e com o apoio da Ordem dos Arquitectos realizou-se na sua Sede dos Banhos de S.Paulo uma Sessão Evocativa do Vasco Massapina (1947-2012). Numa sessão muito participada - Auditório Nuno Teotónio Pereira cheio de Amigos, Arquitectos e Ex-alunos do Colégio Militar - intervieram o Presidente da Ordem dos Arquitectos, João Santa-Rita, Elísio Summavielle, Fernando Pinto, Helena Souto, João Soares, Luis Carvalho, Luis Pedro Cerqueira, Pedro Guimarães, Pedro Vaz - em representação da família - Rui Rasquilho e eu próprio.
Coube-me nesta evocação, o nosso tempo comum com início em 1957 no Colégio Militar. Este foi o meu texto:

Exmas Senhoras e Senhores. Amigos do Vasco
A memória tem uma enorme vantagem: enquanto existe não deixa esquecer. E nós, camaradas do 209 de 1957, colegas do arquitecto Vasco Massapina, amigos do Vasco, não o esqueceremos. Generoso, amigo do seu amigo, diligente, inteligente, culto e disponível temo-lo hoje, como o teremos amanhã, na nossa memória. Com saudade feita de longa amizade.
Conhecemo-nos já vão 57 anos e dez dias...
... nesta camarata da 1ª Companhia onde, no dia da entrada, fazíamos a cama pela primeira vez. Separavam-nos duas, três camas; ficámos na mesma turma. 
Começava assim o ano de "Ratas" numa vida de fardas, de formaturas, de paradas militares. De continências.
Iniciávamos então a construção de uma marca indelével de uma forma de ser, de uma forma de encarar a vida, de uma forma de estar no mundo. De uma solidariedade chamada camaradagem assente em valores tão claros como simples: não deixar ninguém para trás, nunca ser canalha, respeitar os valores da honra, da dignidade e da decência. Olharmo-nos de frente e assumirmos as nossas responsabilidades.
O Vasco sempre gostou de cumprir. E fazia-o de forma inteligente e imaginativa: por "ordem de serviço" éramos obrigados a escrever todas as quartas-feiras para a família. Uma chumbada, uma dor de cabeça na invenção do nada para dizer. Excepto para o Vasco: nas cartas que escrevia relatava os nossos jogos de futebol do campeonato inter-turmas para terminar a missão com um definitivo não tenho mais nada para contar. 
O Vasco gostava de se fardar bem, de aparecer de botas altas de equitação. Sempre impecavelmente alinhado - o Martiniano Gonçalves lembra que gostava de lhe cravar cigarros porque eram os únicos que saíam direitos dos bolsos - tinha uma postura permanente de elegância. Que lhe ficou para a vida.
No Desporto que o Colégio tornava obrigatório: a esgrima, o tiro, a equitação, a ginástica, o atletismo - levando-nos à prática do Pentatlo Moderno de que não conhecíamos existência, o Vasco, como tantos de nós, ainda fazia questão de pertencer às equipas representativas colegiais que disputavam os campeonatos da salazarista Mocidade Portuguesa.
Também gostava muito de cavalos e embora - por evidente estupidez nas prioridades do então responsável - não tenha feito parte da Escolta a Cavalo colegial, montava bem e tinha artes - como mais ninguém, aliás - de conseguir, nas diversas vezes que qualquer castigo o proibia de saída ao fim-de-semana,  o direito a um "cavalo de serviço". E então, com o Francisco Cardoso de Menezes a cronometrar, fazia da pista de atletismo o hipódromo de todos os sonhos.
De mais aulas, de menos aulas, mais formaturas e mais paradas, borgas e desatinos, chegámos ao fim do curso marcado pelo Baile dos Finalistas. Aos próximos avisou: deixem-se de palermices, nada de parvoíces, hoje vem cá a Isabel!
Gostava de fardas o Vasco, pensou em ir para a Marinha - farda azul no inverno, farda branca no verão - mas a Isabel, a caminho das Belas-Artes, levou-o, pelo amor de uma vida e para sorte nossa, a preferir Arquitectura.
Acabado o 7º ano - onde ambos pertencemos, no fundo da hierarquia, ao notável clube dos "furriéis" - o Vasco manteve sempre uma enorme e apaixonada relação com o Colégio e a nossa Associação de Antigos Alunos. Muitas vezes passava lá as manhãs de sábado a ver, orgulhoso, os netos nos treinos do Pentatlo.
Ao desafio do então Director colegial, Raúl Passos, para projectar um novo e complexo pavilhão desportivo que respondesse às actuais necessidades da formação desportiva de excelência, organizámos uma equipa peculiar: só podiam participar profissionais ex-alunos do nosso curso e nossos filhos. A nós juntaram-se o Adão da Fonseca e o Santos Coelho e os nossos filhos, o João Massapina, arquitecto e o Raul Bessa, engenheiro. E com a generosidade que punha em tudo que fazia, ao pró-bono dos projectistas, juntou o serviço do seu gabinete. Projecto que está pronto e à espera da inteligência de melhores dias para ver a primeira pedra.
E dessa sua permanente disponibilidade ainda resultaram, a pedido da nossa Associação, o anteprojecto do Colégio Militar de Timor e a reabilitação do Quartel da Formação para, a exemplo das "meninas de Odivelas", construir o nosso lar social.
Durante anos rimos - como gozávamos com o ar jamesbond de o "risco ser a nossa profissão" - e tivemos, longas, divertidas e interessantes conversas sobre políticas, politiquices, exercício da profissão, arquitecturas, urbanismo e, principalmente, sobre a mútua paixão da Cidade - essa obra-prima da capacidade do ser humano. Sempre disponível para a intervenção cívica e profissional, participamos, juntos, em muita actividade.
Por seu desafio e insistência - "a Ordem precisa da tua experiência", dizia - tenho sido nos últimos anos membro do Conselho Nacional de Delegados desta casa.
Gostaria assim por tudo o que nos liga que nós, camaradas do 209 de 57, trouxéssemos da nossa outra casa que será sempre do Vasco e para esta outra casa onde o Vasco  é membro honorário, a nossa saudação tradicional:
Senhores ex-alunos, de pé!
Pelo 209 de 57, pelo arquitecto Vasco Massapina, pelo nosso amigo Vasco: Zacatráz! Zacatráz! Zacatráz!
Zacatráz! Zacatráz! Zacatráz!
Zacatráz! Zacatráz! Zacatráz!
Ala, Ala! Arriba
Ala, Ala! Arriba
Allez, Allez à votre santé!


  

  


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

5 de Outubro

Convidado pelo Presidente fui às Comemorações do Dia da República na Câmara Municipal de Lisboa. Sentado na galeria junto de outros convidados vi chegar o Primeiro-ministro que, passando-nos na frente - literalmente en passant - lançou displicente: Bom dia. Como estão? Não resisti e lancei: Mal!, enquanto que o homem se refugiava na área dos gabinetes. A lata: com ar como se nada fosse, pergunta como se fossemos todos íntimos, como estão?! E com a governação que comanda havíamos de estar como? Bem?!    
Ouvi António Costa, a propósito da necessidade de preservar a memória, exigir a volta dos feriados de 5 de Outubro e 1 de Dezembro. E prometendo que Lisboa continuará a festejar um e outro com festejos adequados. Respondeu-lhe uma enorme salva de palmas - a única da sessão.
Depois falou Cavaco Silva. E por maior respeito republicano que possa ter por um Presidente não posso deixar de lamentar o teor e o tom do seu discurso. Pretensioso e fingido a deixar, no final, uma única e possível questão: E que fez Vossa Excelência com o imenso poder de que tem desfrutado ao longo de anos para evitar os males que nos apresenta como suas preocupações?  Um homem que passou anos no poder como primeiro-ministro e agora como presidente sacode, olímpicamente, a água do capote de culpas próprias para, qual extra-terrestre recém-aterrado, desatar a malhar por tudo quanto representa a sua acção e o seu pensamento político. Quer dizer, o homem mascara-se e rejeita qualquer responsabilidade pela actual situação. Quer como Presidente da República, quer como Primeiro-Ministro. Ou seja: nada tem com isto. Chegou agora...
Quer dizer que o que disse está errado? Nem por isso, mas faltou-lhe a dignidade corajosa de dizer que era parte do estado a que as coisas chegaram - que diabo, Cavaco Silva tem ligações ao poder de maior capacidade decisória durante quase vinte anos nos últimos 34 anos.
Acabada a cerimónia saí com Eduardo Lourenço, cumprimentámos António Costa, e fomos procurar um táxi - uma trabalheira em dia de Maratona - apanhável apenas próximo da Casa dos Bicos. Na volta, já sem a ajuda da sempre estimulante conversa deste camarada do Colégio Militar, perguntei, á vista de uns quantos de passo de corrida pesado, a um polícia: a que horas passaram os primeiros atletas? Ás 11 menos um quarto, respondeu. O relógio marcava 1 menos dez...

De povo, nada. O festejo da República fez-se sem povo. A praça da ovação da República não tinha o povo republicano que a defende. A História, na distração das nossas preocupações, está a perder-se neste jogo de apagamento forçado.

domingo, 7 de setembro de 2014

Inadmissível!

Um desenho repetido a repetir o que se repete
A derrota futebolística de hoje com a Albânia é inadmissível. E deve exigir responsabilidades e explicações. A quem comandou e a quem deu aval.

A Albânia conta muito pouco no mundo do futebol - ocupa o 67º lugar do ranking da FIFA a 704 pontos de Portugal que ocupa o 11º posto. Uma diferença abissal entre uma equipa com pretensões - a nossa - e uma equipa que conseguiu a sua terceira vitória em 43 jogos internacionais - a Albânia.

O que mais incomoda é o ar de formidáveis, de se pensarem supervedetas e serem incapazes - como já se viu no Mundial - de estabelecer as diferenças necessárias dentro do campo, nesse espaço onde as categorias se demonstram. O que incomoda é a mais do que demonstrada incapacidade de cumprir as exigências desportivas de uma modalidade colectiva. O que incomoda ainda é a falta de revolta perante o rame-rame que vamos desenvolvendo como se o direito da derrota pertencesse aos adversários.

Depois segue a conversa do costume sempre incapaz de encarar as coisas de frente. E a frente é esta: não expressamos talento suficiente para pretender uma selecção com pretensões a lugares mundiais de relevo.

E, continuando assim, sem procurar para encontrar, num faz de conta de azares - dos ais e os quase... - será cada vez pior. O mito do futebol português cairá pela base do que começamos a adivinhar no campo e nas secretarias.

Com óbvia pena de quem o gosta de ver bem jogado. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Atleta


Atleta, Conceição, Tavira
Nikon D300

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Gatos em férias


Nina da Ria Formosa, Knight de Campo de Ourique e Percy Vale D'Asseca em férias

domingo, 31 de agosto de 2014

Escrito na Parede


Parede em Tavira
Foto iPhone

terça-feira, 5 de agosto de 2014

BAUHAUS vence em Viseu

in internet
A memória da Arquitectura vence, por Phil BAUHAUS, em Viseu a 6ª etapa da Volta a Portugal em bicicleta. E venceu com um excelente sprint.
Não que as imagens aéreas que vimos do alto do hélicoptero da RTP nos mostrasse algo do traço que a escola alemã nos deixou em herança - as visões mais interessantes correspondiam a exemplos da arquitectura popular portuguesa mas com a maioria a mostrar-se no hibrido da construção sem risco que lhe valha a marcar conurbações de pouco carácter. 
Mas ter BAUHAUS no nome não é pouco ... pode até ser a causa de momentos de perplexidade de quem se lembre de conceitos e obras do fundador Walter Gropius - "A arquitetura é a meta de toda a actividade criadora” - dos posteriores directores Hannes Myer e Mies Van der Rohe acompanhados por Kandinsky, Klee, Itten, Marcel Breuer, Moholy-nagy ou Joos Schmidt e ainda das marcas conceptuais que nos seguiram na "a forma segue a função" ou no "menos é mais" que marcaram o modernismo que culturalmente nos marcou e abriu perspectivas mais amplas para um desenho integrado na obra-prima humana que é a cidade.
Uma enorme responsabilidade de um nome que hoje marcou presença vencedora em Viseu. 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Desportivismo

O Pódio 2014: Péraud, Nibali e Pinot
Foto de 
Le Tour de France, TDFbySKODA
A última etapa do Tour tem regras, obrigando os corredores a cumprirem os códigos que eles próprios definiram. Por isso é sempre um grande espectáculo ver as últimas voltas do circuito dos Champs Elysées com o pelotão apinhado dos sobreviventes que, depois de enormes sacrifícios e esforços conseguiram cumprir a sua ambição: chegar a Paris. E ontem não falhou o entusiasmo: os combóios das equipas a prepararem o caminho para os seus sprinters foi digno de admirar - e a velocidade a que vão... O sprint final entre Marcel Kittel, o vencedor, e Alexander Kristoff, segundo classificado, foi de cortar a respiração. Que momento!
Mas viu-se mais.
O francês - e um dos mais velhos do pelotão - Jean Christophe Péraud caiu, já dentro de Paris e por causa de uma garrafa, a 43 quilómetros do final da etapa. Em segundo lugar da classificação geral, a pouca diferença que trazia de vantagem sobre o terceiro - o também francês Thibaut Pinot que ganharia o Prémio da Juventude - viu o seu lugar no pódio em risco. Principalmente se alguém resolvesse acelerar a velocidade do pelotão.
E foi o que aconteceu: conhecedores ou não da queda de Péraud alguns ciclistas, que não Pinot, resolveram atacar.
Então, do meio do pelotão, saiu o grande - o enorme - camisola amarela e vencedor do Tour, Vicenzo Nibali para, com gestos determinados e que não deixavam dúvidas a ninguém, impor ordem - no que foi seguido por outros ciclistas - aos violadores do imperativo código. Bonito gesto e uma exigência de desportivismo a demonstrar que, apesar de profissional, o desporto pode ter a decência por base. Grande Tour!

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Cândido, o Cadol


O trabalho das equipas
Foto de Le Tour de France, TDFbySKODA

Gosto do Ciclismo que se traduz em corridas, principalmente por etapas. Gosto das estratégias e tácticas que as equipas utilizam para colocar os seus melhores em posição de vitória - gosto da componente colectiva desta modalidade.
Ver a Volta a França através da excelência das imagens que a televisão nos proporciona - juntando às imagens desportivas as imagens aéreas da ocupação do território (haverá imagens mais interessantes do que uma vista aérea de um aglomerado urbano?) - é qualquer coisa de extraordinário. E se houver luta desportiva, então o tempo é muito bem passado, divertido e, muitas vezes, entusiasmante.
Quem primeiro me mostrou o que eram os encantos do ciclismo foi o Cândido mais conhecido por Cadol, garagista - como o classificávamos - que nos arranjava os furos das câmaras de ar das bicicletas. Mecânico de bicicletas de profissão, louco pelo F.C. Porto, fazia, volta não volta, a Volta a Portugal. E era dele que ouvíamos as estórias dos ataques, das duras subidas, das loucas descidas. Do Sousa Santos, do Ribeiro da Silva, do Alves Barbosa, do Emídio Pinto, do Carlos Carvalho, do Sousa Cardoso e sei lá mais de quantos que a memória já não guarda. Tinha um filho, o Copi, em quem depositava esperanças de campeão - construi-lhe uma bicicleta com volante de corrida à proporção do tamanho dele.
As estórias entusiasmavam-nos e levavam-nos - na nossa etapa anual com prémio da montanha e tudo - de Miramar aos Carvalhos para ver passar os ciclistas.
Sempre que vejo as Voltas, lembro-me - com alguma nostalgia - do Cândido, o Cadol, das suas estórias e daquele espaço escuro com uma lâmpada pendurada de um fio e cheio de óleos onde brilhavam rodas de bicicletas. E onde passávamos horas por cada furo a arranjar. 
Continuo a gostar de ciclismo.
Principalmente da sua componente colectiva - provavelmente por isso, sou favorável, como acontece na Volta à França, ao uso de comunicações rádio: para que todos os membros da equipa tenham percepções semelhantes da corrida e possam agir em conformidades com os melhores interesses da equipa. O trabalho em equipa - numa distribuição de trabalho altamente organizado - é formidável: na protecção do seu chefe-de-fila (o nome diz tudo da expressão táctica colectiva), nas perseguições, no aumento de ritmo para desgastar adversários - os combóios são de notável expressão técnica e estética - na preparação para a melhor colocação do "seu" sprinter. A transmissão televisiva da Volta a França é um espectáculo que procuro não perder. Depois segue-se a Volta a Portugal, a Vuelta e o que mais houver entrecortado por jogos de rugby vindos do outro lado do mundo.
Continuo a gostar de ciclismo.

domingo, 20 de julho de 2014

Miguel de Vasconcelos

Miguel de Vasconcelos, Hélder Costa, Catarina da Rússia e Robespierre
Foto de Adriana em smartphone


No início da semana que passou participei, em A BARRACA e a convite do Hélder Costa, nos seus habituais "Encontros Imaginários" que reuniam desta vez a Catarina da Rússia (Leonor Areal, realizadora), Robespierre (Filipe Faria, Sociólogo) e Miguel de Vasconcelos, cabendo este último a mim. 
Foram momentos muito divertidos que tiveram por base, como sempre, excelente texto de Hélder Costa. Na minha figura de traidor - naturalmente a desdenhar de quem o chamava e a lembrar que a aristocracia portuguesa se mostrava, em geral, adepta dos Filipes - para além de tratar mal (pudera!) Robespierre e de estabelecer óbvia aliança com a Catarina ainda me pude interrogar sobre essa estória de traidor como, se ao aumentar os impostos em favor de estrangeiros tivesse feito diferente daquilo que nos fazem hoje os actuais governantes: traidor, não! percursor, sim! E ainda tive oportunidade de aceitar um convite da Catarina para ir para S. Petersburgo.
Foi divertido e só tenho a agradecer ao Hélder, à Leonor e ao Filipe, companheiros do mesmo Encontro.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Charlie Haden (1937-2014)


Charlie Haden com Carlos Paredes e Fernando Alvim no Hot Clube de Portugal, 1976
(foto: João Paulo Bessa) 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Reduzidos a cinzas

O paleio do sr. Scolari e o facto de trazer um título mundial na carteira aldrabaram-me quando chegou a Portugal - ingenuamente julguei que iria trazer coisas novas que pudessem transformar o futebol português. E, estúpido, acreditei. Comecei a desconfiar que não seria assim quando vi a selecção portuguesa a jogar - o paleio não tinha tradução prática, nada se transformava... mas a malta deixava-se ir na conversa das bandeirinhas à janela.
O final é conhecido, resultou no Euro sanduíche: derrota à entrada, derrota à saída contra os mesmos gregos e da mesma maneira. Ainda hoje tenho enorme amargo de boca da lembrança do desperdício de uma oportunidade que não retorna - tudo se ficou por marquetings saloios, num sempre em festa irresponsável. E desportivamente com erros elementares - como se a organização da festa nos garantisse o direito ao título.
Dez anos depois, igual... mas no Brasil. O desastre dos 7-1 do Brasil do sr. Scolari contra a Alemanha devem colocá-lo no plano onde deve estar: treinador banal que vive de auréolas exteriores à capacidade de pôr uma equipa a jogar de forma a garantir a máxima eficácia dos jogadores que a compõem e a melhor capacidade para anular as vantagens do adversário. Que é o que lhe compete enquanto treinador. O que a este alto nível significa demonstração prática de inteligência estratégica e táctica. Coisa de que nada se viu como demonstram os erros cometidos contra a Alemanha: assim como se as rezas garantissem o título tido por direito - Deus, existindo, não tem por missão tratar daquilo que é, no campo desportivo, exigência humana. 
Decididamente não gosto do sr. treinador Scolari e não lhe perdôo a derrota de Portugal na final do Euro 2004 - da qual me vou lembrar para o resto da minha vida: sentado na bancada com a família a ver a ineficácia...
Para o Brasil espero que esta derrota lhes permita reconhecer os erros do sistema do seu futebol - muita coisa está obviamente errada e as vozes que o denunciam devem agora ser melhor ouvidas. A derrota é brutal mas permite a mudança. Agora e acertada e aos que hoje choram o vexame, cabe a exigência.

domingo, 6 de julho de 2014

Os interesseiros

As opiniões do jornalista alemão, Harald Schumann, que está a realizar um documentário sobre a troika e que foram publicadas no Público de 4 de Julho de 2014:

"A ideia de resolver o problema da dívida através da austeridade falhou completamente. A dívida é agora ainda mais insustentável do que era há três anos. Os programas são também extremamente enviesados. Todo o fardo é assumido pelos trabalhadores e pelos contribuintes normais, enquanto as elites privilegiadas, que conseguem evadir a sua riqueza através dos offshores e que são as maiores responsáveis pela crise, até conseguem lucrar com os programas de ajustamento.
Por exemplo, quando conseguem comprar activos valiosos ao Estado a preços de saldo.
[...]
O “resgate” errado, que apenas salvou os investidores estrangeiros, principalmente alemães, de perderem nos maus investimentos que fizeram, mina a confiança nas instituições democráticas dos países afectados. Os governos e os parlamentos desses países parecem ser apenas marionetas nas mãos de desconhecidos — e não eleitos — burocratas estrangeiros. E, ou, de investidores.
[...]
Agora, em muitos países, estão em ascensão forças nacionalistas, que prometem ver- se livres desta Europa opaca e não democrática. Esta receita, se posta em prática, tornar-nos-ia, a todos, mais pobres. Perderíamos todos os ganhos da divisão transnacional do trabalho. Mas é precisamente porque os nossos governos mantêm os cidadãos em iliteracia económica, para camuflar a verdade e os interesse que servem, que estes extremistas são bem sucedidos. Por isso, todos os que não queremos que a Europa regresse aos tempos sombrios do século passado temos de fazer o que estiver ao nosso alcance para criar um discurso público que ultrapasse as fronteiras nacionais. Ou o conseguimos, ou o projecto europeu irá ruir."

Esclarecedor!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

BILHETE DE VOLTA

Foi mau, muito mau. E é um dever exigir explicações. Não sobre o remate à trave, ou o falhanço inacreditável só com o guarda-redes pela frente mas sobre tudo o que se passou desde a decisão contratual ás decisões de partida e estada, dos percursos, dos sítios, da escolha de jogadores e mais etc. e etc.

Ou seja: o que parece ressaltar do que vimos é que os erros se estenderam por todos os sectorese departamentos. E se são erros, devem ser reconhecidos para que - numa regra de ouro do Alto Rendimento desportivo - não se repitam; se não foram erros é preciso saber que o não foram e saber então o que foram. Porque alguma coisa foram e ciência não foi.
O jogo de hoje foi, apesar da vitória, um desperdício: por sorte dos deuses - que já nos tinha dado o golo de Varela - o Gana, num repente, percebeu que tinha as malas feitas e nós Selecção de Portugal fomos incapazes de aproveitar a oportunidade, jogando fora, umas atrás das outras, as hipóteses que nos surgiram. Porque, num repente, os deuses tinham girado as rodas para o nosso lado sem que, no relvado, o tivessem percebido ou não aproveitado.
A periferia quando não culturalmente assumida, só se traduz em desfasamentos. Em desacertos com o momento e com o sítio. Principalmente quando se lhe junta a mitologia que nos impôs o silêncio de quarenta anos do orgulhosamente sós. A periferia paga-se caro e a mitologia da supremacia não dá qualquer troco: na realidade sustenta o provincianismo. De que é exemplo o provincianismo da focagem absoluta no "maior jogador do mundo" - como se o futebol não fosse uma modalidade colectiva...
A  questão é esta: temos direito a explicações - se esta visível incapacidade se passa no futebol, a modalidade mais rica de Portugal, o que não será das outras modalidades colectivas desportivas. Se são estes os exemplos que fornece quem mais pode numa demonstração constante de um deserto de ideias disfarçadas em azares e ais duns quases sempre a destempo, que podem fazer os outros? Que exemplos, que conhecimentos, que consequências nos são transmitidas? Que aprendizagem nos é facultada? Que lição nos é garantida?
Explicações, exigem-se! ...
... Ou teremos o direito de entender que houve interesses que, sob a vulgata da incerteza desportiva - o futebol é assim mesmo - vantajosamente se sobrepuseram.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Rui Costa - tri-vencedor da Volta à Suiça

\0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/ \0/

Foto do site de Rui Costa

Parabéns Rui Costa!
Vale-nos o nosso Campeão Mundial. Venceu pela terceira vez consecutiva a Volta à Suiça - ver a subida dos três últimos quilómetros é impressionante da classe do nosso ciclista - e agora é o terceiro - depois de Contador e Quintana (recente vencedor da Volta à Itália) - do ranking mundial. 
Agora é contar os dias para a Volta à França.


[e o Tiago Machado venceu a Volta à Eslovénia prova do nível da Volta a Portugal]
O ciclismo português está em grande.

DESADEQUADO

Depois dos resultados obtidos a conclusão é evidente: a preparação da equipa portuguesa para o Mundial não foi adequada! E não vale a pena contar estórias e ignorar evidências: cometemos o mesmo erro no Mundial da Coreia e não soubemos aprender nada. Preparamos mal o Mundial!

No desporto - como aliás na vida - é admissível cometer erros - errar é humano, diz-se - o que já não é admissível é repetir o mesmo erro. Que repetimos quer na preparação quer no eterno recuar a dar hipóteses ao adversário.

Joga-se como se treina, treina-se como se joga é o conceito do desporto colectivo que encerra toda uma metodologia que é necessário cumprir para atingir os patamares de sucesso. A evidência do que fizemos transporta-nos para a evidência do erro no uso do método. Estivemos mal, muito mal!

Portugal, a nossa selecção nacional de futebol, não esteve à altura de quem se ficciona num 4º lugar de um ranking FIFA sem sentido. Nem das expectativas que nos foram criando num constante atirar poeira para os nossos olhos. Foi muito mau! Mau por parte dos dirigentes, mau por parte da equipa técnica, mau por parte dos jogadores.

A responsabilidade desta negativa participação pertence por inteiro aos dirigentes, à equipa técnica e aos jogadores. Importam-se de fazer as alterações necessárias?

segunda-feira, 16 de junho de 2014

NÃO É ACEITÁVEL

No desporto exige-se a humildade necessária para que nos seja possível tirar o máximo partido das capacidades que temos; a vaidade e o convencimento retiram-nos capacidade de análise, de execução e de clarividência para impedir que entendamos que o erro, para além de costas largas, termina sempre na culpa do árbitro.
O banco português desde cedo focou no árbitro os erros evidentes da disponibilidade física e psíquica dos jogadores portugueses de que o atraso desmesurado para o guarda-redes foi o prenúncio de um cartão vermelho - encostar a cabeça, coloque ou não em perigo a integridade física do adversário é um acto inadmissível, anti-ético, num campo desportivo - e do golo onde a superioridade numérica portuguesa de jogadores "em jogo" era evidente.
Palavras leva-as o vento, cartas de amor são papéis, escreveu o poeta que provavelmente nada sabia de futebol ou de campeonatos do mundo mas que alerta para a conversa da treta em que e ao que parece, nos tornamos especialistas: estamos aqui para ganhar! a nossa selecção é a maior! tragam-nos a Taça! Como se o apuramento ou alguns dos jogos de preparação não nos mostrassem o contrário e onde só um ranking feito de forma canhestra ajuda à mentira (quem é 4º do ranking mundial não joga assim!).
[a Alemanha jogou contra um sol violento que o horário tornou muito mais difícil para o guarda-redes. Nem partido dessa vantagem se viu jeitos...]

Quatro-zero não é resultado aceitável para uma equipa que a comunidade futebolística nacional considera como das melhores mundiais.
Como se sai daqui? Sabendo que a derrota ensina, só há uma maneira possível: a honestidade de um acto de contrição colectivo - de jogadores, responsáveis técnicos e dirigentes - que possa recolocar a focagem de cada um e de todos numa diferente atitude e forma de encarar um jogo internacional, colocando na entrega, na velocidade, na entreajuda, na vitória, as questões essenciais em cada momento daqueles que se encontram em campo.
Certo é que ou os jogadores portugueses mudam radicalmente de atitude e garantem uma postura adequada a uma presença num campo desportivo onde a capacidade de luta, de resiliência e de sofrimento fazem os vencedores - sem sangue, suor e lágrimas não há vitórias! - ou a nossa passagem pelo Mundial do Brasil ficará, de novo e negativamente, na história futebolística nacional.
E o pior que podemos fazer é a eterna desculpa dos fracos e medíocres: pôr na arbitragem as desculpas do descalabro que apenas a nós pertence - jogamos muito pouco, fomos completamente ineficazes e sem qualquer tipo de consistência colectiva.
Dar a obrigatória volta depende apenas da nossa coragem e honestidade competitivas. E o primeiro passo da mudança será não aceitar nem mascarar o que se passou no jogo. 

domingo, 1 de junho de 2014

As Meninas da Luz


Colégio Militar, 28 de Maio 2014 - a partir de foto de Silva Alves

O Colégio Militar de género misto está, num sinal dos tempos - o género feminino já conquistou nas sociedades ocidentais os direitos de acesso a todas as áreas de actividade - a que só desatentos ao mundo que nos envolve podem colocar estranheza, a tornar-se uma realidade. 

As raparigas que, actualmente e na sua enorme maioria, entraram por primeira escolha para o Colégio Militar, mostram-se satisfeitas e dizem até que querem o estatuto de "internas" porque "é mais divertido!"

Mas nem tudo são rosas. Devido às péssimas decisões do Ministério de Defesa - num despautério incompetente, desproporcionado e temporalmente errado - as "Meninas da Luz" não estão nas melhores condições podendo até falar-se de segregação em aspectos que dizem respeito a espaços e acções de lazer ou fardamentos, por exemplo. 

Com um início pouco brilhante e onde a Igualdade de Género ou a Igualdade de Oportunidades - valores essenciais desta nova faceta - não parecem estar devidamente acauteladas por responsabilidade das acções, repete-se, do Ministério da Defesa, espera-se que os responsáveis da Direcção colegial, da Associação de Pais e da Associação de Antigos Alunos consigam impôr as necessárias rectificações que evitem a realidade do ditado de "o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita".

E esta mudança para o estatuto misto - ao contrário do que pretende o Ministério da Defesa - nada obriga ao desaparecimento do secular Instituto de Odivelas. Uma coisa nada tem a ver com a outra. A não ser a comando de interesses.

sábado, 31 de maio de 2014

Janelas discretas


Foto iPhone, Stº António, Lisboa

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Fugir com o rabo à seringa

Já nem sei porque me admiro.
O senhor ministro Marques Guedes chegou ao Estádio de Honra do Complexo Desportivo Nacional do Jamor e, sobre os graves incidentes da final da recente Taça de Portugal, disse sem qualquer pudor que eram resultado de "alguma percepção errada  por parte de pessoas que queriam entrar que pensavam que o acesso para o topo norte só se poderia dar nos torniquetes deste canto da praça da Maratona quando não é verdade [...]". 
Percepção errada?! Não era verdade?!
Claro: a culpa dos maus momentos passados pelas pessoas, não é da organização incompetente ou da incapacidade policial. A culpa, segundo o senhor ministro, é da percepção errada. De quem? Das pessoas, pois claro! 
O que, isto sim, não é verdade! As pessoas limitaram-se, civilizadamente, a cumprir com as instruções combinadas do que liam impresso nos seus bilhetes e aquilo que viam nas indicações colocadas expressamente para o jogo na Praça da Maratona. 
Senhor ministro, não é decente sacudir a água do capote para disfarçar a irresponsabilidade e incompetência demonstradas. Não é bonito, nem sério.
Popularmente a sua actuação de hoje só tem um nome: fugir com o rabo à seringa!

Arquivo do blogue

Seguidores